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ESPECIAL

Braz, fim de um Spazzio

segunda-feira, 21/10/2019, 09:41 - Atualizado em 21/10/2019, 12:16 - Autor: Relivaldo Pinho (especial para o DOL)


| Enderson Oliveira

Os mais jovens não lembram, mas há uma música chamada "Almirante Braz", da banda paraense Tribo, que, em sua letra, diz: "Clube de Babacas que alimentam os seus sonhos consumindo toda a plantação de batatas e ananás, da Almirante Braz". Procurem. Representa Belém. Não mudou nada.

Um amigo me manda as fotos de um tradicional restaurante de Belém que fecha as portas, o Spazzio Verdi. No espaço, em um quadro de giz, está o aviso, "encerramos nossas atividades, mas os laços de carinho serão eternos". 

Os laços de amizade...Belém parece sempre perder seus laços. A Braz de Aguiar, no final da década de 1980 e início da 1990 era o point (sic) da cidade. A Braz era a nossa galeria, shoppings não existiam. 

Enderson Oliveira
 

Frequentar de manhã a Braz era sinônimo, para determinada elite,de sofisticação; à noite, era lugar da boêmia classe média da cidade. O Spazzio Verdi, fazia parte dessa experiência citadina. Ia-se para almoçar, mas, também, ia-se para tomar um chopp, protegidos pelas mangueiras e a contemplar o movimento dessa galeria, que se abria, elitizada, no centro da cidade. 

Nas imediações da Braz, à noite, bares e restaurantes, como Degrau, Local, Manga Café, Cosanostra, Go Fish, faziam o fervilhar atrativo de uma noite da cidade que se queria moderna, contemporânea. Sim, de tudo acontecia na Braz de Aguiar; mesas na calçada, música ao vivo, locais aprazíveis e, principalmente, a ideia de que se estava em Belém e, ao mesmo tempo, fora dela.

A cidade já não era mais segura. A rua dava aos seus “habitués”, de um só gole, o simulacro de pertencimento, mas, fundamentalmente, do cosmopolitismo. A Braz era um "fade-in"e um"fade-out". Abria e fechava as cortinas de uma cidade que se modificava radicalmente.

As pessoas não paravam. Vagavam de lugar em lugar  até, indecisivamente, estacionar (por contradição, essa é a palavra) em algum espaço, invariavelmente, aquele que ficava até mais tarde. Tentava-se muitas vezes "escapar" da Braz, mas, tal qual um psicótico, terminava- se, instintivamente, a noite, no mesmo lugar.

Outrora grande restaurante e mesmo "point", agora o Spazzio vende seus objetos em um bazar.
Outrora grande restaurante e mesmo "point", agora o Spazzio vende seus objetos em um bazar. Enderson Oliveira
 

Caro leitor, este texto não é um lamento, ele é um sintoma de épocas. Ele é a manifestação de um espírito de épocas. A Braz de Aguiar, hoje, e suas imediações, abriga outros lugares, outros espaços, outras formas de fruir a cidade. Ainda parece elitista, ainda nela existem outros lugares tais quais, no final da década de 1980 e início da 1990. Mas não há como ignorar que a Braz é um microcosmo de uma realidade de um decadismo, que a cidade assumiu nos seus últimos 30 anos.

Os shoppings centers ocuparam o lugar da rua. A rua perdeu sua função. Nela resistem poucos dos lugares originais. O espírito daquela época, parece um fantasma. Um fantasma, um sonho mau, um sonho de futuro. Daquele sonho/pesadelo apenas o Cosanostra, desfigurado, resiste.

A cidade se tornou um Spazzio, e a Braz de Aguiar é um sintoma, de um lugar, que ao mesmo tempo planta e destrói. Belém sem laços. De batatas e ananás. Almirante Braz.

  • Relivaldo Pinho é Professor e Escritor. Autor de, entre outros livros, "Antropologia e Filosofia: Experiência e estética na literatura e no cinema da Amazônia. Edufpa. 2015" . E-mail: [email protected] 

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