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GLÓRIA BICOLOR

15 anos de história: o dia em que o Papão calou o Boca

Terça-Feira, 24/04/2018, 07:28:45 - Atualizado em 24/04/2018, 07:28:45 Ver comentário(s)

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15 anos de história: o dia em que o Papão calou o Boca (Foto: )

24 de abril de 2003. Para quem aprecia as surpresas do futebol, uma das maiores “zebras” da competição sul-americano, para os bicolores, 90 minutos de uma história que não vai se apagar. Afinal de contas, desconsiderando títulos, foi nesta data que “Iarlêêy” calou La Bombonera contra um dos maiores Boca Juniors de todos os tempos. Nesta quinta-feira (24), a data comemora 15 anos, e o DOL vai te lembrar dessa importante página do futebol paraense.

Iarley marcou um dos gols mais importantes da história do Paysandu. (Foto: reprodução/Twitter Paysandu)

Se já não bastasse o cenário e peso do adversário, o confronto era válido pela Libertadores da América, em participação inédita da região Norte. Após primeira fase irretocável, que garantiu o Papão como líder do grupo 2, com 14 pontos, os bicolores tiveram a “sorte” de já nas oitavas de finais encarar o futuro campeão daquela edição, o Boca de Schelotto, Tevez, Delgado e cia ltda.

O JOGO

De um lado, um time fora do eixo midiático brasileiro, representando a Amazônia, com jogadores em ascensão nacional, mas sem tal reconhecimento. Do outro, o clube mais vitorioso da América do Sul e com um elenco de dar inveja a grandes da Europa, com vários atletas de seleções.

Na escalação inicial do Paysandu, vários nomes considerados locais, como o goleiro Ronaldo, os volantes Vanderson e Lecheva, além do meia Velber, que mesclados a outros talentos com Iarley e Robgol, deram um caldo e tanto para que o confronto fosse equilibrado desde os primeiros minutos.

Como de praxe na Libertadores, clima de tensão. Após entrave nada amigável entre Robson e o lateral Clemente Rodriguez, os dois foram expulsos, deixando o Papão sem seu artilheiro.

Carrinhos, provocações e a velha catimba Brasil-Argentina seguiu nos minutos seguintes. Para o Paysandu ficou ainda mais difícil quando o volante Vanderson, logo no começo do segundo tempo, acertou o braço no atacante Schelotto, também indo para o chuveiro mais cedo.

Com o apoio da torcida e a atmosfera mística do Estádio La Bombonera, o gol dos mandantes parecia questão de tempo. Só parecia. Aí, então, surgiu um dos momentos mais bonitos da história bicolor, com Iarley, aos 23 minutos da etapa final, cortando o zagueiro e chutando no contrapé do goleiro Pato Abbondanzieri. 1 x 0.

Os Xeneizes foram para cima na base do abafa e estiveram perto do empate em alguns momentos, como em cabeçada de Moreno nos instantes finais, mas a bola caprichosamente raspou a trave do Paysandu. Não tinha jeito, a história estava escrita e o Bicola venceu o poderoso Boca, algo feito, até então, apenas por duas equipes do futebol brasileiro, incluindo o Santos de Pelé.

FICHA TÉCNICA:

Boca Juniors: Abbondanzieri; Ibarra (Calvo), Burdisso, Crosa, Clemente Rodríguez, Battaglia (Moreno), Cascini, Cagna (Tévez), Donnet; Schelotto e Delgado. Técnico: Carlos Bianchi.

Paysandu: Ronaldo; Rodrigo (Gino), Jorginho, Tinho, Luis Fernando; Vanderson, Lecheva (Bruno), Sandro, Velber (Rogério); Robson e Iarley. Técnico: Dario Pereyra.

Gols: Iarley, 23'2T

Estádio: La Bombonera, Buenos Aires (ARG)

Árbitro: Carlos Amarilla (PAR)

"PODERÍAMOS CONQUISTAR O TÍTULO"

Um dos grandes personagens do feito bicolor naquela ocasião foi o volante Vanderson. O jogador chegou à La Bombonera como um dos símbolos do período de glória do clube, com as conquistas da Série B, Copa Norte e Copa dos Campeões. Vanderson, em conversa com a reportagem, afirma que o Paysandu tinha plenas condições de, passando pelo Boca, conquistar o título mais importante do continente.

"Sem dúvidas nenhuma. A minha opinião, sim, poderíamos ter conquistado o título. A gente tinha um time bom, a gente tinha um elenco, também, que dava para chegar na final. Naquela época, o Paysandu estava disputando a primeira divisão. A gente não treinava muito, mas já estava entrosado. A gente ia chegar, com certeza", contou.

O 1 x 0, além de colocar o Paysandu no cenário internacional, sendo repercutido no mundo todo, também ajudou na carreira dos atletas. Uns saíram, outros aposentaram e viraram e ídolos e poucos permaneceram. Para Vanderson, o confronto contra o Boca foi um dos mais importante da sua carreira, rendendo frutos até hoje.

"Rapaz, mais importante, mais importante, posso considerar, que foi, sim. Foi uma vitória marcante. Foi uma das maiores do futebol brasileiro na Libertadores. Foi importante para nós, devido reconhecido no Brasil todo. Onde você chega, você é comentado sobre esse jogo. Para nossa carreira, foi muito importante, sim. Ficou na história do clube. Me ajudou muito a nível profissional, para chegar em outros clubes”, revelou.

Mesmo com toda projeção e vitória emblemática, o sabor não é totalmente doce para o ex-pitbull do meio de campo do time comandado pelo uruguaio Dario Pereira. A expulsão no segundo tempo, após falta em Schelotto, é uma marca que ainda não se apagou na cabeça do atleta.

"Eu acho que foi falta de maturidade. Era muito novo. Depois, ao longo do tempo, me arrependo muito do que eu fiz. Além de prejudicar o time no jogo da volta, ficou marcada essa parte feia do filme. Foi uma expulsão. Um lance bobo. Foi uma bola que dei pro Jorginho, ele devolveu, e o Schelloto apertou. Dei o chutão, eu, inexperiente, levei a mão no rosto dele”, lamentou.

Perguntando sobre estar em La Bombonera, Vanderson foi direto.

“Totalmente diferente de tudo. Se perguntar para todos os jogadores, eles vão falar a mesma coisa. Não tem igual. Ainda tinha expectativa de enfrentar o Boca no jogo de mata-mata. Quando todo mundo soube (que o Boca seria o adversário), ficou todo mundo surpreso. Ao mesmo tempo, meio preocupado. O Boca é o Boca. Campeão de Libertadores, Mundial e tudo. Ficamos meio pé atrás, mas ao mesmo tempo felizes. Sabíamos que íamos enfrentar um grande clube na Argentina".

A HISTÓRIA VIROU FILME

O tamanho do feito azul e branco merecia um registro para as futuras gerações. Pensando nisso, o publicitário Alan Rodrigues tomou à frente do projeto “La Bombonera” é nossa, que contou em filme, talvez a vitória mais importante da gloriosa história do Papão.

“Ele (o filme) foi produzido em três cidades, Belém, São Paulo e Buenos Aires. Teve intervalo de produção. O projeto inteiro durou uns três meses. Na pré-produção, mandamos produtora para lá (Buenos Aires) antes. Para nossa surpresa, o jogo, o time do Paysandu, ainda estava muito presente na mente de todo mundo. Conversamos com jogadores e staff do Boca, além da diretoria e própria torcida. Para nossa surpresa, todo mundo ainda se lembrava muito, mesmo que o time tenha sido campeão naquele ano”, falou.

Entre os destaques do material colhido, importante depoimento do lendário técnico Carlos Bianchi. O argentino, ídolo do clube até os tempos atuais, comandava o adversário bicolor àquela altura. Alan relembra com nostalgia o bate-papo de mais de 4 horas com essa importante do futebol.

“Tivemos uma grande entrevista de 4 horas com Carlos Bianchi. Um cara que é uma lenda do futebol argentino, do Boca. Ele falou abertamente sobre o jogo e, principalmente, sobre o merecimento do Paysandu em relação aquela partida, de vencer aquela partida. Isso para nós foi muito legal”, ressaltou.

Alan revelou ainda que a obra é muito mais do que algo sobre o Paysandu, mas uma grande obra para todos que são apaixonados pelo futebol.

“O filme conta uma história do futebol. Uma história bacana do futebol. Então independente se a pessoa é torcedora do Paysandu, se ela gostar de futebol, ela vai gostar do filme. Nunca teve lançamento oficial. O filme foi finalizado na mudança de diretoria do clube. Nunca teve lançamento oficial, mas fizemos um evento na Estação das Docas. Foi até muito surpreendente, o pessoal parava no meio do filme pra cantar. Até para mostrar os próprios torcedores. Mandamos cópias para a Argentina e, lá, todo mundo também gostou”, finalizou.

A expectativa é que um novo material de "La Bombonera é nossa", com conteúdo atualizado, seja lançado junto de um kit promocional. mas ainda sem previsão de data.

(Felipe Saraiva/DOL)





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