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Apaixonados pelo miriti

segunda-feira, 03/06/2019, 21:16 - Atualizado em 03/06/2019, 21:16 - Autor:


Mais do que uma expressão da cultura abaetetubense, fruto de suas origens indígenas, a fabricação dos brinquedos de miriti tornou-se um grande incentivo à criatividade de seu povo. Há gerações, eles ouvem de alguém da família que “do miritizeiro tudo se aproveita”. E cada vez eles vêm levando a afirmativa mais a fundo, experimentando e descobrindo que do miriti se faz joia, compensado, flores, óculos 3D, sem deixar de lado o brinquedo, que é por onde se conquista o coração dos pequenos “abaeteuaras”.


Tudo isso foi possível de ser notado no “16º Festival do Miriti – Miritifest”, ocorrido no último final de semana na cidade. Bastava uma parada em cada estande para ouvir histórias, ideias malucas que deram certo, orgulho e tradições que seguem passando a netos e netas.


Desde cedo no evento, olhando e brincando com o que encontrava pela frente, Maria Eduarda, 2, era a prova de que ainda vem muitas gerações de abaetetubenses apaixonados pelo miriti. “O miriti traz renda para as famílias e alegria para a cidade. Tem um significado especial pra gente. Ela [Eduarda] adora!”, comentou o pai, Deyvi Dirceu.


Mesmo entre os brinquedos mais tradicionais, era só manter o olhar atento para notar como as peças podem variar bastante graças a esse toque pessoal de cada artesão. “É todo um processo, desde a escolha do miriti, a técnica de corte, a escolha da lixa, das tintas, o desenho. Tudo faz muita diferença”, aponta William Souza, 18, que colabora com a produção do pai, artesão, fazendo a pintura das peças tradicionais. E ali, na feira mesmo, dava para ver alguns deles, como Manoel Correa, 64 (que há 40 anos fabrica os brinquedos), finalizando peças e mostrando um pouco de seu trabalho.


Outros artesãos, como Wheverton Llevy, 48, partiram do tradicional para encontrar um caminho diferente. Trabalhando o miriti junto a outras madeiras há mais de uma década, quando chegou a Abaetetuba, ele conta que aperfeiçoou suas técnicas e formas de produzir os pássaros tradicionais. “Eu busco caminhos para esculpir eles da forma mas realista possível. Antes, por exemplo, eu pintava os olhos, como os artesãos fazem; hoje, eu vou em busca de sementes proporcionais e que correspondam aos olhos de cada espécie”, mostra.


DO MIRITIZEIRO TUDO SE APROVEITA


Outros artesãos vão bem além dos brinquedos. É o caso de Gilda Brandão, 64, que há 12 anos vem experimentando o uso da madeira ao fruto e a semente do miriti na criação de biojoias. “Eu fui descobrindo o que dava para fazer. Comecei com a película que envolve o fruto e jogava fora o caroção, até que eu comecei a pensar em formas de usar tudo”, ela contou. O caroço virou anel, foi parar em colares exuberantes, pulseiras, conjuntos inteiros. Ainda aproveita a casca do fruto e a casca do tronco do miritizeiro.


Já Joel Cordeiro acabou mostrando-se um empreendedor e inventor nato. Desde 2006, ele via pelas feiras de artesanato clientes em busca de embalagens de miriti. “Eu ouvia eles perguntando nas barracas dos artesãos, via uma demanda e não tinha ninguém pra atender. E fazia sentido, o tempo de produção em relação ao preço, não compensava”, disse. Joel acabou criando o próprio método de fazer as embalagens em grande quantidade e, no caminho da experimentação, descobriu novos produtos.


Em parceria com a start up Interceleri, aperfeiçoou o formato e passou a produzir óculos 3D de miriti para enxergar filmes tridimensionais direto no celular. Do farelo que sobrava da produção, teimou em querer fazer papel, acabou criando um compensado biodegradável, que, em parceria com outra start up, Várzea Sustentabilidade, está sendo utilizado como isolamento térmico e acústico na construção de casas com madeira ecológica. “Quando descobrirem a diversidade do que é possível fazer com o miriti e o potencial dele como material biodegradável, o mundo inteiro vai querer”, profetisou.


CHAMATIVOS


Há, ainda, outros desdobramentos da arte tradicional que foi possíveis conhecer dentro do Festival. Com tantas pessoas e até famílias inteiras tendo contato com o manuseio do miriti, alguns acabam criando um estilo bem próprio. É o caso da artesã Antoinete Rodrigues, 52, que, no “16º Festival do Miriti” foi representada pela filha Suzane Rodrigues, 29.


“Desde o meu avô, na minha família se confecciona brinquedos de miriti. Meus irmãos, tios e tias estão nisso”, disse. Entre as criações da mãe, ela mostrava a bailarina e a noiva. “Só ela faz essas duas peças.As pessoas gostam porque têm um desenho diferente”, destacou, com orgulho.


E ninguém faz flores de miriti como o grupo de cinco mulheres moradoras da Comunidade Jurumã, de Abaetetuba - levinhas, esculpidas nos mínimos detalhes. Em uma oficina levada até elas por Mestre Pirias, descobriram um caminho diferente. “A gente fez a oficina para aprender algo diferente, gostamos muito e as pessoas começaram a gostar das flores que a gente fazia, principalmente as pessoas de fora”, revelou Josiane Cardoso, 29, destacando ainda que a atividade mudou as vidas dessas mulheres, todas casadas e donas de casa, trazendo independência financeira e grande motivação para tornarem-se empreendedoras.


Algumas peças já tendem para o chamativo. Ao invés de canoas com seus pescadores ou mesmo as rabetas, tão populares na região, um grande navio de guerra fazia sucesso no estande do artesão Valdilei Azevedo. A peça foi encomenda de um amigo e levou mais de um mês para ficar pronta. Coincidentemente, foi a paixão pelos barcos que o levou até o miriti. “Eu tinha o sonho de ter um barco desse. Com 7 anos eu já fazia os barcos de miriti sonhando com um de verdade. Toda edição do festival eu gosto de trazer uma peça bem diferente e consegui trazer essa”, mostrou, feliz.


CIDADE EMPREENDEDORA


Durante o evento, Abaetetuba oficializou sua entrada para o grupo de dez municípios paraenses do “Cidade Empreendedora”, programa de transformação econômica organizado pelo Sebrae, com foco na melhoria do ambiente de negócios, pela implantação de políticas públicas e ações de desenvolvimento para os pequenos negócios. A assinatura do documento que oficializou a parceria entre Sebrae e Prefeitura Municipal contou com a presença do Governador Helder Barbalho, que fez questão de visitar o festival e conversar com artesãos.


“É uma grande satisfação voltar a Abaetetuba, prestigiar mais uma edição do ‘Festival do Miriti’ e estar festejando essa arte. Eu acredito que esse é o caminho para fortalecer um lugar, investindo na sua cultura, na sua arte e no microempreendedor”, afirmou o Governador. 


“O festival é uma preparação para eles levarem seus trabalhos para outros lugares do país e do mundo”, comemorou o diretor-superintendente do Sebrae no Pará, Rubens Magno.


(Laís Azevedo/Diário do Pará)

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