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FÃS CLUBES

Potentes do Brega e as galeras que ainda fazem a festa com as aparelhagens

sexta-feira, 20/09/2019, 12:35 - Atualizado em 20/09/2019, 12:36 - Autor: Vladimir Cunha/Especial para o DOL


Quem disse que morreu? A tradição de ir com os amigos as festas de aparelhagem continua, que digam os Potentes do Brega
Quem disse que morreu? A tradição de ir com os amigos as festas de aparelhagem continua, que digam os Potentes do Brega | Reprodução/Facebook

Galera da Laje. Passageiros da Nave, Galera da Golada, Família PAAR, Equipe Tuba Gás. Se você se liga na cena do tecnobrega e das festas de aparelhagem você provavelmente já ouviu falar de uma dessas músicas. O que muita gente não sabe, no entanto, é que todas elas têm algo em comum: os fã-clubes e equipes, grupos de frequentadores de festas de aparelhagem que, durante muito tempo, foram um dos pilares da cena musical ultra-popular de Belém do Pará.

O auge das equipes se deu entre os anos de 2005 e 2010. Independente de qual fosse a aparelhagem, elas estavam lá, com suas camisetas padronizadas, banners e gritos de guerra. Em territórios bem definidos, cada uma delas ocupava um espaço específico nas festas.

No final da década passada, a Gang do Eletro fez uma homenagem a uma das galeras mais famosas.

LAJE, LAJE, A GALERA DA LAJE

Viviane Batidão cantou a Galera da Golada.

Confira!

MORAL COM O DJ 

Quanto maior e mais participante, mais a equipe ganhava moral com o DJ da festa. O auge era ouvir o seu nome no PA da aparelhagem na hora dos abraços. Ou melhor ainda: ouvir o DJ tocar uma música feita em sua homenagem.

Um dos nomes mais conhecidos dessa época é DJ David Sampler. Junto com o MC Marcos Maderito ele foi responsável por uma série de músicas para os fã-clubes e as equipes da Região Metropolitana de Belém. No auge do movimento chegou a fazer uma música por dia com preços que variavam de 250 a 400 reais.

O MC Maderito se tornou um ícone para quem frequentava as festas com as galeras de aparelhagens
O MC Maderito se tornou um ícone para quem frequentava as festas com as galeras de aparelhagens (Reprodução/Youtube)
 

Hoje o movimento dos fã-clubes e equipes não têm a mesma força de outrora. Um pouco distantes das aparelhagens – por conta de mudanças no perfil musical das festas, de sucessivas crises econômicas e até da violência urbana - eles se retraíram. O que não significa que acabaram. Um bom exemplo disso são Os Potentes do Brega. Tendo David como uma espécie de padrinho, ele é presença marcante em todas as festas do grupo, os Potentes não só mantém viva a chama do tecnobrega, mas também a da cultura da dança das festas de aparelhagem, que andava em declínio depois que outros gêneros musicais passaram a tomar conta dos salões da periferia de Belém.

A ideia por trás dos Potentes do Brega é simples: se não há uma festa tocando o que a gente gosta, vamos fazer a nossa própria festa. O princípio punk do “faça você mesmo” aplicado às batidas sinuosas do tecnobrega (ou melody, com o gênero é conhecido em uma de suas inúmeras variações). Mas não se engane: o negócio aqui é a dança.

POR MAIS ESPAÇOS

Líder e porta-voz dos Potentes do Brega, a cuidadora Kátia Santos, 39 anos, explica que o fã-clube surgiu com a proposta não de cultuar uma determinada aparelhagem, artista ou banda, mas sim de criar espaços onde a cultura da dança paraense pudesse ser estimulada e preservada.

Até porque, segundo Kátia, Os Potentes do Brega é resultado direto de um tempo que ela ouviu muito falar, mas que não viveu em sua plenitude: o período entre 2005 e 2010 que é considerado, por muitos, o auge da cultura tecnobrega paraense.

“Como comecei a frequentar as festas muito tarde”, explica ela, “não peguei esse período. Já quase não tinha mais os ensaios e nem os fã-clubes. Tava defasado. Muito defasado. E nos poucos que tinham eu não era bem recebida. Aí eu resolvi montar um fã-clube pra mim, já que não era aceita em nenhum”, disse.

Foi uma ideia que Kátia levou a sério. No início era somente um grupo de três pessoas – ela, o ex-marido e uma amiga – lutando por um movimento que - naquele momento, o final da década de 2010 – estava em franco declínio. Segundo Kátia, havia uma dificuldade em convencer as pessoas a participar de algo que já estava começado a ficar, digamos assim, fora de moda.

Mas a persistência valeu a pena. Hoje Os Potentes do Brega contam com 104 membros, que participam dos dois eventos produzidos pelo fã-clube: os ensaios, que acontecem toda quinta-feira, e o aniversário do grupo, realizado uma vez por ano em novembro. O ensaio começa sempre às 20:00, termina pontualmente à uma da manhã e é divido em dois momentos distintos: as aulas de dança, que duram das 20:00 às 21:30, e o baile propriamente dito, com discotecagem de David Sampler e um DJ convidado.

Potentes do Brega se tornou uma verdadeira marca entre os frequentadores das aparelhagens
Potentes do Brega se tornou uma verdadeira marca entre os frequentadores das aparelhagens (Reprodução/Facebook)
 

Em uma casa de recepções localizada na BR-316, pude testemunhar um dos encontros dos Potentes do Brega. De fato, a dança vem em primeiro lugar. Movimentos rápidos, sinuosos e acrobáticos que, a uma primeira vista, parecem impossíveis de reproduzir para quem não é do ramo.

Talvez por isso o fã-clube tenha incluído aulas de dança em sua programação semanal. Na discotecagem de David Sampler, tudo aquilo que foi sucesso nas aparelhagens durante a segunda metade da década de 2000. Uma espécie de baile da saudade 2.0, no qual os hits dos anos de 1970 e 1980 parecem produtos de um passado cada vez mais remoto.

Interessante ver que músicas de 10/15 anos atrás ganharam, agora, o status de clássicos. A trilha sonora que dá sentido aquilo que Kátia define como uma “conexão espiritual” através da dança.

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