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Círio

Círio de Nazaré: no além-mar, surgiu a devoção

sábado, 08/10/2016, 21:57 - Atualizado em 08/10/2016, 23:06 - Autor:


A devoção a Nossa Senhora de Nazaré é secular e foi criada no entorno das águas, dos navegantes e dos náufragos, como ocorria em Portugal nos séculos XV, XVI e XVII. A imagem original da Virgem pertencia ao Mosteiro de Caulina, na Espanha, e teria saído da cidade de Nazaré, em Israel, no ano de 361, tendo sido esculpida por São José. Em decorrência de uma batalha, a imagem foi levada para Portugal, onde, por muito tempo, ficou escondida no Pico de São Bartolomeu.


Só em 1119, a imagem foi encontrada. A notícia se espalhou e muita gente começou a venerar a Santa. Desde então, muitos milagres foram atribuídos a ela. “Não é à toa que essa devoção chega ao Pará em Vigia, região de pesca do Salgado paraense, trazida provavelmente por marinheiros ou oriundos as região dos Algarves, no Sul de Portugal; ou do arquipélago dos Açores, no Atlântico”, destaca o historiador Geraldo Mártires Coelho.


ÁGUAS


Ele lembra que, no século XVI, o navegador espanhol Francisco Orelana percorreu todo o rio Amazonas, do Peru até o Atlântico, e utilizou o termo “mar Dulce” (mar de água doce). Muito do avanço da devoção mariana se deve pelo domínio desses aventureiros nas águas da região. “Não é à toa que na grande procissão do Círio do domingo vemos milhares de homens e mulheres com pequenos barcos na cabeça pagando promessas”, ressalta.


Mártires diz que essa “devoção das águas” em torno de Maria se repete em outras regiões do país e do mundo, tendo em vista que a água é um elemento de purificação. “Se olharmos a história, veremos que Nossa Senhora Aparecida, a padroeira do Brasil, também foi achada nas águas. O mesmo acontece com Nossa Senhora de Lourdes, na França; e Nossa Senhora das Fontes, em Portugal”, lembra o historiador. No caso do Pará, a imagem foi achada às margens do Igarapé do Murucutu.


Para entender: a Belém da época


A Belém de 1793, quando ocorreu o primeiro Círio, era uma cidade amazônica que sentiu os efeitos da política civilizatória pombalina. A economia paraense seguia fundada no extrativismo vegetal, cujos produtos eram comercializados com Lisboa. A cidade abrigava o aparato político da administração colonial, e as elites locais eram formadas por titulares da burocracia estatal, figuras do clero, oficiais militares e comerciantes de peso. A cultura local era essencialmente portuguesa, com base em uma literatura oficialmente consentida. A cultura popular mesclava fundamentalmente elementos indígenas e lusitanos, visível nas feiras e outros espaços públicos.


É uma tradição portuguesa, com certeza


O historiador Geraldo Coelho lembra que o primeiro Círio em Belém ocorreu em 1793. Quem governava o Pará era Dom Francisco de Souza Coutinho, um oficial da marinha portuguesa que, certamente, conhecia a fundo os últimos Círios que ocorreram em Lisboa, no Santuário de Nazaré, em Portugal. “Esse Santuário fica numa área de águas profundas, de muita pesca e naufrágios. Isso só faz reforçar essa relação de Nossa Senhora de Nazaré com as águas”, relata. “Hoje, esse é um dado concreto da cultura amazônica e, sobretudo, paraense”, relata.


Esse aspecto da devoção mariana sob a ótica das águas é considerado pelo historiador o mais significativo. Ele esteve em Portugal em 1997 realizando pesquisas para o livro “Uma crônica do maravilhoso; legenda, tempo e memória no culto da Virgem de Nazaré, que foi publicado em 1998. A publicação narra os primórdios da devoção mariana e do Círio até os dias atuais. “A cultura paraense merece que essa memória seja resgatada”, reitera Geraldo Mártires.


(Luiz Flávio/Diário do Pará)

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