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VISIONÁRIA DA CENA

Pesquisadora paraense resgata importância de Maria Sylvia Nunes para o teatro brasileiro

A encenadora, que faleceu em março, aos 90 anos de idade, teve seu trabalho cênico e pedagógico apagado dentro dos livros que versam sobre essa história das artes cênicas no país

domingo, 22/11/2020, 08:24 - Atualizado em 22/11/2020, 12:55 - Autor: Lais Azevedo


| Acervo Maria Sylvia Nunes

Após seis anos de “escrita e muitos caminhos percorridos”, como ela mesma define, a pesquisadora Iracy Vaz apresentou ao mundo acadêmico - e ao público on-line - a sua tese de doutoramento, onde versa sobre a importante contribuição de Maria Sylvia Nunes para a modernização do teatro brasileiro. E analisa, especialmente, como a encenadora, que faleceu em março, aos 90 anos de idade, teve seu trabalho cênico e pedagógico apagado dentro dos livros que versam sobre essa história das artes cênicas no país.

Maria Sylvia capitaneou jovens estudantes para a formação de um grupo denominado Norte Teatro Escola do Pará, em 1957, dando prosseguimento ao projeto de Paschoal Magno, o Teatro do Estudante, dentro da Amazônia paraense. Com este grupo, ela esteve à frente de vários espetáculos de vanguarda. “Eles fizeram montagens de textos até então inéditos no Brasil. O próprio Benedito Nunes (marido dela) e a Angelita Nunes (irmã) traduziam e eles montavam o texto”, destaca Iracy.

Tanto que Maria Sylvia foi a primeira encenadora a montar “Vida e Morte Severina”, transformando o poema de João Cabral Neto em espetáculo. “E ela ganhou o prêmio de Melhor Diretora com esta montagem no Festival do Estudante, festival nacional de 1958”, relata a pesquisadora. Muito de suas contribuições vieram dessa essência experimental do teatro que a encenadora realizava.

“Ela sempre buscava, por exemplo, outros espaços de encenação, fez espetáculos na sala da casa dela, o que, na década de 1950, não era usual. Hoje se faz, mas naquela época era bem vanguarda você estrear um espetáculo na sala da sua casa. Essa subversão do espaço cênico, essa busca por novas possibilidades de encenação, a gente observa no trabalho da Maria Sylvia ao longo de toda a trajetória dela”, aponta Iracy.

É importante ressaltar ainda outra grande contribuição dela, lembra Iracy, que em esforço conjunto com Benedito Nunes, conseguiu construir a primeira escola de teatro da Amazônia, hoje a Escola de Teatro e Dança da Universidade Federal do Pará. No entanto, Maria Sylvia, assim como grande parte das mulheres artistas provenientes da Amazônia, teve seu trabalho cênico e pedagógico apagado da historiografia do teatro brasileiro.

“A gente observa que essa história canônica é muito pautada nas narrativas do teatro produzido no eixo Rio-São Paulo e invisibiliza todo o restante do Brasil. Vários autores citam a primeira montagem de ‘Morte e Vida Severina’ como feita por um sudestino, Silnei Siqueira, e invisibilizam que foi a montagem da Maria Sylvia. Mesmo que tenha sido realizada e premiada em festival nacional. Então, ao ler alguns autores, a gente observa essa invisibilidade”, destaca.

Iracy aponta duas questões que corroboram para esse apagamento. O primeiro é o colonialismo interno. “A gente, na região amazônica, é subalternizado, todos os nossos saberes são”; o segundo ponto seria o simples fato de Maria Sylvia ser uma mulher. “A figura do encenador é muito ocupada pelo masculino e, na década de 1950, ela se posicionou como encenadora”.

A pesquisadora destaca ainda como este é seu próprio lugar de fala. “Todo sujeito que constrói pesquisa fala de um lugar, tem uma raça, um gênero. Quando falo do teatro feito por mulheres na Amazônia, eu também atravesso essa invisibilização. Eu faço teatro há mais de 15 anos e vivenciei várias situações em que o teatro feito no Norte, quando relacionado ao Sudeste, sofre subalternação. Quantas das minhas práticas aqui, quando vão para o nacional, são olhadas com desconhecimento e preconceito em relação à Amazônia”, ressalta.

Mas ela destaca como já há vários pesquisadores querendo construir essa história do teatro a partir das margens. “De Belém, temos o Cauã Amora, que tem pesquisado o teatro queer na Amazonia, um teatro engajado em questões LGBTs na Amazônia; a nível nacional, muitos outros, como Marcos Antonio Alexandre, que fala de teatro negro, outra parte dessa historiagrafia que também é invisibilizada”

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