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Emília 100 anos

Artistas paraenses participam de exposição virtual sobre o universo Lobatiano

A quadrinista Beatriz de Miranda e a escritora e colagista Monique Malcher fazem parte de exposição que comemora o centenário da estreia de Monteiro Lobato na literatura infantil brasileira

terça-feira, 24/11/2020, 08:05 - Atualizado em 24/11/2020, 08:16 - Autor: Juliana Angelim


Trecho da colagem Emília. Retirado do Instagram da autora
Trecho da colagem Emília. Retirado do Instagram da autora | Monique Malcher

Arte do evento Narizinho 100 anos.
Arte do evento Narizinho 100 anos. Mariana Salmonson
 

No Natal de 1920, Monteiro Lobato lançou A menina do narizinho arrebitado, seu primeiro livro infantil. A história apresenta a menina Lúcia, mais conhecida como Narizinho, além das clássicas personagens Dona Benta, Tia Nastácia e a boneca Emília. Contendo ilustrações coloridas e menos de 50 páginas, o livro foi várias vezes reescrito por Lobato e tornou-se o primeiro capítulo de Reinações de Narizinho – obra, de 1931, que reúne publicações anteriores do autor e que hoje consta como o primeiro volume da coleção de 23 livros ambientados no Sítio do Picapau Amarelo.

Para comemorar o centenário do livro em que Monteiro Lobato estreou na literatura infantil brasileira, será realizado o evento 100 anos de Narizinho, de forma gratuita e totalmente online. Nos dias 4, 5 e 6 de dezembro, o site narizinho100anos.com hospedará contações de histórias e mesas de debate com escritores, pesquisadores, ilustradores e outros profissionais conectados ao universo lobatiano. Quem está por trás da curadoria é Cleo Monteiro Lobato, bisneta do referido autor, juntamente com Mariana Salmonson (artista plástica e ilustradora), Mônica Martins (escritora e especialista em Monteiro Lobato) e Sônia Travassos (escritora, especialista em literatura infantil e contadora de histórias).

Embora o evento tenha culminância em dezembro, desde o mês de agosto têm sido disponibilizadas outras programações virtuais que também integram a proposta de comemoração do centenário. Pelo perfil oficial do evento no instagram, o @lobatocomvc, é possível acompanhar o lançamento periódico de lives, sorteios e de novos episódios do Podcast dos 100 anos de Narizinho. Além disso, no próprio narizinho100anos, há um espaço voltado especialmente para exposições, onde, de modo geral, o público tem acesso a diversas ilustrações referentes às obras e personagens de Monteiro Lobato. 

Três exposições estão anexadas nesse espaço do site. Uma delas intitula-se Emília 100 anos e traz alguns recortes da história em quadrinhos homônima que a Skript Editora irá lançar também em dezembro deste ano. A HQ é uma coletânea em que mais de 20 artistas expõem suas próprias versões da boneca falante Emília, sob a organização da editora e roteirista Carol Pimentel. Dentre as artistas convidadas para o projeto, duas são paraenses: a quadrinista Beatriz de Miranda e a escritora e colagista Monique Malcher. Ambas participam do livro Mulheres & Quadrinhos, publicado em 2019 também pela Skript. Para a ainda inédita coletânea Emília 100 anos, Beatriz criou a HQ de 6 páginas Materiem Superabat Opus ou o fantástico nascimento de Emília, a boneca, enquanto Monique produziu a colagem denominada Emília.

As artistas paraenses e suas Emílias

Beatriz de Miranda é designer, quadrinista e pesquisadora. Natural de Cametá, mora em Belém faz 10 anos. Numa das férias escolares de sua infância, ela tomou gosto por assistir à série televisiva d’O Sítio do Picapau Amarelo, época em que Emília tornou-se uma de suas personagens favoritas por ser questionadora e faladeira. Na volta às aulas, a escola onde estudava promoveu uma semana cultural e dentro das programações ocorreu um concurso de desenhos com o tema o Sítio do Picapau Amarelo – ocasião em que ela escolheu desenhar justamente a boneca Emília e terminou vencendo o concurso. Mais tarde, aos 15 anos e por influência de sua mãe, leu pela primeira vez Reinações de Narizinho; de forma que receber o convite para fazer uma HQ sobre a Emília não poderia deixar de ser especial, fazendo-a relembrar da infância no interior e de seus diferentes olhares sobre a história do Sítio. “A Emília é um constante agente de mudança na minha vida”, completa a artista.

Formada em Design pela Universidade do Estado do Pará (UEPA), Beatriz baseia seu processo de produção na metodologia projetual de design. Em linhas gerais, ela divide a produção do produto (no caso, da HQ) em etapas pré-determinadas, partindo de um problema (Como fazer uma história em quadrinhos original de 6 páginas da Emília?) até chegar ao resultado final. Ao longo desse processo, várias inspirações e referências vão se entrecruzando para dar corpo à história. Parte delas remete à infância da artista no interior do Pará e às leituras que fez nos mesmos períodos em que assistiu à série do Sítio do Picapau Amarelo e leu Reinações de Narizinho. As referências, especificamente falando, abrangem desde as obras infantis de Beatrix Potter ao Angústia, de Graciliano Ramos; do livro Frankenstein, de Mary Shelley, à canção Being Alive, do musical Company.

Materiem Superabat Opus ou o fantástico nascimento de Emília, a boneca. Como o título indica, a HQ é centrada no nascimento de Emília, mas também aborda, como história secundária, a relação de Narizinho com Nastácia. Diga-se de passagem, a expressão em latim “Materiem Superabat Opus” equivale a algo como “a obra superou a matéria” e é uma referência advinda do livro Metamorfoses, de Ovídio.

Arte conceitual da Emília. Imagem cedida pela artista.
Arte conceitual da Emília. Imagem cedida pela artista. Beatriz de Miranda
 

Monique Malcher também é pesquisadora, além de escritora e colagista. Nasceu em Santarém, mas viveu em Belém grande parte dos anos e atualmente reside em São Paulo. Na infância, sua relação com a Emília era mais ligada aos livros do que à série do Sítio do Picapau Amarelo. Lembra, sobretudo, da história em que a boneca viaja para o País da Gramática, que se tornou marcante por seu avô ter lido para ela e pela empolgação – compreensível para uma escritora – diante da ideia de um país das letras.

Monique sempre se identificou com o jeito ousado e espevitado de Emília. Contudo, a decisão de aceitar o convite para participar da coletânea Emília 100 anos não foi imediata: ela sentiu-se hesitante por conta das questões raciais que perpassam tanto a vida quanto a obra de Monteiro Lobato. No fim, ela resolveu entrar no projeto por tratar-se de uma releitura feita por mulheres; inclusive, várias delas negras. “Essas mulheres começaram a fazer suas versões da Emília, de histórias da Emília, pra dialogar com histórias que são importantes na nossa construção do imaginário de obras infantis brasileiras, mas também reatualizar essas histórias, colocar um olhar eu diria até feminista em cima delas”, analisa a escritora e colagista.

A colagem Emília mistura digital e analógico, produzida com alguns tecidos de um catálogo velho de cortinas. Tem como inspiração a história marcante que Monique citou, quando Emília viaja pelo País da Gramática com a ajuda de um rinoceronte. A paleta de cores, composta de tons rosa, azul e roxo, foi escolhida com o intuito de levantar a temática de gênero, questionando o que é uma cor (e também um comportamento) propriamente de menino ou de menina.

Trecho da colagem Emília. Retirado do Instagram da autora (@moniquemalcher)
Trecho da colagem Emília. Retirado do Instagram da autora (@moniquemalcher) Monique Malcher
 

Uma das páginas da HQ de Beatriz de Miranda e a colagem na íntegra de Monique Malcher estão disponíveis na Exposição Emília 100 anos. Clique aqui para conferir.

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