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Música

“Tudo que foi irá voltar”: Royal Trux comenta volta à ativa e novo disco, “White Stuff”

terça-feira, 12/03/2019, 20:00 - Atualizado em 12/03/2019, 20:00 - Autor:


Por Nathália Pandeló Corrêa

Um disco escrito à distância não é mais novidade. No começo dos anos 2000, por exemplo, Ben Gibbard e Jimmy Tamborello tanto trocaram correspondências para seu projeto The Postal Service, que acabaram por batizá-lo em homenagem aos correios.

Menos comum é um disco que encurta distâncias de lugar e tempo. É o caso de White Stuff, novo trabalho do duo americano Royal Trux, que precisou de 19 anos até que se concretizasse. O álbum chegou em 01/03 aos serviços de streaming trazendo a sonoridade barulhenta e pulsante já conhecida de Neil Hagerty e Jennifer Herrema. Ele soma a uma trajetória iniciada em 1987 e que produziu outros nove álbuns que exploraram, de forma única, os limites do noise, do rock alternativo e do experimental.

Muito mudou desde Pound for Pound, seu disco de estúdio mais recente, lançado em 2000. Eles eram um casal, e já não são mais. Neil vive com sua família no Colorado, enquanto Jennifer continua na Califórnia. Ele seguiu lançando trabalhos como The Howling Hex; ela fundou a banda RTX, que acabou se tornando Black Bananas. Até que o convite para reavivarem o Royal Trux em um festival – com um cachê irrecusável – ajudou a reacender a chama para novas canções.

A reunião traz novos desafios. O principal deles talvez seja o histórico pessoal de Neil e Jennifer, que voltou à tona há poucos dias em uma entrevista para o Guardian: ele afirma que não teve controle algum sobre o disco e que não fará turnê. Na mesma matéria, Herrema minimiza: é algo recorrente em toda tour, às quais ele sempre compareceu. Por outro lado, shows que aconteceriam em fevereiro e março estão sendo remarcados, devido a “uma questão não resolvida devido a uma prisão [de Jennifer] no passado”.

Isso não parece incomodar Herrema, que falou por telefone com o Tenho Mais Discos Que Amigos!, de forma bastante otimista, sobre o atual momento da banda, planos de vir ao Brasil e o legado do Royal Trux.

TMDQA!: Então… Esse é o primeiro disco de vocês como Royal Trux em 19 anos! A sensação é diferente dessa vez, ou você diria que é como se não tivessem ficado longe?

Jennifer Herrema: De certa forma, eu diria que é como andar de bicicleta (risos). Pra te falar a verdade, eu não esperava que fosse tão simples e tão fácil retomar. Mas assim que eu e Neil começamos a trabalhar juntos, foi tudo muito orgânico e fluiu muito bem. O único porém é que ele mora no Colorado e eu na Califórnia, então tivemos de fazer muita coisa pela internet antes de irmos pro estúdio. Foi um leva e traz de arquivos pra lá e pra cá (risos).

TMDQA!: Bom, a gente sentiu um pouco do clima com os singles, então dava pra imaginar um pouco do que vinha por aí. Mas o Royal Trux não é necessariamente previsível, né? Tem algo nesse disco que você acha que vai surpreender as pessoas?

Herrema: Verdade (risos). Eu sei que muita gente ficou surpresa que nós colocamos o Kool Keith em uma das músicas [“Get Used To This”]. A minha banda Black Bananas já tinha gravado com ele antes e ele topou gravar alguns versos com a gente. Antigamente, não chegamos a fazer colaborações com outros artistas, então eu diria que isso é uma surpresa. Mas pra mim esse disco soa exatamente como Royal Trux. Quando Neil e eu nos juntamos, acontece um fluxo e uma troca que é a nossa essência. E claro, ele tem o The Howling Hex, eu tenho a Black Bananas, RTX, mas dá pra sentir que é Royal Trux quando estamos juntos.

TMDQA!: Eu sei que você e o Neil não sumiram, apenas seguiram caminhos diferentes por um tempo. Você estava fazendo suas coisas e ele as dele. Acha que esse espaço, esse tempo longe, era algo que o Royal Trux precisava para encontrar um caminho novo, uma perspectiva diferente?

Herrema: De certa forma, sim. Acho que precisávamos de espaço após a separação, eu principalmente. Porque eu cresci ao lado dele, nos conhecemos quando eu tinha 15 anos, então sentia que nunca tinha tido autonomia de verdade, sabe? Foi sempre aquela vida ligada a um parceiro. Então eu queria explorar e ser independente. E hoje vejo que foi a melhor coisa mesmo. Nós amamos as vidas que temos hoje, amamos o que fazemos atualmente, então não foi algo calculado, tipo “já deu a hora de um disco novo do Royal Trux, então vamos fazer”. Na verdade, nem achávamos que iríamos tocar juntos de novo. Tivemos várias ofertas ao longo dos anos que recusamos. Por isso quando o Neil me ligou e falou de tocarmos juntos novamente e dar uma pausa no Black Bananas, eu falei “claro, com certeza”.

TMDQA!: Bom, acho que ninguém vai reclamar! Voltando um pouco no tempo: vocês surgiram quando várias bandas mais noise e underground estavam recebendo contratos melhores das gravadoras, e passando pro mainstream mesmo. Vocês acompanharam esses altos e baixos do mercado durante os anos 90. Agora, 20 anos depois, isso se tornou um negócio completamente diferente. Como você vê essas novas possibilidades pro Royal Trux que simplesmente não estavam disponíveis naquela época – tipo a agilidade de compor o disco remotamente, como você comentou?

Herrema: Ah sim… Quer dizer, até tínhamos internet naquela época, mas era discada, então não é a mesma coisa (risos). Hoje tem toda a questão tecnológica, redes sociais, serviços de streaming… Tudo isso é muito novo pra gente, mas é uma forma de as pessoas explorarem e terem novas músicas na ponta dos dedos. Por outro lado, tenho que admitir que há muita desinformação por aí, e muitas vezes propagada por jornalistas. Sempre batem nas mesmas teclas – drogas, Pussy Galore. São coisas que estão tão distantes da gente hoje, que eu acho graça (risos). Por isso que às vezes a gente é tão franco, já sabemos do que vão querer nos questionar, então falamos muito livremente. Tipo a questão das drogas… Está no nosso passado, sabe? Hoje em dia a gente fuma maconha e bebe, e é isso. O Neil nem bebe. E o Royal Trux começou bem antes do Pussy Galore, Jon Spencer Blues Explosion… Eles até contrataram o Neil pra tocar, pagaram ele por alguns anos, e faz décadas que ele saiu. Acho que se acostumaram a falar de coisas que não tem mais a ver com a gente – ou, nesse caso, que nunca tiveram. Agora na era do Google, você tem que ler tudo com mais precaução. Agorinha há pouco a nossa assessora de imprensa estava aqui falando que a nossa página na Wikipedia está cheia de erros, e eu nem sei quem botou isso lá, ou como tirar, não entendo muito dessas coisas (risos). É muito louco e até engraçado, não reconheço muito do que está escrito por aí sobre a gente.

TMDQA!: Por um lado, é como se vocês tivessem duas vidas.

Herrema: Exatamente! Bem, quando eu era criança, adolescente, eu tinha que ir numa loja de discos para ter músicas novas. Não era prático como hoje, comprar online, o eBay nem existia… Então era mais difícil se educar musicalmente. Eu dava meu jeito, trabalhava de babá, guardava meu dinheiro. Aí saía com uns amigos mais velhos e eles me levavam de carro nas lojas de discos. Eu acho que isso se perdeu, mas vai voltar. Todo adolescente tem aquele ponto de ebulição, né? Um acúmulo de energia que exige que eles façam algo diferente. Tudo que já foi um dia vai voltar. Se você olhar o vinil, há coisa de 15 anos, as pessoas diziam que já tinha acabado. Agora é algo legítimo, a gente mesmo vendeu um monte de vinil. Parece que as pessoas têm curiosidade sobre o que elas não possuem. A geração Z, essa mais jovem, passa por isso também. Tenho uma afilhada de 13 anos e ela se interessa pelo que a minha geração fazia, pela forma como nos divertimos, porque até eles já estão ficando meio saturados de redes sociais.

TMDQA!: Agora, falando de toda essa jornada que vocês começaram nos anos 80, quando você olha a discografia, dá pra apontar várias coisas que faziam naquela época e que hoje estão aí inspirando uma nova onda de bandas, musicalmente e liricamente também. É aquilo que você estava falando antes, de ter um ciclo que volta. Então quer dizer que tem uma geração inteira entre o começo da banda e essa fase atual. Como você vê o legado ainda em construção do Royal Trux e como diria que esse novo disco acrescenta a esse legado?

Herrema: Acho que, de certa forma, o simples fato de esse disco existir agora… Bem, o novo álbum é novo, claro. Ao mesmo tempo, não soa como nada que já fizemos, não fica datado – até porque acabamos de lançar, mas o que quero dizer é que parece que veio de uma receita única. É até interessante perceber que é menos complexo do que parece – é basicamente a química entre duas pessoas que trazem suas próprias sensibilidades e dão forma a elas. Tínhamos características lá no início que estão conosco até hoje. Pra mim, a única explicação é que éramos eu e o Neil. O fato de que o Royal Trux existe comprova essa junção de duas pessoas pelo acaso. Claro que não somos como Mick Jagger e Keith Richards, mas tem essa coisa de duas pessoas juntas que criam algo que não conseguiriam criar separadas. Acho que isso é incrível e tivemos muita sorte de termos nos conhecido tão jovens, nesse período de formação. Se você pensar que poderíamos nem termos nos encontrado… Então eu acho que as novas músicas são como as antigas, no sentido de não representarem uma geração, década ou gênero específico. Neil e eu amamos vários tipos de música, e nos influenciamos por todo tipo de arte, desde nossa juventude, então acho que foi isso que fez o Royal Trux ser o que é.

TMDQA!: Sem dúvidas. Agora, eu não consegui encontrar essa informação em lugar nenhum: acho que vocês nunca fizeram turnê aqui no Brasil.

Herrema: Nós realmente nunca fomos! Mas sabe por quê? O Neil tinha muito medo de avião! A gente ia no máximo pra Europa, e mesmo assim pegávamos um navio dos Estados Unidos pra lá. Então íamos de cruzeiro, o que era bem legal, mas tem hora que você quer ter a opção de chegar em casa mais rápido, né? E não levar seis dias numa travessia oceânica, sei lá (risos). Mas agora ele perdeu o medo de voar, então com certeza queremos muito ir aí!

TMDQA!: Caramba! Mas tem vários cruzeiros pra cá, ele nem pode mais dar essa desculpa.

Herrema: Não, nem queremos, vamos de avião mesmo (risos).

TMDQA!: Ainda bem, bom que chegam mais rápido! Agora, só pra encerrar: você estava comentando do vinil e essa é uma das paixões do nosso site. Tenho Mais Discos Que Amigos tem muito a ver com a presença constante da música nas nossas vidas. Aí eu estava aqui ouvindo os álbuns de vocês, e queria saber qual disco do Royal Trux você considera um amigo – sabe, aquela presença confiável, confortável, que te lembra os bons tempos, que parece um lar?

Herrema: Nossa… Eu diria que todos os discos, porque cada dia eu prefiro algumas coisas a outras. Mas hoje eu falaria Cats and Dogs e Accelerator, porque acho que os dois têm aspectos que englobam o que veio antes e o que veio depois na nossa discografia.

TMDQA!: Faz total sentido. Muito obrigada por seu tempo, Jennifer, e nos vemos aqui no Brasil.

Herrema: Com certeza!

Fonte: TMDQA!

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