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Mulheres trans e artistas lutam por espaço e respeito 

domingo, 08/03/2020, 11:38 - Atualizado em 09/03/2020, 12:59 - Autor: Lais Azevedo


A modelo e designer de moda Poliana Mangabeira e a cantora Gabriela Amador, a Dama Blackout, enfrentam preconceito diariamente
A modelo e designer de moda Poliana Mangabeira e a cantora Gabriela Amador, a Dama Blackout, enfrentam preconceito diariamente | Francisco Neves

Assim como em outras áreas, no meio artístico, em carreiras que envolvem potencial criativo, as mulheres também precisam ainda se esforçar mais por reconhecimento, espaço, e retorno financeiro pelo seu trabalho. O DIÁRIO já mostrou como era singular a luta de artistas mulheres, e como é duas vezes mais difícil para as artistas negras afirmar seu lugar. Mas e se além de todas essas barreiras, elas ainda têm que impor e se fazer respeitar por sua identidade de gênero, como é o caso das artistas trans? Um olhar a que nos propusemos nesse Dia Internacional da Mulher.

Não foi à toa a dificuldade que a própria reportagem teve em encontrar escritoras, fotógrafas, instrumentistas, designers, compositoras ou bailarinas paraenses, mulheres trans, com uma carreira consolidada. “O mercado formal é muito difícil. Inclusive, as pessoas trans que estão no mercado geralmente são profissionais que possuem algumas das melhores formações e nem por isso facilita o caminho”, comenta Poliana Mangabeira. Ela mesma precisou pausar a formação em designer de moda e os trabalhos como modelo, em busca de atividades rentáveis.

“Não estou atuando na minha área, mas eu também só comecei a fazer moda em 2019, e acabei trancando o curso para vir para São Paulo, onde achei que poderia encontrar mais oportunidades e então voltar à faculdade. Os trabalhos que fiz foram em grande parte independentes e por permuta, não têm pagamento”, explica Poliana, que chegou a modelar por aqui para marcas de acessórios e em eventos de moda.

Sobre as permutas, ela comenta que não deixa de ficar feliz pelos convites, mas queria mais. “Queira ou não, a gente tem que criar portfólio, mas também preciso me sustentar. Por isso vim para São Paulo, tentar ganhar dinheiro mesmo. Minha mãe sempre pergunta se é esse meio mesmo em que eu quero trabalhar, se vai colocar comida na minha mesa”, conta.

As mesmas preocupações passam pela cabeça de Gabriela Amador, que, com apenas 19 anos, diz não querer ter que viver de algo que não seja a carreira de cantora. “Sempre gostei e fui muito envolvida com música. Digo que sou artista porque gosto de estar em todo o processo de escrever, produzir, editar, gravar videoclipe e misturar todas as artes em uma só. Arte para mim é isso, tudo está ligado”, diz ela, que utiliza o nome artístico de Dama Blackout.

Como tal, ela gosta de colocar suas próprias experiências nas músicas. “Gosto de pegar temas sociais, minhas vivências, para afetar mesmo, conscientizar. Minha arte serve para tocar as pessoas de alguma forma”, diz ela, que desenvolve uma linguagem bastante contemporânea. Ela produz cada um dos instrumentos de suas músicas, sobrepõe as gravações, produz letra, também traz releituras de poemas e outras artistas negras, trans, mulheres, como ela.

Em seu canal no Youtube, pode-se acompanhar algumas dessas produções. O mais recente trabalho foi uma música encomendada para o curta-metragem “Primeiro Dia de Verão”, produzido por um coletivo do curso de Cinema da Universidade Federal do Pará. “Chamamos várias pessoas para ajudar, e ficou muito bonito”.

Ela conta que nunca passou uma situação de constrangimento, mas talvez por nunca ter mostrado sua arte além dos espaços LGBT. “As pessoas no geral entendem, mas acho que não levam a sério o meu trabalho, acham fantasioso. Não passei constrangimento, mas já passei por uma situação estranha. Um repórter, ao me entrevistar sobre questões LGBT, perguntou meu nome, mandei um áudio dizendo que era Maria Gabriela Amador, e ele disse ‘pensei que era João Amador’”.

Situações como essa, diz ela, incomodam. “É muito complicado. Já é difícil para uma mulher ser artista, mulheres trans têm questões que são só do universo delas. Todo mundo tem seu universo e problemas, mas a gente tem que resolver nossas questões com a gente mesma e lidar com o mundo, explicar para as pessoas sobre as coisas. Isso incomoda e é cansativo”, desabafa.

Representatividade importa e ajuda a abrir caminhos

A bailarina Anastacia Marshelly acabou virando referência para outras mulheres trans paraenses
A bailarina Anastacia Marshelly acabou virando referência para outras mulheres trans paraenses Divulgação
 

No ramo da moda, Poliana conta que muitas vezes é preciso atender ainda a outros padrões, mesmo já inserida em um nicho de modelos trans. “Aqui em São Paulo ainda nada apareceu, acredito que por conta da não-passabilidade”, diz ela. O termo “passabilidade” é usado para se referir ao quanto um homem ou uma mulher trans “passam por” um homem ou mulher cisgênero, pessoas cujo gênero é o mesmo do designado em seu nascimento. Mas, parecer cis não é necessariamente a intenção de uma pessoa trans.

“Eu estou deixando meu cabelo crescer agora, porque a gente precisa de dinheiro e vou ter me encaixar num padrão feminino para poder ter uma renda. Isso rola em relação às agências, mas com relação a trabalhos independentes, não. A maior parte do que fiz em Belém e em Pelotas (cidade onde morou antes de vir para Belém em 2018), não precisei, por exemplo, colocar uma peruca, usei meu próprio cabelo”, compara.

De maneira geral, elas contam que se esforçam o máximo possível dentro de seu ramo para fazer contatos, se profissionalizar, unir forças com outros artistas e ir construindo referências para o próprio mercado. Da própria cidade, como a influencer e artista visual Flores Astrais e a bailarina e performer Anastacia Marshelly, e outras de nome nacional e internacional.

“Lady Gaga, mesmo tenha padrão feminino, trouxe algo diferente, que te dá coragem de ousar. Também é interessante quando veio a Pabllo Vittar, você [trans] não costuma ver algo assim enquanto cresce; a Lin da Quebrada, que coloca o que pensa e o que a gente vive nas músicas dela. Eu acho muito corajoso e forte. É necessário colocar o que a gente passa na arte. Tem a banda As Travestis, que descobri recente. São descobertas que te fortalecem, acho muito importante ter pessoas assim”, diz Gabriela Amador.

SAIBA MAIS

Dama Blackout

Poliana Mangabeira

Anastacia Marshelly

Prazer, Flores!

(Flores Astrais)

 

A bailarina Anastacia Marshelly acabou virando referência para outras mulheres trans paraenses
A modelo e designer de moda Poliana Mangabeira e a cantora Gabriela Amador, a Dama Blackout, enfrentam preconceito diariamente | Francisco Neves
A modelo e designer de moda Poliana Mangabeira e a cantora Gabriela Amador, a Dama Blackout, enfrentam preconceito diariamente
A modelo e designer de moda Poliana Mangabeira e a cantora Gabriela Amador, a Dama Blackout, enfrentam preconceito diariamente | Francisco Neves

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