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QUEM DISSE QUE COBRA NÃO VOA?

O homem que marcou gerações fazendo papagaios no Pará 

Há mais de meio século, o nome e o trabalho de Cobra atravessa a capital e outras cidades paraenses

sexta-feira, 19/03/2021, 19:19 - Atualizado em 19/03/2021, 22:57 - Autor: Igor Wilson


Frequentar seu ateliê faz parte do seu dia a dia
Frequentar seu ateliê faz parte do seu dia a dia | Via WhatsApp

Um homem caminha com a cachorra pela avenida Doca de Souza Franco, no bairro do Reduto, em Belém. Senta-se de frente à Baía do Guajará. Ali, permanece grande parte da manhã, olhando o céu e as pessoas, quase sempre tão apressadas, mesmo em período de pandemia. Ele faz isso há pelo menos 30 anos, todos os dias. Os milhares de paraenses que transitam no local não fazem ideia, mas talvez as infâncias e adolescências deles não seriam as mesmas sem o trabalho daquele senhor de óculos e cabelos grisalhos. Reginaldo da Costa Mourão, mais conhecido como Cobra. Uma lenda viva de nosso Estado. 

Cobra marcou gerações de paraenses fazendo papagaios durante mais de meio século. Dos bairros mais abastados às periferias, o nome dele atravessou toda capital e outras cidades paraenses em uma época que a única forma de se fazer propaganda era o chamado boca a boca.

Ter um papagaio ou uma cangula do Cobra era uma verdadeira ostentação. Já se começava o jogo dos “laços” ganhando de 1 a 0. Atualmente com 75 anos e recém imunizado contra a covid-19, Cobra ainda fica impressionado com a própria história, que se confunde com a do local em que mora. 

DO MATO AO LUXO 

 

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O que hoje é um bairro destinado a homens de negócio e à enormes prédios que servem de moradia à elite paraense, antes, até o final da década de 50, era apenas um terreno baldio rodeado por matagais e igarapés. Era ali que o pequeno Reginaldo via o pai e o tio passarem o tempo empinando papagaios.

Como era muito novo para encarar os disputados laços com os demais, o menino fazia “curicas” com jornal ou folhas de caderno, esperando seu dia de virar “gente grande” como o pai e o tio. Misturado a centenas de outras pessoas, Cobra nunca mais esqueceu o colorido dos objetos no céu e da alegria que a brincadeira trazia a todos ali. Empinar papagaio era um refúgio para uma vida tão árdua.  

“Essa Doca quando eu conheci, quando era um caminho só mato, dava uma chuva e enchia tudo. Ninguém queria morar aqui, lembro que o prefeito dava terreno e ninguém queria. Depois, o prefeito Lopo de Castro abriu o canal, aterrou e ficou pai d'égua pra empinar papagaio. Desde a Municipalidade até a José Malcher era só papagaio e cangula. Vinha gente de toda Belém empinar pra cá. Nunca imaginei que essa Doca ia ficar como está hoje”, conta. 

COBRA CRIADA 

 

Cobra guarda os inúmeros recortes de reportagem, sobre seu trabalho.
Cobra guarda os inúmeros recortes de reportagem, sobre seu trabalho. Via WhatsApp
 

Foi neste ambiente que Reginaldo foi criado. Quando começava a temporada de papagaios, que naquela época durava muito mais, ia todos os dias, junto com a turma de sua rua, empinar pelas Docas. A impossibilidade de sempre comprar papagaios prontos o fez começar a tentar fazer os seus. Foi aí que a vida dele mudou para sempre. 

“Com uns 12 anos comecei a fazer cangula e papagaio. Em um certo dia o pessoal da rua subiu um e achou muito bom, cortaram todo mundo (risos). Desde esse dia começaram a encher meu saco pedindo pra eu fazer papagaios pra eles. Eles gostavam tanto que passaram a me chamar de Cobra. ‘Aquele ali é cobra em papagaio, olha ali o cobra', ouvia sempre. Comecei então a vender oficialmente em 1962. A qualidade do papagaio foi passando de boca em boca e fui ficando famoso. A partir daí começaram a aparecer muitas encomendas”, diz. 

O adolescente foi ganhando fama e dinheiro ao longo dos anos. Aos 18 anos arrumou um emprego na antiga Senasa. No início, tentava conciliar as duas atividades. De dia ia para o emprego formal e a noite corria para casa, direto para seu ateliê, onde tentava dar conta das encomendas que não paravam de crescer. Não deu. Um dia, confrontado com a encruzilhada que o obrigava a escolher um dos caminhos, não pensou duas vezes. “Larguei meu emprego pra ficar com o papagaio”.  

COBRA É ARTE ETERNA 

 

Cobra ensinou sua arte  a várias pessoas, mas ainda guarda alguns segredos.
Cobra ensinou sua arte a várias pessoas, mas ainda guarda alguns segredos. Via WhatsApp
 

O tempo mostrou que a corajosa decisão de Cobra foi correta. Com a profissão, conseguiu aumentar a casa onde mora e criar as três filhas, hoje adultas e formadas. O perfeccionismo colocado em cada uma das centenas de papagaios que produzia diariamente ultrapassou até as barreiras do Pará. Em casa, a mesma em que mora atualmente, batiam todos os dias pessoas de várias classes socioeconômicas, em busca dos famosos objetos de seda e tala.  

“Aqui vinham desde jovens da periferia até famílias da elite paraense.  A família Chermont e os próprios Barbalho vinham aqui comprar papagaios para sua meninada. Já quiseram me levar pra Portugal e pra a França para ensinar essa arte por lá, mas eu recusei, estava bem estabelecido, como eu ia fazer com minhas encomendas? Era época de papagaio”, diz, aos risos. 

 

Cobra largou emprego pra viver de papagaio. Deu certo.
Cobra largou emprego pra viver de papagaio. Deu certo. Via WhatsApp
 

A arte do Cobra esteve em várias exposições em museus do Pará, do Brasil e do mundo. Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, da cidade francesa Lyon e até no Japão. Talvez no Pará não haja exemplo de arte mais democrática. Ao mesmo tempo que impressionava os intelectuais que frequentavam as exposições, os papagaios do famoso Cobra deixavam os céus de Belém repletos de um colorido especial. Era acessível a todos, pobres e ricos. 

Até hoje, o nome de Cobra continua sendo um sinônimo de qualidade. Está presente em toda “quebrada” paraense. Muitos ouvem sem saber de quem se trata, apenas reproduzindo algo dito pelos pais ou tios que brincavam antigamente.

Reginaldo fez de uma brincadeira de criança sua profissão, provando a todos que Cobra criada voa sim. Ali, sentado ao lado de sua cachorra, levanta. É hora do almoço. “Um abraço a todos, o Cobra não morreu viu”, diz aos risos, novamente, sem saber, talvez, que ele será eterno. 

 

 

Cobra marcou gerações com seu trabalho. Hoje ele está aposentado, mas sempre próximo aos papagaios e rabiolas.
Cobra marcou gerações com seu trabalho. Hoje ele está aposentado, mas sempre próximo aos papagaios e rabiolas. Via WhatsApp
 


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