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ANÁLISE

Acesso na Série C e atitude racista no futebol são os destaques da coluna de Gerson Nogueira

O colunista do Jornal Diário do Pará traz análise precisa do cenário do futebol no país

terça-feira, 22/12/2020, 10:30 - Atualizado em 22/12/2020, 10:30 - Autor: Gerson Nogueira


Acesso cada vez mais possível

Os resultados da segunda rodada do Grupo D da Série C reforçam a expectativa de conquista do acesso pelos times paraenses. O Remo chegou a 4 pontos, terá três jogos em Belém – Ypiranga, PSC e Londrina – e pode assegurar a vaga com duas vitórias e um empate. Ainda jogará fora, contra o Ypiranga, que ficou em situação desalentadora após a derrota frente ao Londrina, no domingo.

O PSC também mantém boas chances, pois terá dois jogos a realizar em Belém, contra Londrina e Remo, e dois fora (Ypiranga e Londrina). Com 3 pontos, o Papão pode atingir os 9 pontos em casa e ficar na dependência de dois empates nos jogos como visitante.

A situação mostra-se inteiramente favorável aos representantes do Pará, que dependem exclusivamente de suas próprias forças para subir. A próxima rodada – PSC x Londrina, Remo x Ypiranga – praticamente definirá a situação no grupo, caso os paraenses consigam se impor.

Na hipótese de duas vitórias neste fim de semana, o Remo irá a 7 pontos e o PSC chega a 6. Londrina permanece com 4 e o Ypiranga fica com 0, praticamente eliminado. Vem daí a necessidade de total concentração e cuidados nessas duas partidas.

O Londrina, que visita o Papão no sábado, 26, ganhou motivação depois da batalha de Erechim, que lhe rendeu a primeira vitória fora de casa na atual Série C. O time não tem baixas para o confronto em Belém.

A imprensa londrinense, a exemplo da nossa, faz contas e avalia que um empate aqui será suficiente para pavimentar o caminho do acesso. Afinal, o alviceleste paranaense terá em seguida dois jogos em casa – Ypiranga e PSC – deixando para a última rodada o embate com o Remo em Belém.

De todas as rotas, a azulina parece ser a mais favorável neste momento, depois do triunfo sobre o maior rival. Aumenta a importância de Paulo Bonamigo (foto) no comando da equipe. Com ele, o Remo cresceu de rendimento e ampliou a utilização de atletas do elenco.

Na gestão anterior, de Mazola Jr., havia um eixo que se limitava a no máximo 17 atletas utilizados regularmente. Alguns, como Hélio e Wallace, eram escalados apenas nos minutos finais dos jogos, quando o desespero obrigava mudanças.

Com Bonamigo, ambos passaram ao nível de titulares (Wallace está temporariamente fora, por contusão), peças fundamentais da equipe. Mais importante: o meio-campo ganhou vida inteligente, com a presença de um ou dois meias, o que melhorou o passe e as articulações ofensivas.

A partir da chegada de Bonamigo, o Remo ficou com um ataque mais sólido, sempre com três homens, e no clássico de domingo a meia-cancha teve dois volantes no primeiro tempo e apenas um (Lucas Siqueira) na etapa final, após a entrada de Carlos Alberto no lugar de Júlio Rusch.

Até Felipe Gedoz, que não tinha achado posição para jogar, parece ter se sentido à vontade como segundo volante/armador, realizando sua melhor apresentação desde que entrou no time há seis rodadas.

Quando o técnico consegue extrair o melhor de seu grupo de atletas, os méritos indiscutivelmente são seus. Bonamigo está nessa situação.

Atitude racista estraga um dos melhores jogos do ano

O jogo foi eletrizante, com sete gols e reviravoltas no placar. O Flamengo venceu o Bahia por 4 a 3, pela 26ª rodada do Campeonato Brasileiro, e manteve as chances de alcançar a liderança. Apesar da importância do resultado, uma injúria racial proferida pelo colombiano Juan Ramirez contra o volante Gerson (foto) dominou a discussão pós-jogo.

“Cala a boca, negro”. Esta teria sido a frase de Ramirez em meio a uma rápida discussão com Gerson à altura do meio-campo, aos 7 minutos do segundo tempo, quando o Flamengo vencia por 2 a 1.

O clube carioca exige providências e a CBF vai remeter o caso à apreciação do Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD), que deve julgar o colombiano e o técnico Mano Menezes, que passou pano para a atitude de seu jogador e chegou a dizer gracinhas para o ofendido.

A TV mostrou as imagens da cena, onde é possível ver Gerson revoltado e reagindo aos insultos do atleta colombiano. Em meio à confusão, com o jogo paralisado, Gerson revelou aos demais jogadores o motivo de sua irritação, dizendo que foi chamado de “negro”.

As câmeras captaram também o técnico Mano Menezes questionando o jogador: “Ah, agora você é vítima, não é? O Daniel Alves te atropelou e você não falou nada”. Gerson afirmou depois que Mano tem que saber respeitar, e tem mesmo.

A Polícia Civil do Rio instaurou inquérito para averiguar a denúncia de injúria racial. A postura de Gerson foi corretíssima. Todo cidadão que se sinta discriminado e desrespeitado deve denunciar de imediato. É a única forma de enfrentar a tradição de preconceito que o Brasil que ostenta há séculos, com a complacência de autoridades e da própria sociedade.

O mais triste de tudo é que o episódio ainda rendeu vexames dignos do troféu “Sem Noção”. Alexandre Freitas, desconhecido deputado do inacreditável Partido Novo, comparou a ofensa racial sofrida por Gerson com a expressão “playboy”, que diz já ter ouvido.

A outra manifestação, desnecessária e ridícula, coube a Vampeta, negro como Gerson, que há tempos divide com Felipe Melo e o ex-goleiro Marcos o protagonismo botocudo no futebol. Com a mania incontrolável de chamar atenção e fazer piada em cima de tudo, Vamp ironizou o jogador do Flamengo, segundo ele “cheio de mimimi”.

Nem as monumentais manifestações em protesto pela morte de George Floyd, asfixiado por um policial branco nos Estados Unidos, conseguiram cimentar um sentimento de rejeição ao preconceito racial. O Brasil, pela voz de duas figuras tão díspares, mostra que continua distante de ações identitárias que iluminem corações e mentes.

Mestre Paulo Freire, um dos maiores educadores do planeta e vítima de discriminação póstuma nestes tempos de obscurantismo no país, cunhou uma frase que elucida as formas de embrutecimento mental em relação ao racismo e às humilhações da vida: “Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor”.

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