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Paraense Nando Lima fala sobre sua trajetória

segunda-feira, 02/04/2012, 00:48 - Atualizado em 02/04/2012, 00:48 - Autor:


O que Nando Lima faz não costuma gerar dinheiro. É um tipo de arte que brota de experimentos, pesquisas e incursões pelo desconhecido, por tudo aquilo que o inquieta. No teatro contemporâneo desse paraense de 48 anos, a investigação é apenas o princípio. O que floresce depois surge impregnado pelo diálogo com outras linguagens artísticas. Há performance, há audiovisual, há teatro.


Autodidata, ele nunca frequentou uma universidade para aprender e entender o próprio ofício. Não que achasse desnecessário. Nando experimenta, mistura, propõe, testa. O resultado surge diante dos olhos do público, bem perto, no recanto intimista da sala do Estúdio Reator, espaço criado pelo artista em 2010, onde os trabalhos desenvolvidos por ele e por uma rede de colaboradores emergem do subterrâneo teatral, da margem, e redirecionam os holofotes - quase sempre voltados para os grandes palcos. É arte que tenta se auto-sustentar, mesmo sempre precisando de dinheiro para poder existir.


A provocação como norte em 30 anos de estrada


Na entrevista a seguir, Fernando Augusto Lima de Queiroz, o Nando Lima, conversa com o VOCÊ sobre o trabalho realizado no Estúdio Reator e a trajetória artística que percorreu ao longo de quase 30 anos de carreira.


P: Voltemos no tempo. Começaste no teatro na década de 80. Como foi esse início e toda essa caminhada que culminou no trabalho que desenvolve no Estúdio Reator?
R: Comecei no teatro com Erlon Pascoal, em 1983, nas Oficinas de Teatro da Casa de Estudos Germânicos. Depois em 1985 com o grupo “Pé na Estrada”, na época dirigido pelo Edgar Castro. Daí, passei por vários grupos da cidade, incluindo o “Grupo Experiência”, com o Geraldo Sales, e o Grupo Usina Contemporânea de Teatro, onde participei de diversos espetáculos, inclusive dirigindo alguns. O primeiro foi em 1990, o “Anjos sobre Berlim”, neste espetáculo já havia 40 minutos de vídeo com a direção e câmera do Aníbal Pacha, e criado em parceria com todo o elenco: Beto Paiva, Alberto Silva Neto, Anne Dias, Oriana Bitar, Claudio Melo, além de Leo Bitar, na sonoplastia; Uirandê Holanda, na maquiagem e cabelos; Ronaldo Fayal assinando os figurinos. No espetáculo acontecia uma performance da Maria Alice Penna que assinou a coreografia. Portanto, desde o primeiro espetáculo que dirigi, já havia essa intenção de misturar linguagens, equilibrando ideias com varias ferramentas. Isso tornou-se uma constante no meu trabalho, e tudo que fiz e faço daí pra frente tem essa marca de misturar; do experimental, de investigar mass mídia, e colocar conflitos humanos do nosso tempo.


P: O teatro que você faz hoje tem a experimentação como ponto de partida. O que sso lhe permite e traz como resultado?
R: Não quero investigar as verdades eternas, sou um cara que vive as agruras do planeta degradado, das relações humanas supérfluas, do hipertexto, da civilização errante; estou enfiado nesse mundo e sobre ele é que quero refletir.


P: E esse direcionamento para a experimentação foi escolha ou necessidade?
R: Absoluta necessidade; escolher você escolhe ser advogado, ou economista, ou odontologista. Mas arte é inquietação, não cabe em teses, é preciso viver intensamente, não tem nada a ver com a cultura babaca do sucesso e das celebridades, ou dos mercados.


P: Atualmente, o Estúdio Reator é o espaço em que você mostra o resultado as suas incursões e pesquisas por várias linguagens artísticas. Antes, dele, como funcionava esse processo?
R: Sempre estive perto de pessoas inquietas e provocadoras como a Wlad Lima, que me levou por vários caminhos da sua própria inquietação, ou do Alberto Silva Neto, que é outra pessoa com um olhar muito próprio sobre o teatro e a arte em geral; assim como o Tadeu Lobato que é um artista ímpar e com um conhecimento acurado de processos e meios. Pessoas e projetos com vocação para a margem sempre me envolveram, e sempre tentei provocar interações por onde passei, parte disso atribuo ao trabalho realizado na Fundação Curro Velho e a convivência com a Dina Oliveira que é mestre em mesclar processos e instigar ideias.


P: O Estúdio se mantém como uma rede colaborativa de artistas e profissionais ligados ao segmento. Ele já nasceu com esse princípio?
R: Sim, o Reator tem em si o gene da colaboração da convivência com experiências diversas. Não há um método claro, nem é essa a intenção, é um lugar de amigos, de pessoas que têm opinião sobre o fazer artístico que difere das posturas mais convencionais, e, dentro de seus trabalhos, que em alguns aspectos são opostos; se complementam.


P: Cinco espetáculos teatrais já passaram pelo palco do Estúdio. Qual foi o primeiro deles?
R: Na verdade começamos abrindo o Reator em novembro de 2010 com um show de música muito especial chamado “Invento”, da cantora Sônia Nascimento, que chamou o Renato Torres, o Rubens Stanislaw, e o Diego Xavier e fez um show lindo!


P: O seu espaço de trabalho também é a sua morada. Claro que com todos os limites estabelecidos. Você não paga aluguel, mas há outras despesas envolvidas na manutenção da atividade do local. Com o público que recebes no lugar, você consegue ter retorno financeiro que seja suficiente para garantir o funcionamento constante do estúdio?
R: Nenhum espaço como o nosso é auto-suficiente em relação a finanças, aliás desafio alguém a me mostrar em Belém algum lugar, mesmo os grandes teatros do poder público, que consiga pelo menos 80% de seu financiamento com recursos de bilheteria. Sou sabedor disso, pois já administrei o Teatro Waldemar Henrique, o teatro Maria Sylvia Nunes, entre outros espaços. Temos uma forma clara de administração em relação a dinheiro, o que entra em bilheteria é dividido em percentuais previamente estabelecidos. Porém, o certo é que pagamos para fazer o que acreditamos, mas isso é também parte do processo.


P: O Reator se estabeleceu na cena teatral da cidade como um novo espaço alternativo para a circulação dos produtos artísticos locais. O que se percebe, é cada vez mais o surgimento desses espaços. Ao que você credita isso? Seria esse um fenômeno recente? Local? Ou só agora é que a cidade começou a prestar atenção na existência deles?
R: Ateliers, estúdios, pequenos teatros, enfim vejo como um reflexo da produção artística, há espaço hoje para as grandes produções que envolvem muito dinheiro e interesses diversos da mídia, de grandes corporações privadas e até do poder público, em tratar a cultura como show e indústria; como sempre houve também uma movimentação mais subterrânea, mais underground. Me parece que a grande diferença hoje é que o acesso à comunicação via internet faz com que as pessoas recebam essa informação diretamente do artista que produz, o que queima etapas e filtros. Hoje podemos ir diretamente ao nicho que nos interessa, e estamos mais acordados para nossos sonhos.


Sobre o Estúdio REATOR
Criado em novembro de 2010 por Nando Lima, em parceria com artistas, grupos e companhias artísticas de Belém. O espaço recebe espetáculos de artes cênicas, música e trabalhos no segmento das artes visuais. O local serve como ponto de pesquisa e Integração das linguagens do teatro, da performance, dança e vídeo.


Na Música, de pesquisas na área da tecnologia musical, e seus processos de criação. Nas artes visuais, abre espaço para os trabalhos de fotografia, objetos, instalações e intervenções urbanas.


Endereço: Travessa 14 de abril, nº1053, entre av. Governador José Malcher e av. Magalhães Barata

Criação em rede
Conheça a rede de colaboradores que hoje integra o Estúdio Reator:
Nando Lima- performer
Telma Lima - modelista e administradora
Leo Bitar - sonoplasta e ator
Danilo Bracchi - coréografo e bailarino
Marcelo Rodrigues - videomaker
Milton Aires - ator
Jeferson Cecim - bonequeiro - ator
Luciana Medeiros - jornalista
Alexandre Sequeira - fotógrafo
Espetáculos: Invento, Incidental, Morgue Insano e Cool, Miasombra, RedBag


LINHA DO TEMPO


Conheça alguns dos principais trabalhos de Nando Lima:
Diretor
The hall - 1991
Brancabatarse - 1994
Leve barato - 2003
Frozen – 2006
Morgue insano and cool – 2010


Ator
Leão Azul – 1990
Sombra à L’ombre - 1995
Leve Barato – 2003
80 já era – 2005
Morgue Insano and Cool – 2010
Cenógrafo
A koyza extranha - 1985
Dama da noite - 1991
O pássaro de fogo do meu coração – 2002
Frozen – 2006
Red bag - 2011
Artista visual
“O Vestido Maravilhoso” vídeo com fotografias de Elza Lima e texto de Monteiro Lobato
(Diário do Pará)

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