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MÚSICA DE RESISTÊNCIA

Dia Mundial do Rock celebra movimento que une arte e engajamento

sábado, 13/07/2019, 10:26 - Atualizado em 13/07/2019, 12:29 - Autor: Lais Azevedo Martins


| Bernie Walbenny/Divulgação

O“Dia Mundial do Rock” só é comemorado no Brasil, no entanto, a data faz alusão ao evento internacional Live Aid - um dos momentos em que o rock foi usado como ferramenta de engajamento - um pedido, em 13 de julho de 1985, pelo fim da fome na Etiópia. E mesmo antes da reconhecida data ou agora, 34 anos depois, o rock segue sendo um dos gêneros musicais que mais se liga às pautas e ao engajamento político-social. Basta um olhar sobre a cena local paraense -uma das mais frutíferas do país - e seus mais recentes acontecimentos.

“O rock por si só é contestatório, uma forma de resistência. Mesmo que uma banda opte por falar de sentimentos mais pessoais, só o fato dela estar ali, fazendo um som sem ao menos saber se tocará numa rádio, uma música que nada contra a corrente da grande massa, já é uma grande forma de contestação. Fora as bandas que escolhem o caminho direto da panfletagem. As bandas são, na maioria, compostas por músicos que amam o que fazem, metem a cara sem editais ou patrocínios, algumas vezes à margem inclusive dos festivais da cidade”, aponta Jayme Katarro, da banda Delinquentes, uma das mais antigas do rock paraense e que acompanha parte dessa cena a partir da sua Fábrika Studio.

André “Bocão”, da Leprosys Produções, também destaca a resistência desses artistas diante de diversos problemas. E acrescenta mais um: a falta de espaços para que essa cena se desenvolva. “Isso tem anos em nossa cidade. Até temos locais, como o Memorial dos Povos, a Praça Waldemar Henrique e a Praça Dorothy Stang (na Sacramenta), mas todos abandonados! Então vamos naquela filosofia ‘Do It Youself’ (faça você mesmo). A maioria das bandas e os produtores seguem esses pensamentos para manter a ‘cena underground’”, afirma.

Como colocado por Jayme, há ainda o engajamento por meio do rock para alcançar espaços dentro desta mesma cena. E outro bom exemplo são as mulheres. Para Sammliz, com trajetória em programas de TV e de rádio dedicados à cena rock paraense, além de atuar à frente da icônica banda Madame Saatan e hoje em carreira solo, as mulheres “sempre estiveram por ali”, mas eram e ainda continuam sendo frequentemente invisibilizadas. Falta participação maior em line ups de festivais, maior destaque sobre o trabalho das musicistas e daquelas que fazem suas próprias produções.

De modo geral, reconhece que o rock perdeu um pouco de seu espaço para outros gêneros mais populares atualmente, “mas continua sendo feito e muito bem feito”, garante. “Em especial na nossa cidade, com bandas surgindo o tempo todo, como O Cinza, Noturna, Montra, Klitores Kaos - pra ter uma ideia, só falei aqui de bandas com mulheres na sua formação. Enfim, o rock vai ter sempre alguém afim de montar uma banda no seu quarto, hoje a tecnologia ajuda bastante essa produção. E vejo sempre com bons olhos as pessoas fazendo seus próprios sons, emulando estilos já conhecidos”, completa Sammliz.

Depois de censura, “Facada Fest” tem nova data

Depois de seu cartaz censurado e o evento impedido de ser realizado, o “Facada Fest III”, que estava marcado para o último final de semana, também pode ser um bom exemplo de como o rock nasceu para contestar. “Nós abordamos o rock em sua linguagem original, pautando debates de resistência social, defesa de direitos humanos, democracia, etc, embora muitas pessoas atualmente tratem o rock como ‘curtir o rock apenas pelo som’”, diz Rafael “Garganta”, um dos integrantes da organização do evento e membro do Fórum do Rock Paraense.

Depois do episódio e de muita movimentação dos organizadores, foi anunciado na noite de quinta-feira, 11, que, enfim, o evento vai ocorrer, com data em agosto. Mas a censura que previamente sofreu lembrou outro evento marcante do cenário paraense, o “Rock 24 Horas”, que ocorria no Teatro Waldemar Henrique na década de 1980 e acabou após sofrer repressão policial.

“O ‘Rock 24 Horas’ deixou um trauma gigantesco na nossa história. Durou décadas para conseguirmos nos levantar. O que houve no episódio do ‘Facada Fest’ foi muito triste, até porque são bandas jovens fazendo o que muitos não têm mais a gana de fazer, que são os shows abertos, em praças, e dando voz e vez a bandas muita das vezes iniciantes”, aponta Jayme Katarro.

Para ele, cercear esse tipo de atividade é retroceder nos anos de chumbo. “Foi muito triste ver pessoas elogiando a atitude de quem tentou impedir os shows, ao invés de nos apoiar. Não importa a conotação do nome do evento ou a arte do cartaz. Incentivar a cultura e a liberdade de expressão, deveria ser uma regra para quem ao menos já se considerou roqueiro”, afirma Katarro. Para Sammliz, esse rock feito no underground sempre vai existir.

“Sempre vão existir essas ramificações muito mais engajadas politicamente. O hardcore é assim, o punk é assim, muitos sons mais extremos. O ‘Facada Fest’ foi vergonhosamente censurado justamente por esse espírito político que uma parte grande de quem faz esse tipo de som tem em si. No Rock cabe tudo, inclusive ser instrumento de manifestação, que se acentua sempre em momentos de privação de democracia”, finaliza a artista.

 


| Bernie Walbenny/Divulgação
| Bernie Walbenny/Divulgação

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