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COMPLEXO DE ISRAEL

Traficantes evangélicos unem forças com milicianos para expandir poder no Rio

O grupo promove atentados contra religiões afro-brasileiras nas favelas.

segunda-feira, 04/01/2021, 08:33 - Atualizado em 04/01/2021, 08:33 - Autor: Com informações de IG


Milicianos que dominam o Quitungo posam armados.
Milicianos que dominam o Quitungo posam armados. | Reprodução

O “Complexo de Israel”, agora, une tráfico e milícia. Batizado por criminosos que se dizem evangélicos e proibiram em seus domínios a prática de religiões afro-brasileiras, o conjunto de favelas na Zona Norte do Rio passou a englobar uma comunidade dominada por paramilitares. Um inquérito da Polícia Civil obtido pelo EXTRA revela que um pacto fechado entre traficantes e milicianos do Quitungo, em Brás de Pina, culminou na união das quadrilhas e na adesão da favela ao “Complexo de Israel”, que já abrangia Vigário Geral, Parada de Lucas e Cidade Alta.

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O acordo — que prevê a união das quadrilhas em invasões a favelas dominadas pela maior facção do tráfico do Rio, rival de ambas — foi descoberto pela polícia durante uma investigação sobre um duplo homicídio no Quitungo, em junho passado. Jhonatan Batista Vilas Boas Alves, o Cepacol, e José Mário Alves da Trindade, o Cebolão, foram executados e tiveram seus corpos encontrados no porta-malas de um carro queimado na favela.

A Delegacia de Homicídios (DH) descobriu que as vítimas eram integrantes da milícia que, descontentes com o pacto com o tráfico, romperam com a quadrilha. A investigação terminou nas prisões, no mês passado, de três policiais militares acusados de integrar a cúpula da milícia do Quitungo e de serem os mandantes do crime. 

De acordo com o inquérito da DH, um grupo de paramilitares oriundo de uma localidade conhecida como Morro do Dourado, vizinha ao Quitungo — do qual as duas vítimas fazia parte — se recusou a se submeter às regras dos traficantes e a entrar em guerra com a facção rival, que domina os complexos do Alemão e da Penha. As imposições dos traficantes do “ Complexo de Israel ” vão desde a expulsão de pais e mães de santo da favela até a proibição de que moradores usem roupas brancas — cor usualmente vestida por praticantes do candomblé.

À DH, um parente de um miliciano que atua no Quitungo deu detalhes sobre a aliança dos paramilitares com o tráfico . Segundo o depoimento, o acordo foi costurado a partir de três integrantes do tráfico da Cidade Alta que tinham parentes no Quitungo. Eles “foram autorizados pelos milicianos a visitar seus parentes, dando início às tratativas de união”. Segundo a testemunha, o pacto foi selado em maio passado. No mesmo mês, os descontentes foram expulsos do Quitungo.

PM já era acusado da morte de Cláudia

Os três PMs que tiveram suas prisões decretadas pela Justiça por integrarem a milícia do Quitungo são os sargentos Zaqueu de Jesus Pereira Bueno, lotado no 7º BPM (São Gonçalo), e Gláucio Ferreira Gomes Damião, do 41º BPM (Irajá) e o cabo Carlos André de Oliveira Sodré, também do 7º BPM. Suas identificações foram fornecidas por testemunhas que moram na favela e confirmadas por um policial do batalhão da área, o 16º BPM (Olaria), que auxiliou a investigação e prestou depoimento na DH. 

O sargento Zaqueu, apontado no relatório do inquérito como “a maior liderança da milícia no Quitungo, sendo o responsável por coordenar e ordenar os atos praticados na comunidade ”, já foi preso por um caso de violência policial que chocou o Rio em março de 2014. Ele é o policial apontado como responsável pelos disparos que mataram Claudia Silva Ferreira, a dona de casa e mãe de oito filhos que, em seguida, seria arrastada por uma viatura da PM por 350 metros em Madureira, na Zona Norte do Rio.

O vídeo que mostra Claudia sendo arrastada pela viatura da PM por 350 metros da Estrada Intendente Magalhães foi revelado pelo EXTRA e levou à prisão do agente e de mais outros cinco PMs à época. Todos os agentes, então lotados no 9º BPM (Rocha Miranda), seriam libertados por decisão da Justiça meses depois. As imagens mostram a mulher pendurada no para-choque do veículo apenas por um pedaço de roupa. Apesar de alertados por pedestres e motoristas, os PMs não pararam.

Até hoje, no entanto, Zaqueu responde pelo crime em liberdade: o processo judicial contra os PMs pelo homicídio e remoção do cadáver de Claudia anda a passos lentos na 3ª Vara Criminal da capital. Somente em março de 2019, cinco anos após o crime, foi realizada a primeira audiência do caso, em que foram ouvidas testemunhas de defesa e acusação. 

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