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OPINIÃO

Onda é a palavra favorita da dama do mar

domingo, 30/06/2019, 09:57 - Atualizado em 30/06/2019, 10:40 - Autor: Danielle Fonseca/Especial para o Você


Era pra ser um texto crítico, era pra ser canção de amor, ou quem sabe um artigo, mas, o mar é imprevisível e ainda me surpreende assim como o novo álbum “Margem”, da cantora e compositora Adriana Calcanhotto. Apesar de toda minha experiência pelos mares, e lá se vão quase trinta anos, a ansiedade pelas “janelas de espera” me abarcam e tornam tudo com mais sentido. As Janelas de espera nada mais são do que o período previsto para que aquelas ondas-perfeitas-ideais-em-sequência surjam no horizonte, seja em Teahupoo, no Arpoador ou no Hawaizinho, aquela praia de pedras por detrás do Hotel Farol.

“Margem” foi uma dessas janelas de espera, e criou uma expectativa aos navegantes da música, até pelo anúncio do fim de uma trilogia - o primeiro foi “Marítimo” (1998); o segundo, “Maré” (2008) - como algo que se encerra, como se fosse possível uma última onda. Ao contrário da Pororoca do Rio Araguari que foi tragicamente encerrada, uns dizem que pelas três hidroelétricas que foram construídas na região, outros dizem que pelo avanço da pecuária e o pisoteio dos búfalos. Ao contrário dessa onda que foi cortada, as canções de “Margem” reverberam em resposta ao que parecia impossível, voltar a um tema tão próximo a todos nós: o mar. Sem que o enjoo da maresia nos pegue. 

Logo, se há o esporte da espera, há certamente a música que se espera, há a letra e melodia que se espera. Pra isso há pesquisa, trabalho, sensibilidade, estética e também há os parceiros certos para ler com clareza as cartas náuticas. Adriana vem acompanhada, em seu mar ou barco, de Péricles Cavalcanti, o cantor e compositor que tem um histórico de composições que vão da filosofia à poesia medieval, de Posseidon à James Joyce. Em “Príncipe das Marés”, canção encantadora, ritmo místico, súrfica, a minha terra é o mar, o meu cavalo é o mar, o meu céu é o mar, o meu castelo é o mar, o meu amor é o mar, vagueiam os refrões. Adriana dropa essa última onda com maestria, cool under fire (estilo do surfista havaiano Gerry Lopez) uma onda que vem com traços de fado, uma onda com um funk sensacional minimalista a la Manuel Bandeira, e uma onda-canção de novela que já havia sido gravada por Maria Bethânia em 2016, chamada “Era Pra Ser”.

Atenta a todas as questões, Adriana fala também dos plásticos invadindo nossos mares, e questiona: “O plástico do mundo no peixe da ceia, O que será que cantam as tuas sereias?” Como ouviremos Loreley, a sereia do rio Reno, em meio a tantos plásticos? Como ouvir o canto das Iaras? “Finda a viagem”, anuncia Adriana, mas imaginei também Ulisses dizendo esse trecho em seu retorno para Ítaca, imaginei o personagem do conto “A Terceira Margem do Rio”, de João Guimarães Rosa, gritando lá do meio de sua canoa de pau vinhático cuja margem está em meio. Mas, a certeza que tive nessa canção, que dá nome ao álbum, é a forte presença do poeta concretista Augusto de Campos, através do livro “O Rei Menos o Reino” (1951). Augusto de Campos, aliás, é presença magistral no repertório de Adriana. Alguns de seus poemas aparecem no álbum “A Fábrica do Poema” (1994), no repertório do projeto “Adriana Partimpim” e agora nessa canção-eterno-retorno, mas sem seu verso e sim como referência - “Margem, Sonhei com a viagem, Eu, menos meu nome, Menos meu reino, Menos meu senso, Menos meu ego, Menos meus credos, Menos meu ermo”.

O trecho que cito aqui no final é de Gaston Bachelard, e não está no álbum, mas, a canção de Adriana certamente está nele, feito canto de sereia: “O apelo da água exige de certa forma uma doação total, uma doação íntima. A água quer um habitante”. O filósofo francês Gilles Deleuze, aposto, iria gostar desse álbum e diria sê-lo um belo encontro de escorrego. “Margem, valeu, finda a viagem!” Linda a viagem, valeu!

*Danielle Fonseca é artista visual

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