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Itinerários de um jovem artista: paraense PV Dias vem ganhando destaque no Brasil

terça-feira, 21/05/2019, 07:10 - Atualizado em 21/05/2019, 11:40 - Autor:


Quem observa o sorriso tranquilo e olhar atento do jovem paraense de 24 anos que atualmente mora em Seropédica, região metropolitana do Rio de Janeiro, não imagina o quanto suas obras vêm ganhando destaque na internet – e para além dela.


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A loja Paris N'América, no tumultuado comércio de Belém do Pará, construída em 1870, inspirada nas galerias francesas, aquela coisa meio Art Nouveau. Me faz pensar bastante nessa eterna busca decadente e cafona da Belém europeia. Nessa incansável admiração pela Belle Époque paraense < a do comércio da Borracha > que quase nunca existiu. Digo, existiu ligeiramente para os avós dos que hoje lotam as cadeiras do colégio Marista de Belém. Aliás, nessa mais recente passagem em Belém também pensei nesse tesão esquisito por palacetes europeus na cidade, que hoje servem mais para nutrir essa esquisita nostalgia de um passado imaginário de nós, Paraenses. Ilustração sobre comércio de Belém. . . . . . . . . . #art #graphic #surreal #surrealism #artist #poster #drawing #artwork #painting #animation #gif #cartoon #exhibition #gallery #artebrasileira #pvdias #riodejaneiro #rj #arte #amazon #amazônia #amazonia #belem

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Paulo Victor Dias, o PV Dias, é natural de Belém, possui grande ligação a Igarapé-Miri e a Cametá por causa de seus familiares e morou por vários anos na capital fluminense. É comunicólogo, mestrando em Ciências Sociais na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e em janeiro deste ano foi destaque na revista eletrônica VICE, uma das referências em cultura underground no país.




Tamanho destaque não é por acaso. PV possui obras com grande cunho político-social, em geral feitas com tons fortes da tríade azul-amarelo-vermelho, destacando o papel político que a arte pode ter, ainda que em tempos frágeis, sem grandes ideologias, narrativas e (possibilidades de) compreensões – sobre o “outro”, inclusive.


“Experimento diversas plataformas artísticas, cheguei até ir para a pintura tradicional, que adoro fazer, mas resolvi voltar para meu traço, minhas cores. Mudaram os contextos em que eu faço meu trabalho. Hoje em dia acho que consigo abstrair mais algumas coisas, canalizar, traduzir e expor algumas ideias de maneira mais claras”, afirma PV.




Na contemporaneidade, estes contextos e reflexões também se aproximam de uma discussão sempre presente na arte: sua relação com o mercado, mais complexa ainda se observarmos a maior possibilidade de acesso à internet, sua pulverização e modos de consumo. Unindo tudo isto, PV afirma que “estou tentando furar essa bolha da ‘panela’ de artistas que existe no mundo inteiro. Aqui no Rio de Janeiro, por exemplo, vejo muitos artistas que aumentaram a exposição do seu trabalho utilizando a internet. Sempre que vejo algum que eu curto muito, conversamos, nos elogiamos, apoiamos. Acho que isso fortalece; conversar com pessoas com interesses similares sempre fortalece”.


É ele ainda que acrescenta: “é claro que é necessário estar nos lugares em que se faz arte e em que se expõem, mas penso que a internet é ótima nesse sentido, porque possibilita a alguém que nunca foi numa galeria ter contato com diversos trabalhos e gerar algum interesse para ir em exposições etc.”




A compreensão desta cadeia e aposta nas diversas possibilidades de diálogo vem dando bons resultados. “A internet é uma mídia essencial também para aproximar as pessoas de objetos artísticos, de obras, do ‘sentimento’ da arte. Hoje tenho obras em Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina, Pará, Ceará, São Paulo e semanas atrás enviei outro trabalho para Goiás... Pessoas que nunca nem me viram pessoalmente, ou sequer me conheciam, podem trocar uma ideia comigo, vêm conversar sobre meu trabalho, falar sobre arte em geral. Ela segue seja pelo pixel ou pela tinta. É muito bom!”, destaca.


CIDADE E ARTE


Bolsista de pesquisa e produção artística na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, referência em produção artística no Rio de Janeiro, PV apresenta em suas obras sujeitos que muitas vezes possuem expressões cansadas, talvez blasés, e isto diz muito sobre o período contemporâneo. As pessoas não sorriem, não apresentam grandes traços de felicidade. Os olhares são perdidos, distantes, como que enfadados pela realidade que vivem ou tristes lembranças que carregam.


Talvez seja possível compreender isto pelos cenários em que estão inseridos: sejam sujeitos urbanos perdidos na confusão tecnológica e citadina a que nós, de forma espontânea, aceitamos participar, sejam “personagens” históricos em locais contemporâneos, mas que demonstram chagas do passado, apresentando críticas ao racismo e a outras tristes formas de preconceito.


Para isto, Paulo possui como referências os fotógrafos Eugène Atget e Berenice Abbott e os artistas visuais Wilson Tibério, Antônio Rafael Pinto Bandeira, Benedito José Tobias, Wallace Pato, Andrey Kasay, Mulambo, Maxwell Alexandre e o paraense Eder Oliveira.


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Autorretrato, 2016. Óleo sobre tela, 205x297cm

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Há ainda em suas obras a percepção de cidades e realidades decadentes, em um movimento de queda dalcidiano que as diásporas dentro do Pará, região Norte ou mesmo do país não parecem diminuir. “Eu caminho por algum lugar, e algumas vezes quero tentar passar imageticamente o que sinto percorrendo aquele espaço. Existe o espaço e o que eu projeto sobre ele. O que eu projeto vendo aquelas vivências ali”, explica o publicitário.


Neste caminhar pelo caos, tristezas e possibilidades da urbe – uma flanêrie contemporânea é possível? –, o artista já viajou também por países como Argentina, Uruguai, Venezuela e Peru. “Do Rio de Janeiro para Cametá, de Belém para Buenos Aires. Há sempre uma comunidade ali circulando, uma comunidade vivendo, fazendo suas caminhadas, criando aquelas imagens todas sobre a cidade. Eu sempre penso nisso, vendo aquelas rotinas, vendo aquelas vidas dando imagens às cidades e faço isso também”.




Tal percepção, ainda de acordo com Paulo, possui motivações estéticas, sociais e acadêmicas: “Prédios, carros, banners etc. sempre fizeram parte da minha observação, desde a época em que comecei a estudar isso com o grupo de pesquisa Fisionomia Belém, em que refletíamos sobre algumas representações imagéticas sobre a cidade e na cidade. Alguns questionamentos ainda são muito pertinentes a minha mente, até hoje”, explica o artista ao se referir ao grupo de pesquisa coordenado pelo Prof. Dr. Relivaldo Pinho, que resultou no filme Fisionomia Belém (2015), disponível no Youtube:



NOVOS RUMOS


Apesar de toda a projeção que vem conseguindo na web, um dos principais objetivos de PV é, digamos, tradicional: “quero expor este ano. Estou fazendo pinturas em grandes formatos e estou pensando também em projetos com lambe-lambe, projeções em paredes etc. Tudo ainda sobre narrativas dentro de cidades, como, por exemplo, como as estéticas contemporâneas amazônicas se encaixam dentro do Rio de Janeiro e outras temáticas que rondam isso”, antecipa.


Neste itinerários na arte, cidades e buscas de si, o jovem artista pretende ainda provocar novas reflexões sobre práticas preconceituosas como xenofobia e racismo, mas também sobre o espaço urbano e o lugar (ou busca dele) dos sujeitos atualmente.



Para isto, ele indica sobre quem quiser conhecer mais a arte contemporânea, inclusive a sua: “Observem bem, reflitam, contemplem. Pensem sobre as diversas narrativas surgindo no mundo. Acima de tudo: olhem a sua volta. Olhem a cidade. As pessoas. Os restaurantes. Quem serve. Quem está sendo servido. Olhem o caderno policial e a coluna social. Olhem pra trás, para o passado. Isso é o que eu queria pedir para todo mundo fazer antes de ver qualquer trabalho meu. Meu trabalho é expressão de o que se passa na minha cabeça, imagens que já são criadas e eu só tento colocar pra fora e dar vida”, finaliza.


SAIBA MAIS


Acesse o perfil de PV Dias no Instagram: @palovitu


Conheça outras obras em seu site: https://cargocollective.com/pvdias 


(Enderson Oliveira/DOL)

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