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Círio

Corda do Círio: nas suas mãos, o símbolo do poder da fé

segunda-feira, 15/10/2018, 07:38 - Atualizado em 15/10/2018, 07:45 - Autor:


Antes mesmo de um dos grandes símbolos de devoção do Círio de Nazaré ser estendido no chão, uma multidão já formava uma corda imaginária ao longo da avenida Boulevard Castilhos França. A missa que dá abertura à procissão ainda nem havia iniciado e o céu ainda se mantinha escuro acima das cabeças dos promesseiros, mas por volta de 4h30 de domingo muitos já aguardavam para garantir o seu lugar no símbolo do Círio.


Quando finalmente a corda de sisal foi esticada pelos Guardas de Nazaré, a emoção tomou conta dos romeiros. Houve quem apenas olhasse para o objeto, quem estendesse a mão em oração e mesmo quem se ajoelhasse no chão para beijar o símbolo que acompanharia a devoção de tantos fiéis.



(Foto: Celso Rodrigues/Diário do Pará)


Antes que todos sentassem sobre a corda como forma de reservar o seu lugar, o pedreiro Alberto Santos, 37 anos, abaixou-se, apoiou a testa em cima da corda e rezou. Nas orações emanadas a Nossa Senhora, o promesseiro pediu forças para cumprir, pelo 4º ano seguido, a promessa de puxar a Berlinda até a Basílica Santuário de Nazaré. “Eu não posso falar o que foi a minha promessa, mas eu posso dizer que a minha graça foi alcançada e eu tenho muito a agradecer a Nossa Senhora”.


Posicionado na primeira fila de uma das estações – estruturas de ferro que são atreladas à corda – o engenheiro mecânico Rubens Vinícius, 52 anos, também reservava o seu lugar. Além da corda, ele pretendia seguir todo o percurso agarrado a uma imagem da Virgem Maria. “Eu sempre fui devoto de Nossa Senhora de Nazaré, mas foi quando eu completei 15 anos que iniciou a minha história na corda dela”.


Ainda adolescente, Rubens decidiu fazer uma promessa para pedir pela saúde da mãe. Hoje, 37 anos depois, o promesseiro conta que a mãe já está ao lado de Nossa Senhora, mas ele jamais deixou de cumprir a sua missão de fé. “Esse ano a minha promessa é pela saúde do filho de uma amiga. Ele vai precisar fazer uma cirurgia na cabeça e eu peço a Nossa Senhora para que dê tudo certo”.


CORTE


Mesmo com a campanha ativa pela diretoria contra o corte da corda, e o apoio da equipe de segurança, o Círio deste ano contou com o corte antes do encerramento do trajeto. O local do ato foi o mesmo do ano passado, nas proximidades da sede Social do Paysandu, na esquina com a Travessa Benjamim Constant, por volta das 9h55 da manhã, entre as estações 5 e 4.


Devido à pressa de contar com uma lembrança da festividade, os devotos aproveitaram a presença dos vendedores para ajudar no talho da corda, com objetos pontiagudos. Para o estudante Elias Albuquerque, de 22 anos, que conseguiu um pedaço do objeto, embora seja contrário a ação, reflete bem o simbolismo na ocasião. “Sei que tem uma estrutura, uma programação, mas é um momento único, sabe? Vou dividir com a minha família o que consegui pegar”, explicou.



(Foto: Marco Santos/Diário do Pará)


Entre lágrimas e dores, promesseiros seguem a sua missão: agradecer a graça alcançada


A relação de cumplicidade com Nossa Senhora de Nazaré começou há 20 anos. O motivo da missão encarada repetidamente a cada domingo de Círio ainda precisa esperar mais dois anos para ser revelada. Mas quem acompanha a devoção da dona de casa Liliana dos Santos, 58 anos, não tem dúvidas do tamanho de sua fé.


Com o céu ainda escuro da madrugada, Liliana já iniciava os passos que a levariam até a Basílica Santuário de Nazaré no Círio deste ano. Como companhia, além do pensamento em Nossa Senhora, a devota levava um terço, uma imagem de São José e uma cruz de madeira com quase 14 kg. “O que aconteceu comigo eu só vou poder relevar quando completar 60 anos”, explica.


Para que consiga acompanhar o Círio, Liliana viaja de Soure, no Marajó, até Belém com a cruz que lhe foi entregue por um senhor de idade e também marajoara. Para aguardar a procissão, a devota deixa a cruz na Igreja da Sé e, às 3h30 do domingo, volta ao local para montá-la e seguir a caminhada. “Esse senhor sonhou comigo e foi buscar madeira no meio do mato para fazer essa cruz. Ele me deu ela há 17 anos”, revela Liliana. “Eu não tenho palavras para explicar tudo o que aconteceu comigo desde então”.


Assim como Liliana, as demonstrações de fé e gratidão se multiplicavam ao longo do percurso do Círio mesmo antes da procissão iniciar. De diversas formas, os fiéis encontravam o seu jeito de pagar pelas promessas realizadas.


Para o universitário Cleidison Aires, 29 anos, a forma de agradecer à Maria foi de joelhos. “Eu estava com dificuldade financeira para pagar a minha faculdade e pensei que teria que parar de estudar”, explicou, ao informar que faz faculdade de fisioterapia. “Mas eu me peguei com Nossa Senhora e ela me concedeu a graça de continuar estudando”.


Durante a pausa para ajustar o esparadrapo enrolado nos joelhos, Cleidison explicou como já havia conseguido chegar até ali, no início da avenida Presidente Vargas, e como pretenderia chegar até a Basílica Santuário. “Eu me sinto carregado por Nossa Senhora. Com certeza vai valer a pena todo o meu esforço”.




(Foto: Maycon Nunes/Diario do Pará)


Crianças também participam do ato de fé


O Círio também é uma oportunidade para reunir a família e repassar aos mais novos a tradição. Diversos pais levaram os filhos para acompanhar a procissão. A pequena Alessa da Luz, de 9 anos, por exemplo, que estava acompanhada ao lado do pai Robson Pacheco, de 33, contou um pouco do sentimento de fazer parte da festividade pelo sétimo ano seguido. Embora jovem, a garotinha reiterou a sua religiosidade. “Eu rezo todas as noites, só não quando estou com muito sono. Eu agradeço e sempre peço coisas boas para todos”, diz, confidenciando seu sonho para a próxima edição da festividade. “Eu queria ir no carrinho dos anjinhos, mas não deu esse ano. É um sonho meu, ano que vem espero que consiga porque é muito bonito”, completa.


Com a roupa branca brilhante e com o par de asas nas costas, o jovem Kaleo Santos, de quatro anos, foi um dos que participaram do Carro dos Anjos. Contudo, o anjinho não aguentou todo o percurso, assim, trocando o veículo pelo colo do pai, o mecânico Kleber Santos, de 37 anos. “Queria que ele participasse, tivesse essa tradição de pai para filho como tive. Lá (carro) ou aqui comigo, o importante é viver esse momento”, afirma Kleber.


(Cintia Magno e Matheus Miranda/Diário do Pará)

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