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A VOLTA DO BREGA

Movimento Marcante: a nova cara da música no Pará

terça-feira, 10/09/2019, 18:46 - Atualizado em 10/09/2019, 22:05 - Autor: Vladimir Cunha/Especial para o DOL


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O PASSADO É UMA PARADA

Belém. Pará. Segunda metade da primeira década do Século XXI. Um dos melhores períodos da música ultra-popular paraense. Shows lotados, bandas em ascensão, um sucesso radiofônico atrás do outro. Fãs-clubes em quantidades cada vez maiores espalhados pela Região Metropolitana de Belém em bairros como Jurunas, Terra-Firme, Guamá, Pratinha, PAAR e Júlia Seffer, só para citar alguns. Nos camelôs, a medida do sucesso dessa nova cena: CDs e DVDs piratas apenas de artistas locais sendo vendidos na casa dos milhares. Uma profusão de estilos: brega-pop, tecnobrega, melody e eletromelody. Em casas como a Pororoca, Kuarup e Caldeirão do Alan shows e festas históricas que até hoje permanecem gravados na memória de quem viveu aquela época.

BAILE DA SAUDADE

Dez anos depois ainda se fala com nostalgia dessa que foi uma das movidas culturais mais importantes da cena musical paraense. Mesmo que outros estilos, como o funk e o sertanejo, tenham se tornado predominantes. Mesmo que, obsoletos, os DVDs e CDs tenham sido substituídos pelos canais de streaming e que parte do público tenha envelhecido, deixado de ir às festas ou simplesmente passado a consumir outro tipo de música. Ainda assim, esse período jamais deixou de ser lembrado. Principalmente na internet, onde é possível encontrar mixes e playlists de uma época que, agora, está sendo revisitada por DJs, produtores e artistas sob o nome de Movimento Marcante.

O nome de uma sede, de um movimento da época era tema de uma música e virava febre nas festas.

 

 

Cds piratas ajudaram a divulgar as músicas que eram sucesso nos bailes de Belém

Segundo o DJ e produtor musical Joe Benassi, um dos criadores do eletromelody e atualmente à frente da Banda Marcante, a procura do público continua porque, passado todo esse tempo, esse tipo de música ganhou o status de clássico, além de terem se cristalizado na memória afetiva de um público que, hoje adulto ou de meia-idade, viveu a sua adolescência e juventude durante esse período.

"O nome 'marcante'", explica Joe, "vem do hábito dos DJs de chamarem assim as músicas que fizeram sucesso no passado: 'Agora só as marcantes'. Por isso a regra para se avaliar o que é e o que não é uma 'marcante' depende da idade de cada um. Para algumas pessoas são músicas de dez anos atrás. Para outras são músicas de 20 anos atrás. É um pouco relativo. Mas o que percebemos é que algumas aparelhagens e DJs começaram a rever repertórios e lembrá-los durante suas apresentações. O público acabou reagindo positivamente e viajando na nostalgia. Por conta disso surgiu a iniciativa de transformar o termo 'marcante' em estilo e criar o movimento".

MARCANDO GERAÇÕES

Entre os nomes que fazem parte do movimento - Banda AR-15, Os Brothers, Billy Brasil, Joe Benassi e DJ Neném, só para citar alguns - está o de DJ Maluquinho, um velho conhecido de quem aprecia as "marcantes". Tanto por conta de seu trabalho com a banda Tecnoshow, cujo repertório já é considerado um clássico regional, quanto por sua carreira solo, na qual emplacou sucessos como Rubi, Val Pescador e Eloá. Ao falar sobre o movimento, ele cita com entusiasmo. Tanto por conta da nostalgia do público quanto pela qualidade das músicas compostas no período.

"As pessoas hoje reconhecem a força dessa nossa geração. Foi uma geração muito preparada. Eu vinha da Tecnoshow, o Harrison com a Banda AR-15 chegou apresentando um trabalho muito bom, o Joe Benassi apareceu se firmando como um baita produtor. Em parte é uma nostalgia, mas é também um reconhecimento de uma época em que eram apresentados ao público músicas de qualidade, com letras e músicas que realmente marcaram uma geração", explica ele.

Em 2002, Tony Brasil cantou a história da Mundiquinha que virou Ray, com “y” no final

 

No entanto, o entusiasmo com a demanda por nostalgia vem acompanhado de uma preocupação comum a todos os participantes do movimento: usar o passado como referência para novas composições e não se escorar apenas em sucessos já existentes.

"A música nova é o nosso combustível", resume DJ Maluquinho, "Precisamos dela para seguir adiante. Todos os integrantes do movimento estão em busca disso: criar novos sucessos, músicas que abram portas e caiam novamente no gosto da galera". "Como é que a gente faz um movimento virar um sucesso?", complementa Joe, "Persistindo. Produzindo novas músicas. É um movimento a longo prazo, que a gente espera que até o final do ano ou começo do ano que vem esteja consolidado".

Uma rápida consulta no Youtube revela o quanto as "marcantes" ainda habitam o imaginário do público paraense. São dezenas de playlists, mixes e vídeos - feitas tanto por DJs profissionais quantos por usuários da plataforma - com os sucessos locais do começo do século XXI. Se antes era preciso ir à pirataria, hoje essas músicas estão disponíveis em um clique no botão de play. E o que é mais interessante: sempre acompanhadas de comentários nostálgicos e apaixonados, que se repetem em reafirmar que aquela foi a melhor época da música paraense.

AS MAIS PEDIDAS

Cerveja foi tema de uma das marcantes do início dos anos 2000

 

Assim como Chico Doido, figura de Bragança que fez muita gente dançar

 

Bole e rebole misturou ritmos em um dos bregas mais populares da década passada

 

E o que falar do “trava língua” o bico do peito do Chico Preto?

 

Claro que, para cada um, a sua época sempre vai ser a melhor. Afinal, juventude é um ativo que gastamos muito depressa e ao qual nos apegamos com muita intensidade. Ainda assim, não dá para ignorar o impacto que esses artistas tiveram e nem a forma como são lembrados até hoje. O alicerce no qual o Movimento Marcante espera construir as suas fundações daqui para frente.

(Vladimir Cunha/Especial para o DOL)

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