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Artistas pretxs que protagonizam a arte contemporânea no Pará

terça-feira, 16/06/2020, 10:33 - Atualizado em 16/06/2020, 21:32 - Autor: PV Dias (especial para o DOL)


Máscara de @laboyoung, styling de @ibkamara, feita para a edição de setembro, 2019 da @m_magazine.
Máscara de @laboyoung, styling de @ibkamara, feita para a edição de setembro, 2019 da @m_magazine. | Foto de @theodegueltzl

O Pará parece carregar em sua “essência” a expressividade artística, seja na música, na poesia, na fotografia, na pintura ou em outra linguagem artística. As cidades, as pessoas e os espaços do Estado são palcos para as mais diversas possibilidades estéticas.

Em Belém, por exemplo, as imagens da cidade parecem saltar ao enquadramento de quem as vê, mas antes das imagens ou do resultado das representações desses espaços, é preciso se atentar em quem produz essas representações, ou por quem elas foram representadas.

Atualmente, os corpos afro-amazônicos e corpos pretos são destaques nas produções dessas representações. Há tempos não aparecem somente na condição imposta de observados, como na pintura da paraense Antonieta Feio em meados do século XX ou nas fotografias de Felipe Fidanza no século XIX, mas na condição de quem observa, de quem representa suas próprias subjetividades.

Vendedora de cheiro, 1947, Óleo sobre tela, 105 x 74 cm, Acervo Museu de Arte de Belém.
Vendedora de cheiro, 1947, Óleo sobre tela, 105 x 74 cm, Acervo Museu de Arte de Belém. Pintura de Antonieta Santos Feio
 

Na música, esse movimento é bem visível, basta lembrar dos grandes mestres do carimbó, do saudoso Verequete e da resistência que mantém existente o samba de cacete do Baixo Tocantins. Para além da música tradicional do nosso Estado, afirmam-se as outras abordagens artísticas feitas pelas mãos de artistas pretos e afro-amazônicos diariamente.

Rodrigo Leão, Elton Galdino e Pongo, por exemplo, são três artistas visuais que exploram através de desenhos as mais diversas temáticas que vão de processos identitários a especificidades urbanísticas do estado.

Elton Galdino participou de publicações, prêmios, exposições e feiras gráficas em Belém e outras cidades brasileiras. Foi um dos coorganizadores das feiras gráficas Marca D’água (Fotoativa) e Traços (Sesc Ver-o-peso), e é coofundador do coletivo de arte e design Camelã. Recentemente, abriu a exposição individual “Miro lo que pasa”, na casa das Artes, como resultado do prêmio de Produção e Difusão Artística da Fundação Cultural do Pará.

Rodrigo Leão é grafiteiro, ilustrador, quadrinista e arte-educador pela UFPA. Trabalha corpos/personagens LGBTI+ e/ou racializados abordando temas sociais ou questões pessoais e subjetivas, também contribui com ilustração em materiais informativos de cunho social e ambiental. Integra o coletivo de artistas negras e negros paraenses Ilustra Pretice PA.

Pongo faz quadrinhos desde 2009, começou aos 17 fazendo charges para um jornal local e não parou de fazer quadrinhos até hoje. É de Parauapebas e hoje vive em São Paulo.

Dentro das possibilidades das múltiplas plataformas visuais, se encontram também artistas que agem nos mais variados suportes como Fierce, Labo Young, Jean Petra, Rafael Bqueer e Thays Chaves.

ThaysChaves, ou Nazas, é nascida e crescida em Ourém, estuda Licenciatura em Artes Visuais na UFPA. É uma artista visual que caminha entre a fotografia, a pintura, arte digital, foto-colagem, performance, escultura, desenho, grafite e escrita. Nazas se coloca como afro-futurista da Amazônia, se utilizando da tecnologia das vivências amazônicas como linguística para a produção e pesquisa de sua estética.

Marcely Gomes, ou Fierce, é uma artista residente da Ilha de Outeiro. Sua expressão e inspiração maior vem de suas vivências como uma mulher preta moradora de uma ilha periférica, abordando em sua subjetividade, aspectos da natureza que a rodeia.

Prosseguindo, Labô é um artista que o trabalho carrega novas estruturações para objetos da natureza, sobre seu trabalho. Ele afirma que “Esse mundo lúdico que tenho construído vem de um lugar muito afetivo na minha família, os ensinamentos e saberes que minha mãe carrega, que vêm da minha avó e da vivência dela como criança ribeirinha e as urgências em que muitas vezes nos encontramos. Acho que é isso que me transforma tanto como artista e pessoa também. A vivência do dia-dia enquanto pessoa periférica, LGBTQI+ da Amazônia.”.

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Shot by @theonlymattjones

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Rafael Bqueer, nascido em Belém, vive e trabalha entre Rio de Janeiro e São Paulo. Graduou-se em Licenciatura e Bacharelado no curso de Artes Visuais pela Universidade Federal do Pará (UFPA). É Drag queen e ativista LGBTQI+; Atua de forma transdisciplinar com vivências entre a moda, escolas de samba e arte contemporânea. Seus trabalhos investigam questões sobre: Gênero, sexualidade, afrofuturismo, descolonização, e interseccionalidades. Participou de diversas residências e exposições nacionais e internacionais, entre elas: Despina- RJ (2017) ; Red Bull Station – SP (2017), Artista finalista do prêmio EDP nas Artes – Instituto Tomie Ohtake- SP (2018); Participou do curso “Formação e deformação” da Escola de Artes Visuais do Parque Lage- RJ (2018) ; Artista selecionado pela EAV Parque Lage para a bolsa de residência Artística na AnnexB, em Nova York (2019); Artista indicado para a 7o edição do Prêmio Marcantonio Vilaça - SP(2019); Artista premiado na 7º edição do Prêmio Foco Art Rio 2019; Recentemente realizou a exposição individual "UóHol" no Museu de Arte do Rio(2020). Faz parte das coleções do Museu de Arte do Rio (MAR), Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM) e Museu do Estado do Pará.

Por fim, Jean Petra, que nasceu em Icoaraci, vive atualmente em São Paulo. Suas obras se refletem em emoções, memórias e sonhos afetivos que se manifestam em foto-performances, através de manipulações digitais, onde se criam cenários em ambientes que interagem entre o utópico e o distópico.

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Nheengatu

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Na fotografia, podemos falar do trabalho de Cafeína e Nay Jinknss, cujos trabalhos constroem um outro imaginário possível para as ruas, pessoas os espaços públicos da área metropolitana de Belém.

Helenice Franco Amorim,ou Cafeína, tem 25 anos, moradora de Ananindeua, bairro da Cidade Nova VI. Começou a fotografia urbana com seu celular há quatro anos e a 2 explora cada vez mais novas narrativas visuais.

Nay Jinknss é uma fotógrafa que narra a cidade de Belém há uma década, muitos registros são feitos no complexo paisagístico do Ver-o-Peso, no entanto, por onde sua obra olha, é possível enxergar a potência de suas cores e intensidade de cada pessoas registradas.

Ainda na fotografia, pode-se observar os trabalhos das artistas Carolynne Matos e Vitória Leona. Artistas que por sua vez, abordam a questão do retrato, cada qual com uma leitura única de registro do outro.

De Ananindeua, Carolynne Matos, usa a fotografia como instrumento de empoderamento da estética negra. Iniciou sua trajetória em 2017, ao comprar sua primeira câmera antiga. Inspiradas nos bailes blacks da cidade e na sua própria vida, retrata pessoas negras longes de um olhar dramático. A iniciativa rendeu trabalhos divulgados na plataforma da Vogue Itália e a participação de diversas exposições coletivas.

Vitória Leona, que atualmente reside em São Paulo, nasceu e cresceu em Belém, onde iniciou sua relação com a fotografia em 2011 aos 12 anos. Somente na sua mudança para São Paulo passou a focar em fotografia de moda, cobrindo os principais eventos de moda da cidade, além de trabalhar com grandes marcas.

Para nossa felicidade, como você bem sabe, ainda temos a possibilidade de contar com grandes jovens músicos:

NicDias é rapper, compositora e ativista. Nasceu em Icoaraci, onde cresceu e reside até hoje. Filha de mãe solteira, estudou a vida inteira em escolas públicas e isso serviu de inspiração para que, aos 14 anos, escrevesse suas primeiras poesias, baseadas em seus sentimentos e realidade. Nesse mesmo ano fundou o “Olhar Invisível”, projeto social que atendia pessoas em situação de rua. Aos 18 começou a escrever suas primeiras músicas.

Pensando em como a realidade da população negra é retratada, não quis ser apenas uma estatística, quis se protagonista da sua própria história, e o Hip Hop trouxe essa autonomia. Em suas letras transpassa tudo aquilo que já viveu, falando das dores, auto estima e sonhos da população negra, a arte como instrumento de mudança.

Por sua vez, Sumano MC, é rapper e compositor. Natural da comunidade ribeirinha Menino Deus do Anapu, situada na região de ilhas de Igarapé-Mirí, sempre foi amante de poesia desde a infância, aos 10 anos já escrevia pequenos textos versados e aos 12 anos de idade conheceu o rap onde identificava grande parte de sua realidade nas letras. Aos 13, Sumano buscava musicalidade para os seus versos no estilo. Era através do rap que ele expressava seus desejos e angústias. Passou a sonhar em ser MC, mesmo sabendo de todas as dificuldades que um ribeirinho filho de agricultores enfrentaria.

Já Meno entende que voltar as raízes é a melhor maneira de confiar em quem somos hoje. Trabalha com músicas, pinturas, vídeos de curta duração e produções audiovisuais. Morador de Icoaraci, mais precisamente na rua 8 de maio desde sempre. Dono de um trabalho musical incrível, em 2020, lança sua terceira mais recente Beat Tape que pode ser acessada no link acima, indispensável para quem gosta de experimentações musicais.

A lista de artistas pretxs que protagonizam a arte contemporânea no Pará é longa e poderíamos ficar aqui por muito tempo escrevendo ainda sobre Gaby Amarantos; Leona; Jeff; Daniel Adr; Moraes Mc; Ruth Clark; Matheus Almeida; Éder Oliveira; Fresko Prince; Pelé do Manifesto; Gabriela Monteiro; Maurício Igor; Luccas Moraga; Victória Costa; Juliana Matemba; GabrielJeff MoraesMina RibeirinhaHelô IlustraPriscila Duque e até mesmo o trabalho na área teatral de Zélia Amador ou mesmo da consagrada Nazaré Pereira. Ainda seria pouco diante da completude que esses corpos representam para a arte paraense. Existem inúmeros artistas pretos e afro-amazônicos do Pará e que todos eles continuem presentes e vivos entre nós!

Para concluir esse texto, destaco a fala integral e importantíssima de Rafael BQueer sobre sua trajetória como artista e sobre as produções artísticas vindas de corpos afro-amazônicos e pretos no Pará:

“Eu sou um artista amazônico que sempre estive em constante diálogo com as escolas de samba da cidade. Em 2008, comecei a acompanhar amigos carnavalescos, conhecendo uma arte paraense feita nas baixadas, nas periferias da cidade: Jurunas, Pedreira, Guamá, entre outros, são alguns dos muitos espaços onde habita a resistência afro-amazônica.   Em 2012 assinei o meu primeiro carnaval no Quem São eles. Aprendi que em um dos bairros com uma das maiores especulações imobiliárias da cidade haviam diversas vilas e vielas com antigos moradores negrxs e que carregam na oralidade a luta de nossos ancestrais. A universidade e os espaços institucionais de arte contemporânea me apresentaram a história da arte europeia e uma arte brasileira protagonizada por sudestinos brancos e burgueses. Que na grande maioria não sabem localizar Belém no mapa do Brasil, não conhecem a Amazônia e não sabem nada da nossa complexidade afro-indígena, que é constantemente romantizada como o ‘caboclo da floresta’. Se a história da arte paraense até então nos colocou por meio de fotografias e vídeos como objeto de estudo, agora é o momento de reconstruir esse passado e repensar a noção de futuro para a representação de nossas corpos. Entender que não existe arte contemporânea paraense negra ou indígena sem a presença dos que praticam e pensam suas próprias existências e subjetividades".

PAULO VICTOR DIAS, O PV DIAS

PV Dias é artista, comunicólogo e mestrando em Ciências Sociais na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).

Já foi destaque na revista eletrônica VICE, assinou a capa da edição especial "Poemas para ler antes de notícias”, da Revista CULT, em outubro de 2019 e participou de várias exposições no país, como ‘Arte Naif: Nenhum Museu a Menos’, que aconteceu no Parque Lage, Rio de Janeiro, com curadoria de Ulisses Carrilho.

Entrevistado pela Revista Dobra, de Portugal, ele também participou da exposição coletiva no espaço Caixa Preta, com curadoria de Rafael Bqueer; no Instituto Goethe da Bahia, com curadoria do Tiago Sant'Ana e no espaço Pence, com curadoria de Silvana Marcelina.

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Cimento. Construção da obra. #pvdias #artebrasileira #contrucao #obra

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Texto especial para o DOL de PV Dias. Edição de Enderson Oliveira, coordenador de conteúdo no DOL.

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