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LITERATURA

Isabel Allende lança novo livro sobre espanhóis que chegaram ao Chile

sábado, 25/01/2020, 20:44 - Atualizado em 25/01/2020, 20:43 - Autor: Agência O Globo


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A escritora chilena Isabel Allende se exilou na Venezuela em 1973, depois do golpe militar que derrubou seu primo, o presidente socialista Salvador Allende. Lá, conheceu o jornalista espanhol Víctor Pey, um duplo exilado: fugindo da guerra civil, foi primeiro para o Chile; quando Pinochet tomou o poder no país andino, buscou também a Venezuela.

Em Caracas, Pey contou a Isabel a história do Winnipeg, navio que levou 2 mil refugiados espanhóis para o Chile em 1939 - o jornalista era um deles. Quem fretou o navio e convenceu o governo chileno a receber os espanhóis foi o poeta Pablo Neruda. Isabel narra a jornada do Winnipeg em “Longa Pétala de Mar” (Bertrand Brasil), lançado no final de 2019. O título é emprestado de um poema de Neruda.

Traduzida em 42 línguas e com mais de 75 milhões de livros vendidos em diversos países, Isabel é a autora hispânica mais lida no mundo. Por Skype, ela conversou com a reportagem de sua casa, na Califórnia. Defendeu os protestos que tomaram as ruas do Chile desde outubro e, aos 77 anos, confessou ainda acreditar no amor. “Eu me casei pela terceira vez há seis meses. Dá para ter uma ideia do quão romântica eu sou”, diz.

P Neruda é um personagem destacado em “Longa Pétala de Mar”. Você o conheceu?

RA odisseia do Winnipeg e dos refugiados não teria acontecido sem Neruda. Ele merecia essa homenagem. Por isso a poesia dele está tão presente no livro. Encontrei Neruda algumas vezes, mas não posso dizer que fomos amigos. Eu o conheci em 1973, antes do golpe. Ele era muito mais velho [tinha 68 anos e morreria naquele ano; Isabel tinha 30]. Era uma celebridade, um deus literário. E eu não era ninguém.

P “Longa Pétala de Mar” narra a Guerra Civil Espanhola e as reviravoltas chilenas ao longo do século 20. Por que voltar a esses fatos históricos?

RMeus últimos três romances [“O Amante Japonês” (2015), “Muito Além do Inverno” (2017) e “Longa Pétala de Mar” (2019)] falam de migrantes, refugiados e exilados. O assunto está em todo lugar. A história da Guerra Civil Espanhola me interessa pela causa do conflito: a eleição de um governo de esquerda que os militares se recusaram a aceitar, mas que foi defendido pelos trabalhadores. Muitos refugiados espanhóis foram para o Chile, onde, anos depois, instigadas pela direita e pela CIA, as forças armadas derrubaram um governo de esquerda. Refugiados como Víctor Pey precisaram partir para um segundo exílio. A história se repete de maneira óbvia.

P A Fundação Isabel Allende, que você criou em 1996, dá auxilio a refugiados?

RA proposta inicial era empoderar mulheres em áreas de conflito: na fronteira mexicana, no Congo, na Índia. Depois da eleição de Trump, decidimos focar no que está sob ataque, como o direito ao aborto. Mas também trabalhamos com imigrantes vulneráveis, mulheres e crianças que não têm direito a nada, não têm terra, casa ou amigos e são rejeitados em todos os lugares.

P Recentemente, o Chile autorizou o aborto em alguns casos e as argentinas foram às ruas contra o feminicídio. Como vê a luta das mulheres sul-americanas?

RAgora, no Chile, o aborto é permitido em caso de estupro, se o feto não puder sobreviver fora do útero e em caso de risco imediato à vida mãe. Mas há um truque aí: quem decide o que é imediato? As mulheres estão exigindo direitos básicos, como ser dona do próprio corpo e não ser assediada, estuprada ou morta. A conscientização ainda é pouca, mas as jovens feministas estão fazendo um bom trabalho. Há progresso por toda parte, mas não o suficiente.

P Como avalia os protestos de rua que tomaram o Chile desde outubro?

ROs protestos me fascinaram porque eram inesperados. O Chile tinha a reputação de ser um oásis de estabilidade na América Latina, mas as estatísticas mostravam a riqueza na mão de poucas pessoas: 40% da população não conseguem pagar por serviços básicos. Tudo é privatizado e caro. Os salários são baixos. Os aposentados vivem na miséria e os jovens não veem futuro, pois se endividaram para estudar. O país explodiu. O governo foca na violência dos protestos para ignorar as demandas populares. Ainda temos a Constituição imposta por Pinochet. Agora é hora de mudanças profundas. O Chile é um país fascinante, onde tudo pode acontecer - o melhor e o pior.

P Como ser uma “eterna estrangeira”, como você mesma se define, influencia a sua literatura?

RTenho dupla cidadania, um pé na Califórnia e outro no Chile, mas me percebo estrangeira lá e cá. O estrangeiro não conhece as regras e, para aprendê-las, ouve muito, não toma nada como certo e faz muitas perguntas. O ângulo pelo qual eu olho a realidade é um pouco desconfortável, mas me dá uma perspectiva diferente, o que é bom para um escritor.

P Todo dia 8 de janeiro você começa um novo livro, porque foi neste dia em que iniciou seu primeiro romance, “A Casa dos Espíritos”. Começou uma nova obra no último dia 8?

RComecei, mas ainda não sei o que é. Ando ocupada promovendo “Longa Pétala de Mar” e só volto a escrever em março. Sou supersticiosa. Se não escrevo no 8 de janeiro, não escrevo o resto do ano. Todo 8 de janeiro, me sento em frente ao computador tão apavorada quanto estava quando iniciei meu primeiro livro. Ou melhor, quando comecei o segundo, porque quando escrevi “A Casa dos Espíritos” eu não sabia o que estava fazendo.

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