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LUTO

Relembre a carreira de Vanusa, que morreu neste domingo (8)

Ótima cantora e bonita, ela usou essa combinação para ganhar popularidade na TV

domingo, 08/11/2020, 20:46 - Atualizado em 08/11/2020, 21:03 - Autor: Thales de Menezes/Folhapress


| Reprodução/TV Bandeirantes

A cantora Vanusa morreu neste domingo (8), aos 73 anos, na casa de repouso em que vivia em Santos, após insuficiência respiratória. Ela chegou a ser internada por 32 dias e recebeu alta no mês passado. Filha de Vanusa, Aretha Marcos, confirmou a morte nas redes sociais.

"Nos últimos anos Vanusa teve depressão, problemas gerados pelo uso de medicamentos tarja preta em excesso, o que a deixaram muito debilitada", diz nota enviada por sua assessoria de imprensa.

A dimensão da fama que a artista carregava pode ser ilustrada por um caso curioso. Nos anos 1970, Antônio José dos Santos foi um meia com boas passagens por Palmeiras e Vasco. Quando estreou no futebol, seus cabelos longos e loiros deram a ele seu definitivo nome como jogador profissional: Toninho Vanusa.

Ótima cantora e bonita, ela usou essa combinação para ganhar popularidade na TV. Os anos 1960 foram o ápice do entrelaçamento entre música e televisão no Brasil. A programação era farta em atrações musicais, de vários gêneros. Vanusa Santos Flores, paulista nascida em Cruzeiro, em 1947, mas criada na mineira de Uberaba, chegou a São Paulo e não demorou a ser notada.

Ela pegou a fase final do programa "Jovem Guarda", na Record. Embora pudesse gravar canções românticas intensas, tinha um jeito moleque que exibia com desenvoltura nos estúdios. Foi escolhida para a segunda formação do elenco de "Os Adoráveis Trapalhões", na Excelsior, de 1966 a 1968.


Neste que seria o embrião do lendário grupo dos Trapalhões, Renato Aragão teve companheiros como os cantores Ivon Cury e Wanderley Cardoso, o astro de luta-livre Ted Boy Marino e, na função de estrelinha romântica, Vanusa.


O programa virou febre. Um dos elementos mais engraçados era justamente Vanusa, que muitas vezes não aguentava segurar o próprio riso nas gravações. Renato Aragão sabia disso e adorava levar a colega a gargalhadas fora de hora. Vanusa teve na época um romance com o colega de elenco Wanderley Cardoso.

Ela gravou cinco álbuns entre 1968 e 1974, todos levando como título apenas seu nome. Sua evolução a cada disco é inegável, acompanhando uma mudança de repertório.

Os primeiros álbuns traziam um pop romântico, de refrão fácil, deixando espaço para uma ou outra faixa de sonoridade psicodélica, influência do rock do fim dos anos 1960. A partir de seu terceiro álbum, ela gravou sob influência do cantor e compositor Antônio Marcos, com quem casaria e teria as filhas Amanda e Aretha.

Mais sofisticado, o repertório do quarto disco, de 1973, incluiu seu primeiro hit nacional, "Manhãs de Setembro". Nessa faixa, Vanusa se arriscou como compositora, em parceria com Mário Campanha, e levou ao país os versos libertários da canção: "Eu quero sair/ eu quero falar/ eu quero ensinar o vizinho a cantar/ nas manhãs de setembro."


Vanusa figurou constantemente na mídia por três motivos: sua música, sua presença intensa em programas de TV (a ponto de ser eleita por dois anos seguidos "a rainha da televisão") e pelas notícias nada boas sobre seu relacionamento com Antônio Marcos.

Também popular ao extremo, com o hit "Homem de Nazaré", Antônio Marcos viveu um calvário de crises e tentativas de reabilitação. Seus excessos etílicos e químicos minaram a relação com Vanusa.

Depois da separação, ela se casou com o diretor de TV Augusto César Vannucci, com quem teve um filho, Rafael.

Após estourar com outra canção, "Sonhos de um Palhaço", de Antônio Marcos e Sérgio Sá, Vanusa gravou em 1975 seu álbum mais ambicioso, "Amigos Novos e Antigos". O título vem de uma das faixas do disco, de João Bosco e Aldir Blanc. A lista de autores reflete uma virada de Vanusa em busca de um repertório nobre.


O álbum tem músicas de Milton Nascimento, Fernando Brant, Fagner, Carlinhos Vergueiro, Luiz Melodia e, para dar a Vanusa o maior sucesso da carreira, Belchior. Sua versão de "Paralelas" é impecável, com os versos contundentes "Como é perversa a juventude do meu coração/ que só entende o que é cruel, o que é paixão".


Nos anos seguintes, ela insistiu em compositores talentosos. Gravou de Assis Valente a Caetano Veloso, e conseguiu pelo menos mais um sucesso comparável a "Manhãs de Setembro" e "Paralelas": "Mudanças" (1979), parceria com Sérgio Sá, em que retorna ao mote da mulher em busca de superação: "Hoje eu vou mudar/ vasculhar minhas gavetas/ jogar fora sentimentos/ e ressentimentos tolos".


Ela abriu espaço na agenda para seu lado de atriz. Já tinha alguns trabalhos no currículo, inclusive o musical "Hair", e em 1977 encabeçou o elenco de "Cinderela 77". Nesta novela da TV Tupi, em clima de conto de fada, Vanusa fez par romântico com Ronnie Von.


Seu ritmo de trabalho foi diminuindo gradativamente, e ela sentiu a perda do marido e do ex. Antônio Marcos morreu em 1992, aos 46 anos, de insuficiência hepática. Vannucci morreu no mesmo ano, aos 58 anos, de isquemia cerebral.

Em 2009, Vanusa protagonizou um episódio vexatório na Assembleia Legislativa de São Paulo. Cantou o hino nacional de forma bizarra, errando a letra e desafinando, e o vídeo explodiu na internet. Boatos de que estaria bêbada ou drogada foram espalhados. Ela disse que estava sob efeito de um remédio forte para labirintite.

Vanusa enfrentava há tempos uma forte depressão. No ano seguinte, teve outra apresentação problemática, em Manaus. Errou completamente as letras de duas músicas, novamente viralizando.

Em 2015, ela teve um novo momento de brilho com o álbum de inéditas "Vanusa Santos Flores", projeto criado para ela por Zeca Baleiro com composições de Angela Ro Ro, Zé Ramalho e do próprio Baleiro.

Pouco tempo depois, Vanusa começou a mostrar sinais de Alzheimer, interrompendo uma carreira de 18 álbuns e um reconhecimento popular que transformou seu nome em sinônimo de mulher loira e bonita. E também de uma cantora extraordinária.

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