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Esporte / Esporte Pará

ESPORTE SEM PRECONCEITO

LGBTQI+ esperam  assistir jogos nos estádios sem preconceitos

Hoje é o Dia Internacional do Orgulho LGBTQI+ e a constatação é de que ainda há muitas barreiras a superar no caminho da igualdade no meio esportivo e de um mundo sem preconceito. Mas chegaremos lá!

domingo, 28/06/2020, 10:58 - Atualizado em 28/06/2020, 11:33 - Autor: Tylon Maués


Renata Taylor gostaria de ir ao Mangueirão, mas o medo a impede.
Renata Taylor gostaria de ir ao Mangueirão, mas o medo a impede. | Divulgação

Em julho de 2017, a Banda Alma Celeste (BAC), movimento de torcedores do Paysandu criado para levantar algumas bandeiras progressistas e inclusivas dentro do meio do futebol, desfraldou uma faixa com as cores do arco-íris, símbolo do movimento LGBTQI+, e palavras de respeito na arquibancada da Curuzu. A recepção não foi das melhores por parte dos demais torcedores, que chegaram a ameaçar de agressão alguns membros da BAC. Três anos depois, a Alma Celeste continua defendendo as mesmas pautas, mas ainda hoje o assunto é um nervo exposto que não é tocado para evitar mais problemas com os preconceituosos.

Hoje é celebrado no mundo todo o Dia Internacional do Orgulho LGBTQI+ e, se o assunto ainda é tabu em vários setores da sociedade, no esporte ele é ainda pior, já que para muita gente dentro do esporte de alto rendimento, nesse mundinho nada mais deve ser discutido, de política à homofobia, de machismo ao racismo.

Mas, há avanços. De alguns anos para cá os clubes têm se posicionado contra a homofobia nos estádios. O grito de “bicha”, em forma pejorativa e ofensiva, foi assimilado pela torcida brasileira após a Copa de 2014 e hoje pode dar até perda de pontos. Os árbitros são orientados a interromper uma partida em caso de gritos homofóbicos e racistas.

Renata Taylor, ativista dos direitos humanos e militante LGBTQI+, é coordenadora do Grupo de Resistência de Travestis e Transexuais da Amazônia e membro e colaboradora do Conselho da Diversidade do Estado do Pará. Há tempos Renata não sabe o que é ir a um estádio torcer pelo time do coração. Renata é transexual e lembra que ao iniciar o processo de transição ela passou por um episódio traumático no estádio estadual.

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“Gosto de esporte. Cheguei a ir duas vezes ao Mangueirão. Na primeira não houve nenhum incidente. Na segunda, quando estava em período de transição, as pessoas jogavam coisas em mim, gritavam. Sai escoltada porque as pessoas não aceitavam uma transexual naquele meio. Conheço homossexuais que já sofreram agressões dentro do estádio por serem identificados como gays”.

Renata diz que a resistência é tão grande que alguns amigos formam grupos para ir aos bares ou se reúnem em casa para assistir jogos. “Eu deixei de ir faz tempo aos estádios. Meus amigos, meus parentes, me convidam, mas não me sinto segura. Eu tenho medo de ser agredida. Gostaria muito de ir, mas fico impedida pelo medo”, conta.

Para ela, um dos primeiros e principais preconceitos dentro do esporte é quanto ao desempenho físico de um homossexual. “Já acompanhei casos de jovens gays que foram expulsos de alguns times de base por se declararem homossexuais e com os dirigentes achando que esse garoto não teria vitalidade e força para praticar esporte. Na verdade sabemos que há gays como esportistas profissionais e que não podem se assumir por causa do preconceito”.

PARA ENTENDER

A denominação LGBTQ+ é uma das mais conhecidas. Contudo, atualmente, o movimento passou a usar a sigla LGBTQI+. Ela é uma versão reduzida de LGBTT2QQIAAP. A sigla é dividida em duas partes. A primeira, LGB, diz respeito à orientação sexual do indivíduo. A segunda, TQI+, diz respeito ao gênero. Mas, é claro, se você estiver com dúvida sobre como se referir ou qual pronome de tratamento usar ao falar com alguém, pergunte.

L: lésbica; é toda mulher que se identifica como mulher e têm preferências sexuais por outras mulheres.

G: gays; é todo homem que se identifica como homem e têm preferências sexuais por outros homens.

B: bissexuais; pessoas que têm preferências sexuais por dois ou mais gêneros.

T: transexuais, travestis e transgêneros; pessoas que não se identificam com os gêneros impostos pela sociedade, masculino ou feminino, atribuídos na hora do nascimento e que têm como base os órgãos sexuais.

Q: queer; pessoas que não se identificam com os padrões de heteronormatividade impostos pela sociedade e transitam entre os “gêneros”, sem também necessariamente concordar com tais rótulos.

I: intersexuais; antigamente chamadas de hermafroditas, são pessoas que não conseguem ser definidas de maneira distinta em masculino ou feminino.

+: engloba todas as outras letrinhas de LGBTT2QQIAAP, como o “A” de assexualidade e o “P” de pansexualidade.

Combate de um lado, ações afirmativas de outro

João Jorge Neto acredita que o posicionamento de clubes e jogadores pode ajudar a mudar a cultura do preconceito.
João Jorge Neto acredita que o posicionamento de clubes e jogadores pode ajudar a mudar a cultura do preconceito. Divulgação
 

Em fevereiro deste ano, a Ordem dos Advogados do Brasil Seção Pará organizou o 1º Seminário de Democratização do Acesso aos Estádios de Futebol em Belém do Pará. Entre as várias comissões da entidade presentes no evento, estava a de Diversidade Sexual e População LGBTQI+, presidida pelo advogado João Jorge Neto. Membro da Comissão Nacional de Diversidade Sexual e Gênero da OAB, João Jorge revela que o trabalho da comissão em 2020 foi prejudicado pela pandemia de Covid-19. Mas ele ressalta que em anos anteriores algumas denúncias foram recebidas e que várias ações afirmativas foram feitas.

“Até o presente momento nenhum caso de homofobia dentro do esporte chegou até nós, até por esse ano ter sido atípico por causa da pandemia. Mas em anos anteriores sim e fizemos algumas atividades”, disse. “Esse ano tínhamos um projeto de fazer um campeonato misto, entre homens e mulheres e poder promover essa inclusão. Seria no próprio clube da OAB. O que sempre defendemos é que os clubes têm que promover essa parte pedagógica para evitarmos casos de preconceito e discriminação”, completou João Jorge.

O advogado ressalta que a Ordem não é um órgão investigativo e que possa tomar medidas mais incisivas em casos de preconceito, mas que tem as portas abertas a denúncias e auxilia sobre os procedimentos a serem tomados. “Temos alguns canais de denúncias, inclusive a OAB, por e-mail, pelas redes sociais ou até presencialmente. É claro que a entidade não realiza investigações, mas podemos articular com outros órgãos para que medidas cabíveis sejam providenciadas”.

João sabe que a iniciativa de alguns clubes e torcidas de futebol com campanhas esporádicas contra a homofobia pode ser um primeiro passo, mas que a luta contra o preconceito e a homofobia é uma constante. Ele ressalta a importância do posicionamento de quem tem relevância e voz para ser escutada.

“A iniciativa é muito importante para poder se posicionar nesse ambiente que é o de promoção de alegria, de entretenimento, e não de fomento de preconceitos. Quando os clubes, os atletas se posicionam, é muito importante. Não é preciso ser negro para combater o racismo, não precisa ser mulher para ser contra o machismo. A prática esportiva tem que ser de fomento de uma cultura de paz”, finalizou o advogado.

Respeito é uma luta de todos!

Um dos líderes dentro do elenco do Paysandu, o volante Serginho tem mais de dez anos de profissional e já viu muitos casos de homofobia nesse meio. Aos 32 anos, ele também tem visto algumas mudanças pontuais dentro do futebol. O jogador, com suas palavras, defende a tese de que não precisa ser negro para ser contra o racismo, não precisa ser mulher para ser contra o machismo, não precisa ser LGBTQI+ para ser contra a homofobia. Ele condena qualquer tipo de preconceito e prega o total respeito em todos os meios.

Como você vê os movimentos das torcidas contra gritos e cânticos homofóbicos?

Serginho - Sou contra qualquer tipo de opressão ou preconceito, todos nós somos iguais perante Deus, independente de orientação sexual, cor ou preferência política. Acho que falta um pouco de respeito e empatia nos dias de hoje.

Ainda é muito comum xingamentos homofóbicos dentro do futebol ou isso tem mudado um pouco?

Serginho - Infelizmente é comum, e o quadro tem piorado, acredito que as ações contra isso não podem ser somente quando algo de grave acontece, tem de ser contínuo, pois infelizmente pessoas sofrem com isso todos os dias.

Outras tentativas de xingamentos com termos machistas ou racistas também têm diminuído?

Serginho - O futebol é um esporte machista, as mulheres têm buscado seu espaço e conseguido, com todo respeito e mérito que eles merecem. O racismo é preocupante, pois acontecia de maneira “velada”, o que já era absurdo. Hoje as pessoas perderam a noção e têm achado o racismo normal. Racismo e homofobia não são normais, isso é crime. Como cristão, digo sempre, Deus não faz acepção de pessoas, somos todos iguais e devemos amar o próximo como a nós mesmos.

João Jorge Neto acredita que o posicionamento de clubes e jogadores pode ajudar a mudar a cultura do preconceito.
Renata Taylor gostaria de ir ao Mangueirão, mas o medo a impede. | Divulgação
Renata Taylor gostaria de ir ao Mangueirão, mas o medo a impede.
Renata Taylor gostaria de ir ao Mangueirão, mas o medo a impede. | Divulgação

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