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DEVOÇÃO

Guarda de Nazaré se prepara para atuar de forma mais restrita

Presente em todos os eventos que fazem parte do Círio, a Guarda de Nazaré se prepara para atuar de forma mais restrita este ano com a não realização das romarias em virtude da pandemia

domingo, 04/10/2020, 08:10 - Atualizado em 04/10/2020, 10:29 - Autor: Luiz Octávio Lucas


Guardas Reunidos
Guardas Reunidos | Arquivo Pessoal


Sem procissão, mas sempre com Maria

O Círio de Nazaré sem procissão nas ruas de Belém é algo inédito para todos, inclusive para quem tem a imagem associada à festividade de forma onipresente, como a Guarda de Nazaré. Afinal, aonde a imagem peregrina da santinha vai, os membros da corporação religiosa também vão. Acostumados a viver todos os momentos das romarias, sempre com o cuidado de organizar a aproximação dos devotos, os guardas também se preparam para atuar de forma diferente no segundo fim de semana de outubro.

“Este ano, nossas atividades estarão mais restritas à Basílica Santuário de Nazaré. Durante a quinzena, estaremos controlando o fluxo de pessoas na igreja durante a visitação à imagem original e na Praça Santuário pela visitação à imagem peregrina”, explica o coordenador da Guarda de Nazaré, Guilherme Azevedo, 49 anos. “Pela manhã, a Praça Santuário vai estar praticamente fechada porque a imagem vai sair para fazer visitas aos hospitais, mas durante a tarde vamos organizar para que não haja aglomeração de pessoas durante a visitação, dessa forma também acontecerá dentro da igreja”, continua.

Dos quatro anos dedicados à coordenação, Guilherme afirma que o momento difícil ocasionado pela pandemia de Covid-19 é desafiador também para os guardas. Dos cerca de dois mil integrantes, muitos são idosos e fazem parte do grupo de risco para a doença, mas o grupo teve perdas até mesmo de outras faixas etárias.

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“Durante esse processo de pandemia, esse período mais crítico, nós tivemos mais de cem casos de guardas contaminados em situação de hospital, de internação. Dentre eles, 22 faleceram”, lamenta. “Tivemos que baixar algumas normas proibindo a presença de guardas em algumas celebrações, até mesmo na Basílica, para que eles ficassem em casa. A equipe de saúde da guarda acompanhou de perto, foi um período muito difícil”, pontua o coordenador.

Dificuldade que até agora, mesmo com a flexibilização de várias atividades, prossegue. “Inicialmente ninguém estava entendendo muito. A vida do guarda é ligada à igreja e o fato de muitos não poderem estar presentes foi impactante”, observa. “O fato de não haver as procissões do Círio nos deixou um pouco frustrados, mas nós entendemos a situação. Nós temos que preservar a vida, por isso que entendemos essa situação”, garante Guilherme.

A mesma compreensão o coordenador espera que os devotos de Nossa Senhora de Nazaré tenham ao respeitar a recomendação de evitar aglomerações e não insistirem em ir para as ruas durante o fim de semana da programação virtual. “É orientação, nós temos avisado principalmente pelas redes sociais e demais meios de comunicação, pedindo que as pessoas evitem nesse momento as aglomerações”, informa. “Esse Círio é um Círio diferente, é um Círio de oração. Então a gente pode rezar, pode ficar em casa, fazer a nossa oração em família. Vamos fazer a nossa parte sem precisar estar inserido em uma procissão. Isso é muito importante nesse momento”.

GRAÇA E FÉ

Para o guarda de Nazaré Valdemir Reis Sousa, 62 anos, quatro deles dedicados ao trabalho na festividade, também fica a tristeza em ter de se contentar com um Círio sem romaria, mas, por outro lado, fica a alegria de viver o momento de outras maneiras.

“Eu sou de risco, mas tenho a fé de Deus e Nossa Senhora, que nos protegem. Venho ao Santuário por devoção a Ela e estou com muita saudade do nosso Círio que não vai ser tradicional, mas sim em casa com o Círio virtual”, se conforma. “Eu colaboro na caridade que a gente faz, as coletas, as cestas básicas distribuídas para as comunidades. Ninguém deve desanimar, para Deus nada é impossível e se Deus quiser em 2021 vai estar tudo normalizado e vamos ter o nosso Círio novamente”, acredita.

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Questionado sobre o motivo de tanta devoção, Valdemir conta sua história de fé. “Consegui uma grande graça, fui acidentado e passei dois anos sem ver a luz do dia. Depois que entrei na Guarda recuperei 70% de um lado da visão. Foi só de um lado, mas dizem que em terra de cego quem tem um olho é rei”, brinca.

RECONHECIMENTO

O reitor da Basílica Santuário e presidente da Diretoria da Festa de Nazaré, Pe. Luiz Carlos Nunes Gonçalves, exalta a importância do trabalho voluntário desses homens no dia a dia da paróquia.

“A Guarda de Nazaré presta um serviço valioso para a Basílica Santuário, sobretudo nesse período do Círio. Embora não tenhamos as procissões este ano, mas vão acontecer diversas outras celebrações e eventos. Eles são responsáveis de estar presentes onde está a imagem, com a missão de cuidar e zelar. Aonde a imagem peregrina vai, ao menos dois deles estão presentes. E também estão presentes nas celebrações”, explica.

Com a pandemia, a missão dos guardas ganha novas preocupações, como dispersar as aglomerações, incentivar o uso do álcool em gel ao entrar no Santuário, uso de máscaras e o distanciamento social. Tarefas, entre outras, a serem cumpridas com a autorização dos superiores.

“Eles não fazem algo senão o que é lhes orientado a fazer. É claro que algum pode ter uma atitude não recomendada, impensada, mas, no geral, eles fazem o que é necessário para o bem da pessoa que está frequentando a igreja. Devemos pensar sempre positivo. As orientações que os guardas dão são para o bem do fiel, de quem frequenta a igreja”, destaca Pe. Luiz Carlos.

Você sabia?

A Guarda de Nossa Senhora de Nazaré foi criada em 1974 pelo padre Giovanni Incampo. É considerada a maior guarda católica do mundo e conta atualmente com 2 mil integrantes, todos voluntários e do sexo masculino.

A atuação dos membros da Guarda não se resume à Festa de Nazaré, mas se desenvolve durante todo o ano com trabalho social, na igreja e em procissões e demais eventos com a presença da imagem peregrina de Nossa Senhora de Nazaré. Os guardas também lavam a igreja e a Praça Santuário em ocasiões especiais, recebem e ajudam a organizar a corda do Círio, entre outras atividades.

Pela importância social e religiosa, a Guarda é reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial do Pará, tem medalha de honra da Prefeitura de Belém, é considerada pela Arquidiocese de Belém como parte indispensável da Festa do Círio, além de ser considerada pela Santa Sé, no Vaticano, como “símbolo de amor e devoção Mariana”, nos pontificados dos papas Bento XVI e Francisco.

Como ingressar na Guarda?

Para fazer parte da Guarda de Nazaré é necessário fazer um curso de formação que este ano foi suspenso porque aconteceria na época do início da pandemia. Depois do curso, o aspirante é convidado a ingressar na Guarda e já se torna efetivamente um membro do grupo. É preciso ser maior de 18 anos.

A formação tem encontros aos sábados, de 14h às 18h, e dura cerca de três meses e meio. A diretoria da Guarda estuda abrir duas turmas, assim que possível, para atender a demanda represada com a suspensão por causa da pandemia. Atualmente, 400 aspirantes aguardam para ingressar na Guarda de Nazaré.

Segundo o coordenador Guilherme Azevedo, “o guarda é uma pessoa dedicada à evangelização, é aquela pessoa que está sempre presente nas celebrações, nas procissões, nas nossas ações sociais. É aquela pessoa que está sempre disposta a se dedicar à Nossa Senhora e ao próximo”.


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