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ENTREVISTA

"Estamos em uma guerra, e na guerra você enterra", diz prefeito de Manaus

quarta-feira, 13/05/2020, 07:57 - Atualizado em 13/05/2020, 07:26 - Autor: Fabiano Maisonnave/FolhaPress


Capital amazonense registra maior número de óbitos na Amazônia
Capital amazonense registra maior número de óbitos na Amazônia | Reprodução

Fora de Manaus, o prefeito Arthur Virgílio Neto (PSDB), 74, se tornou um dos símbolos da pandemia do novo coronavírus, que colapsou os hospitais e os cemitérios da cidade. Chorou em entrevistas e gravou vídeos pedindo ajuda ao G20 e à ativista adolescente sueca Greta Thunberg.

Dentro da cidade, ele é mais lembrado por ter determinado a realização de enterros coletivos no maior cemitério municipal -a única administração do país a fazer isso.

Com relação ao isolamento social, o tucano tem se oposto em adotar medidas mais rígidas. Diferentemente de outras regiões impactadas pelo Covid-19, o tucano resistiu a tornar obrigatório o uso da máscara, medida adotada apenas nesta segunda-feira (11) no comércio e no transporte.

Nos últimos dias, Virgílio Neto passou a se opor à adoção do "lockdown", cogitado por ele próprio no início do mês.

"Os lockdowns decretados e muito festejados estão dando certo?", questiona. "Eu vi o de São Luís. Mostraram um bairro da periferia, a maior algazarra."

Na entrevista abaixo à reportagem, Virgílio fala também sobre o assassinato do engenheiro Flávio Rodrigues, ocorrido na casa do seu enteado Alejandro Valeiko, em 29 de setembro. O corpo foi retirado do local do crime em um carro da prefeitura sob responsabilidade do PM Eliseu da Paz, segurança do tucano. Apareceu em uma estrada de terra.

O tucano afirma que Valeiko, atualmente em liberdade provisória, é inocente e acusa a investigação do Caso Flávio de ter motivação política, o que estremeceu as relações com o governador Wilson Lima (PSC).

Veja a entrevista:

O sr. já chegou a defender o lockdown na cidade, mas disse recentemente que isso poderia provocar tiro e confusão em Manaus. Por que o sr. mudou de ideia e por que aqui é diferente de outras cidades?

Eu não cheguei a defender lockdown, aventei como hipótese. Conheço a minha região. Não quero fazer o papel do governador [do RJ, Wilson] Witzel, com aquela conversa de sniper. Essa conversa já está recolhida nas lembranças mais recônditas dele. Tanto está que o Comando Vermelho decretou o lockdown por ele.

Converso muito com cientistas. Um deles, o Marcos Lacerda, diz que não existe uma fórmula de lockdown. Eu, para impor certas medidas, já disse ao governador que preciso da PM. Farei isso, vamos cassar, provisoriamente, muitas lojas que estão funcionando na Zona Leste. Com proteção. Senão, nosso fiscalzinho não é levado a sério. O governador se comprometeu comigo.

A primeira pergunta que eu faço é: os lockdowns decretados e muito festejados estão dando certo? Eu vi o de São Luís. Mostraram um bairro da periferia, a maior algazarra. Estão todos dando certo?

Aqui, temos facções de tráfico muito fortes, que disputam o direito de serem um Estado dentro do Estado. Temos a aproximação dos momentos eleitorais, tem gente que parece que nem nota a pandemia.

Uma provocação à PM, uma pedrada ou algo mais grave. O rebate não é exatamente aquele que o comandante daquela tropa pode ter na cabeça. Cada cidadão, quando agredido, reage de um jeito. Então pode acontecer alguma coisa muito trágica.

E pode acontecer de não dispor de efetivo suficiente para tomar conta de uma cidade muito horizontal e que tem mais 2,3 milhões de habitantes. Para fazer isso, teria de ter uma grande demonstração de força.

Mas o que tem sido feito em Manaus até agora não funcionou. Estudo do Imperial College estima que 10% dos amazonenses já foram infectados, maior do que qualquer outra região do país. Manaus e o Amazonas registram as maiores taxas de incidência e mortalidade. Qual o caminho sem o lockdown?

Tem de separar o interior. É escabroso o que está acontecendo no interior do estado. A letalidade do interior vai ultrapassar Manaus já, já. E Manaus não está no caminho de muitas subidas.

Mas temos feito alguma coisa, sim. Temos comerciais de TV chocantes. Estamos tomando medidas de trânsito. Tudo o que preciso do governador é que ele ceda a PM. Se ele ceder a PM, vou saber onde atacar pontos-chave de aglomeração.

Há um fenômeno que são as constantes pregações do presidente. Falo o tempo inteiro mostrando o que é, o que não é. Muito disso é destruído pela pregação que o presidente faz. O presidente manda ir pra rua, consegue fazer uma coisa antiética, desprovida de razão, de bom senso, de sisudez.

O sr. poderia ter tomado decisões já adotadas em outras regiões, como a obrigatoriedade da máscara.

Eu tenho uma pessoa muito versada nisso, muito preciosa, eu expliquei pra ela que era preciso colocar a palavra "obrigatório". Quem estiver insatisfeito, que recorra. Mas eu não posso me queixar. As pessoas têm aderido à máscara, não entram no coletivo sem máscara.

Houve dois decretos sobre máscaras. No primeiro, foi apenas uma recomendação. No segundo decreto, em vigor desde segunda (11), virou obrigatório para transporte público e comércio. Por que o sr. não adotou a obrigatoriedade semanas atrás?

Eu tentei te explicar. Tenho uma assessora jurídica muito preciosa, que faz, alguma vez, preciosismo também.

Eu me dirigi aos meus governados com respeito que merecem. É a recomendação de um prefeito que está na rua o tempo inteiro, que fez um hospital de campanha sem ter obrigação de fazer que apresenta o maior índice de cura. Duvido que no país tenha alguém com o índice de cura do nosso hospital de campanha.

O que a obrigatoriedade deu em São Paulo? É obrigatório lá? O povo ficou em casa? Está confortável pro governador João Doria? Está confortável pro meu ídolo, [o prefeito] Bruno Covas? É obrigatório no Rio de Janeiro. O homem dos snipers, o caubói, está confortável pra ele?

Onde é que resolveu? O Pará, aqui, deve ter sido obrigatório. O Pará está chamando o pessoal que trabalha no nosso hospital de campanha para ensinar pra eles, pra montar um hospital parecido e ter os resultados que temos tido aqui.

A única cidade do país que enterra pessoas em valas comuns, ou trincheiras, como a prefeitura diz, é Manaus. Por que recorrer a isso?

Eu não conheço as outras. Nós nunca tivemos esse problema. Estamos fazendo bem diferente de vala comum. Estamos individualizando.

Estamos numa guerra. Numa guerra, você enterra. Vi aqui hospitais públicos com cadáveres junto com pessoas vivas. Eu não faria uma coisa dessas. Na guerra, eu enterro.

Estamos terminando um projeto pra fazer um memorial que vai homenagear todas aquelas famílias, com espaço para velas. Todas estarão separadinhas, com o retrato, o que as famílias quiserem colocar lá referente aos seus mortos. Mas eu tinha de enterrar, não podia deixar cadáver insepulto.

Manaus tinha uma tradição de 30, 32 sepultamentos dia. De repente, teve um dia com 161 pessoas. Outra dia, foram 167 pessoas. Agora, estamos oscilando entre 92, às vezes 110. Ainda é muito. Respondi como alguém que estava em guerra.

Podia também me dedicar ao exercício fácil da crítica. Esse é o mais fácil. Sempre me senti muito melhor na oposição. É uma delícia.

O sr. tem falado com cientistas. Qual é a projeção de evolução do coronavírus em Manaus?

Alguns acham que já chegamos ao pico. Todos avisam que o descenso é tão grave quanto a ascensão. O número de mortos e perdas na descida é praticamente o mesmo dos verificados na subida. A gente não pode refrescar de jeito nenhum.

Tinha planos que o governador expôs e deixou de lado para abrir no dia 13. Falei que acho muito cedo, a gente deve deixar pra depois. A Alemanha abriu prematuramente e reincidiu lá. Wuhan reincidiu pela terceira vez.

Prevejo um período de sofrimento muito maior do que o simples achatamento da curva. Prevejo aquilo que a gente chama de repiquete: o rio está descendo, mas tem um repiquete, uma enchente que dura pouco tempo.

A Assembleia Legislativa aprovou a reabertura de igrejas e templos. O sr. está de acordo?

Completamente contra. Rezar, você reza em casa. Dízimo, você só paga pessoalmente, talvez, né? Tem de olhar o que está por trás disso. Sou a favor de medidas restritivas nesse sentido. Sou visceralmente contra a reabertura de igrejas se sou a favor de fechar comércios de pessoas que estão tentando ganhar a vida.

A relação do sr. com o governador azedou depois do caso Flávio. O sr. criticou a polícia...

[Interrompe a pergunta] Porque me envolveu ao máximo. O meu enteado, filho da minha esposa, é uma pessoa adicta, está tentando se livrar do uso de drogas. E todo mundo sabe quem o prendeu, quem o julgou. Depois que viram que era possível colocá-lo como criminoso, colocaram-no como alguém que teria a obrigação de ter impedido a morte.

O segurança que anda comigo tem o dever de me proteger. Ele [enteado] não era segurança de ninguém. Não fez nada, foi agredido, levou duas porradas na cabeça, estava aturdido. Teve outro rapaz esfaqueado lá fora. Tentaram grosseiramente imputar a ele o esfaqueamento feito por uma pessoa perita nesse negócio de faca. Ele estava dentro de casa, não saiu de casa.

E uma coisa é verdade: todo mundo sabe que o rapaz não é capaz de matar ninguém. Uma pessoa doce, que, infelizmente, é vítima desse vício. O rapaz está hoje em liberdade provisória, esperando o momento de ser julgado. Com um comportamento exemplar. Outro dia quebrou a corrente dele. Ele ligou para o advogado imediatamente para colocar a tornozeleira eletrônica.

O sr. pode esclarecer por que havia um carro da prefeitura no local do crime, por que havia um segurança do senhor e por que esse carro foi usado para tirar o corpo da cena?

O rapaz, que é um dos implicados e continua preso, sargento, ele tem como obrigação tomar conta de mim e da minha família. Essa é a obrigação deles.

Viram o telefone do meu enteado, ele não chamou ninguém, não queria o rapaz lá. Não gostava do rapaz. Ele se achava tolhido diante de uma pessoa que, para ele, era o vigia, ia dizer tudo pra mãe dele, ia dizer tudo pra mim.

Esse rapaz usava o carro da prefeitura, é rotina nossa. A pessoa que está de serviço leva o carro pra casa, volta no dia seguinte com o carro. Foi isso.​

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