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Entre ofensas gritantes e prazeres silenciosos: a Belém da homofobia e dos banheirões

sábado, 18/01/2020, 10:29 - Atualizado em 18/01/2020, 11:02 - Autor: Maurício Igor e Enderson Oliveira


| Maurício Igor

Os pequenos hábitos que fazemos diariamente vão dando forma à nossa rotina. Dentre muitos, um deles é frequentar banheiros “públicos”, sejam em shoppings, restaurantes, bares, instituições de ensino ou outros ambientes. Neles, não é raro notar que muitas vezes as paredes são riscadas, também com conteúdos de pessoas que buscam sexo casual, como de outras que, infelizmente, expressam sua homofobia.

Ali, então, se estabelece um tipo de comunicação. Na verdade, vários. Setas, desenhos e números levam a diversas mensagens, um caleidoscópio de diálogos sobre convites para encontros, textos de humor e também discursos de ódio, isto é, mensagens que promovem a violência, hostilidade ou perseguição contra uma pessoa ou grupo, em função de características como raça, orientação sexual ou gênero.

Na porta de um dos banheiros da Faculdade de Artes Visuais da Universidade Federal do Pará, por exemplo, lê-se: “ô lugarzinho pra ter viado”. Manifestações como essa são representações de um pensamento generalizado de repulsa à comunidade LGBTQIAP+ (Lésbicas, Gays, Bi, Trans, Queer/Questionando, Intersexo, Assexuais/Arromânticas/Agênero, Pan/Poli, e mais), que fazem o Brasil ser o país que mais mata pessoas desse grupo no mundo – e também reverbera, não raramente com a alcunha de “humor” discursos homofóbicos.

As fotos deste texto integram a série "Ô lugarzinho pra ter viado", exposta por Maurício Igor em Belém, outras cidades do Brasil e na Europa.
As fotos deste texto integram a série "Ô lugarzinho pra ter viado", exposta por Maurício Igor em Belém, outras cidades do Brasil e na Europa. Maurício Igor/ @mauricioigor
 

Nos últimos anos, um “mapeamento” feito por mim, Maurício Igor, observei os discursos homofóbicos manifestados em paredes e portas de banheiros da Universidade Federal do Pará, encontrados no Instituto de Ciências da Educação, Instituto de Letras e Comunicação, na Faculdade de Artes Visuais e no banheiro do ginásio da Universidade. São signos que comunicam percepções e preconceitos que estão presentes em diversos locais, inclusive nas paredes de ambientes como banheiros.

São nestes cenários, no entanto, que ocorrem diversas práticas sexuais que são criticadas – por ódio ou mesmo por algum tipo de recalque psicológico que faz pessoas que possuem dificuldades em admitir sua pulsão sexual por alguém do mesmo gênero criticar tais ações. Mais que isso: muitas vezes são publicizadas, sem o menor receio ou pudor, na web. Falamos aqui também dos banheirões, bastante comuns em Belém.

Você não sabe o que é? Considerados “tabus”, ainda mais em uma cidade que vive entre o calor que dilata e aproxima (tant)os corpos e a herança conservadora que ainda se constitui em um traço (hipócrita?) de nossa sociedade, o termo aponta para a prática de “pegação” e muitas vezes relações sexuais no interior dos banheiros.

Cercado de riscos – já que muitas vezes as pessoas são desconhecidas – e também excitantes, os banheirões ocorrem de forma rápida e selvagem, em que o prazer carnal torna-se a principal necessidade fisiológica a ser feita naqueles minutos. Sem conforto. Com desejo.

Em Belém, existem até mesmo hashtags e perfis específicos para isto, como @belem_guia, que apresenta relatos das práticas, dicas sobre que banheiros são mais utilizados e até mesmo vídeos pornográficos, sejam de homens considerados héteros, bi ou de homossexuais.


Outro perfil, mais erótico ainda, é o @PutariaGayBelem, que publica e compartilha os relatos, muitas vezes acompanhados de vídeos de sexo, em geral penetração e sexo oral, assim como o @putariabaremcz.


Entre mensagens nas latrinas e a prática do “banheirão”, os banheiros da capital paraense nos instigam a refletir e discutir sobre diversas questões sociais para além da prática sexual em tais cubículos, como a cultura de ódio manifestada em discursos homofóbicos e a aversão aos gays afeminados.

A utilização da internet, assim como os escritos nas paredes, representam uma cultura pulsante e próxima de todos, ainda que não saibam. É também uma expressão histórica, que demarca uma sociedade, um tempo, um espírito de época. As paredes dos banheiros falam! Às vezes berram tristes ofensas gratuitas. Às vezes gemem, silenciosamente, de prazer.

Enderson Oliveira,30 anos, é coordenador de conteúdo no DOL, professor e doutorando em Antropologia.

Mauricio Igor, 24 anos, é graduando em Licenciatura em Artes Visuais pela Universidade Federal do Pará e bolsista do Programa Santander Universidades Bolsas Ibero Americanas na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, Portugal. Já participou de várias exposições, como IX Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia (2018), com exposição no Museu Histórico do Estado do Pará e da Mostra de Fotografia e Artes Visuais BERRO!, na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (2019), entre outras. Com a série "Ô lugarzinho pra ter viado!" recebeu menções honrosas na 28ª Open Call Intervenções Artísticas SUPERNOVA, na cidade do Porto, em Portugal e no FotoSururu - 1º Encontro de Fotografia Criativa, em Maceió.

Demax Silva/ DOL
 

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