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Crônicas da Bola: Dia dos namorados

quarta-feira, 12/06/2019, 09:07 - Atualizado em 12/06/2019, 09:07 - Autor:


Era a terceira vez que ralava a perna ao se jogar em um carrinho. Em vão. Não que ele não tivesse acertado a bola – e também a perna do adversário –, mas o fato dela não ter visto o lance o invalidava completamente. Desde o primeiro jogo entre o time dos solteiros e o dos casados da firma que essa batalha por atenção se desenrolava. Até então, foram cinco sábados de reuniões, com churrasco e aquele joguinho, que todos pareciam levar na brincadeira, menos ele, que, ali naquele campo de grama sintética, só queria mesmo ser notado.


Ainda havia outro obstáculo: fazer gols não era a sua especialidade, preferia impedi-los. Desde pequeno já havia notado essa peculiaridade no seu futebol – que não possuía o instinto básico de ir pra cima e balançar as redes. Preferia ficar lá atrás, jogando sério, sem firulas, dividir a bola. Combinava com a sua personalidade. Porém, atrapalhava o seu plano atual de se mostrar para a amada, que, à beira do campo, tomava a sua cerveja e ria deliciosamente inclinando-se para trás na cadeira. Não devia em nada às divas do cinema que ele tanto admirava: Sophia Loren, Claudia Cardinale, Marilyn... Tão linda quanto inatingível.


Passou a ficar disperso. Uma simples olhadela de soslaio era o suficiente para perder o tempo da marcação. Gol. Mais uma falha dele. Os companheiros de time não estavam mais surpresos. Apesar de ter ganhado fama de melhor zagueiro da empresa em jogos avulsos, marcados vez ou outra, desde que a reunião se tornou semanal, com a presença de esposas, namoradas e colegas, ele atravessava uma má fase que parecia irreversível. “É igual jogador de time pequeno. Só arrebenta quando não tem pressão em cima dele”, diziam. Outros afirmavam que era o peso dos 50 anos finalmente chegando.


De tantas reclamações direcionadas a ele, os olhares da “plateia” se voltaram ao campo. Inclusive o dela. Ele corou. Queria impressioná-la com a sua habilidade, sua raça, mas tudo que conseguiu, de novo, foram risinhos de todos. Alguns sarcásticos, outros piedosos. Mas o sorriso dela, o único que lhe importava, era como o de Monalisa, indecifrável. Jogaram por mais uns dez minutos, até que o pessoal responsável pela carne e que não curtia futebol avisou que uma nova leva de fraldinha e picanha estava servida. Tempo técnico – que na prática foi um apito final, já que a combinação posterior de cerveja e comida fora fatal.


Cabisbaixo pela má atuação, ele seguiu em silêncio em meio à balbúrdia da fila da churrasqueira. Serviu dois pratos, um de bem passada e outra ao ponto, com bastante gordurinha. À mesa, estendeu um deles à mulher sentada, sem ao menos olhá-la, envergonhado. Ela pegou e descansou os pratos, levantando-se e passando os braços ao redor do pescoço dele. “Sabe que eu acho muito lindo todos esses anos você tentando me impressionar jogando bola? Nunca conseguiu, mas é fofo demais. Era há trinta anos e continua sendo até hoje”. Beijou-o, sorrindo. Encabulado, ele baixou os olhos e murmurou: “Um dia eu consigo, você vai ver só. O pessoal sabe que eu sou bom, não sei o que acontece...”. O riso dela cortou a frase e ele só conseguiu rir junto, dizendo a única coisa que passava pela cabeça agora: “Te amo!”. “É, eu sei!”.


*Texto publicado originalmente no dia 12 de junho de 2016


Futebol feminino Um longo caminho para a valorização


Li um comentário no Twitter que lamentava o fato da Copa do Mundo de Futebol Feminino não parar o país como a versão masculina, pois seria um ano a mais de catarse coletiva, reuniões entre amigos, família e tudo aquilo que transforma o jogo em uma experiência única, muito além do futebol em si. Não há como não concordar, restando lamentar que o cenário não deva mudar a curto prazo. Embora tenha tido uma melhora na visibilidade, o caminho ainda é longo. Falta investimento na modalidade e, sobretudo, respeito por ela. E olha que temos em campo Marta, Cristiane e Formiga, para ficar em três jogadoras. Mas as condições nem se comparam com as que desfrutam as atletas dos Estados Unidos (que ontem meteram 13 a 0 na Tailândia), Alemanha e França, entre outras. É preciso deixar bem claro: o Brasil, caso consiga o título ou uma posição honrosa, será por mérito, único e exclusivo, da qualidade das jogadoras, apesar da CBF e comissão técnica (ter um profissional medíocre como Vadão no cargo principal é um acinte e revela o descaso da entidade com o futebol feminino). Vamos, portanto, torcer, mas sem deixar de cobrar a valorização que elas fazem por merecer.


 

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