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CONTRASTES DO CONFINAMENTO

'Casa-Grande & Senzala' em versão Covid-19 tem luta de classes virtual

sexta-feira, 15/05/2020, 23:24 - Atualizado em 15/05/2020, 22:24 - Autor: FOLHAPRESS


| reprodução

"Não dá mais Fran, a gente precisa ir para casa fazer quarentena", diz Marli à patroa. "Temos que cuidar das nossas famílias", emenda Dinah, a outra doméstica da casa.

A patroa avisa às empregadas que elas terão salários reduzidos à metade. A influenciadora digital Fran Clemente recorre então à terceira funcionária. "E você, Ju? Fica comigo, faz a quarentena aqui em casa. Melhor do que ficar na favela."

A história termina com a dona da casa fazendo ioga, enquanto a doméstica combina pelo WhatsApp repassar o valor que vai receber a mais para as colegas em quarentena. "É nós por nós."

As cenas e os diálogos são da série em quadrinhos "A Confinada", de autoria do ilustrador e roteirista Leandro Assis, e da escritora e ativista Triscila Oliveira.

Publicadas no Instagram, as tirinhas viralizaram. "A ideia é mostrar a luta de classe no contexto da pandemia", explica Leandro.


A dupla retrata os contrastes do confinamento de uma socialite entre as quatro paredes de um apartamento de mil metros quadrados e da doméstica mergulhada em seus afazeres e limitada ao quartinho na área de serviço.

As situações ficcionais da série, que está no sexto episódio, encontram paralelo em diversos arranjos feitos Brasil afora.

"Ainda existe muito forte essa relação 'Casa-grande & Senzala'", afirma Triscila, 35, referindo-se ao clássico de Gilberto Freyre. "Na série, estamos mostrando o privilégio que é poder se isolar para se proteger do coronavírus, enquanto as domésticas estão longe de casa ou arriscando a vida para ir trabalhar."

Filha de uma empregada aposentada, ela trabalhou em casa de família dos 12 aos 20 anos e tem sete tias, todas domésticas.

Esse exército familiar de avental serve de inspiração para "A Confinada". Razão de os diálogos da patroa Fran com a empregada Ju serem tão realistas e ganharem ressonância nas redes sociais dos criadores da série.

"Essa trupe de influenciadoras 'maras' são um desserviço para a população", escreveu um fã de "A Confinada", no perfil de Triscila no Instagram, que tem 150 mil seguidores.


A conta é o contraponto às "blogueiras-ostentação". Em 6 de maio, ela chamava a atenção para duas notícias que ajudam a entender o Brasil e seus paradoxos. "Belém inclui domésticas entre os serviços essenciais durante lockdown" e "Ricos de Belém escapam em UTI aérea de colapso nos hospitais da cidade".

Ricos diagnosticados com a Covid-19 chegam a pagar R$ 120 mil por trecho Belém-SP via UTI aérea

A cyberativista conta ter ouvido de parentes o argumento de que manter a empregada em casa durante o confinamento é um ganha-ganha.

"Dão essa maquiagem humanitária, de que elas estão melhores com os patrões do que na favela. Só que não cola esse papo de que a empregada é da família. Elas não podem botar o pé na piscina", critica.

Para Triscila, as trabalhadoras domésticas são a categoria que mais sofre em situações de crise. "Basta ver como estão sendo tratadas nesta pandemia, com muitas forçadas a continuar trabalhando sob o risco de serem dispensadas."

Segundo Janaína Mariano de Souza, presidente do Sindicato das Empregadas e Trabalhadores Domésticos da Grande SP, houve um aumento de 70% na procura pelo serviço de tira-dúvidas da entidade na pandemia.

Logo que saiu a MP 936, que permitia a suspensão do contrato de trabalho e a redução de salário e de jornada, o sindicato chegou a receber em um único dia 170 acordos para analisar.

"Quem está confinada na casa do patrão tem que ganhar horas extras e adicional noturno. O número de ações trabalhistas pós-pandemia vai ser grande", prevê Janaína. "Temos recomendado que elas guardem as mensagem de WhatsApp e outros registros que possam servir de prova."

Lurdes, 38, fez um acordo com os patrões para trabalhar apenas dois dias da semana e manteve o salário integral, de R$ 1.100. Ela usa máscara e o álcool em gel dados pela patroa, mas não se sente segura.

"Vivo com medo de adoecer. Se eu cair doente vai ser difícil. Os hospitais estão muito cheios e tenho pânico de infectar minha mãe, que é diabética e tem 75 anos."

Uma prestadora de serviços que frequenta condomínios de luxo onde clientes passam a quarentena se diz incomodada com o fato dessas famílias ricas nem sequer cogitarem estender às domésticas a possibilidade de isolamento na pandemia.

"Enquanto boa parte da classe média está se virando com o serviço de casa e mantendo o salário da funcionária na crise, a classe alta não abriu mão do conforto e passou a chave na senzala", critica.

As babás são as mais requisitadas pelas famílias abastadas. Além do cuidado com as crianças, muitas delas passaram a acumular tarefas de cozinha, limpeza e arrumação.

É o acerto que a blogueira Samara Checon fez com a babá dos dois filhos, quando decidiu passar a quarentena na casa de campo na Fazenda Boa Vista, no município de Porto Feliz (SP).

"Aprendi a ficar mais flexível, tudo bem se as crianças ficarem de pijama até o meio-dia. Se não deu para arrumar a casa hoje, não tem problema. Vou relevando. O esquema é todo mundo ajudando", explica Samara. "As crianças passaram arrumar as camas e a guardar os brinquedos."

A blogueira conta ter dispensado os demais funcionários. "É uma equipe. A casa é grande. O jardim demanda cuidados. Mas tive que dispensar. As pessoas têm família."

Os salários foram mantidos, garante ela. No caso da babá, ela relata que a funcionária sempre viaja com a família. "Foi natural que estivesse de quarentena aqui com a gente."

Com a suspensão das aulas dos filhos, a opção foi trocar o apartamento na capital paulista pelo luxuoso empreendimento da JHSF. A Fazenda Boa Vista já têm mais de 200 residências e dispõe de uma unidade do Hotel Fasano.

Moradores e hóspedes contam com centro equestre, dois campos de golfe e "kid's club". "Está tudo fechado. Mas ainda assim é melhor ficar aqui. Temos mais espaço e contato com a natureza", explica Samara.

Em um primeiro momento, a blogueira admite ter levado a rotina agitada de antes para o confinamento. Depois começou a desacelerar, mas no dia do aniversário, em 28 de abril, teve direito a "overposting" para mostrar as flores, a mesa decorada e o bufê encomendados para uma celebração em família.

No mesmo dia, o youtuber Matheus Mazzafera postou um desabafo no seu canal de 60 milhões de visualizações por mês.

No vídeo, ele se mostra indignado com a hipocrisia e a postura de amigos ricos que pecam pela ostentação e a falta de consciência social na pandemia.

"Tenho amigos que dizem: 'Não tô aguentando mais ficar em casa. Vou jogar baralho, vou na casa de tal pessoa'. Cansei de dizer que é férias. É distanciamento social."

O youtuber evita falar de política e temas polêmicos, mas desceu do muro na pandemia e diz ter perdido algumas amizades.

"Tenho amigos que não estão indo visitar os pais, porque são velhos, só que continuam tendo vida social com funcionárias de idade em casa. Com o papai e a mamãe não pode acontecer nada, mas com a empregada, sim."

Mazzafera mora sozinho numa cobertura nos Jardins. O piscineiro, a cozinheira, a faxineira e o segurança, também motorista, estão em casa, sem redução de salário. "Graças a Deus continuo trabalhando e me adaptei", afirma o youtuber.

Em meio às poses e risadas, o recado para os "riquinhos alienados" aparece como "carta aberta". "Falei coisas duras que muita gente com quem convivo precisa ouvir."

E pra quem vem com a justificativa de que empregada está mais segura confinada na casa do patrão do que na favela, o youtuber avisa: "Esse papo lembra escravidão, de mucamas que deixavam de viver a vida delas para cuidar da patroa".

Mazzafera esclarece: "Não sou contra rico. Não se trata de uma questão de classe social, mas de consciência. Não tem vacina nem remédio para Covid-19. É uma doença perigosa, que vai matar muitas pessoas e os pobres são os que mais vão sofrer".

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