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Colunistas / Gerson Nogueira

Gerson Nogueira

Dinheiro, batalhas trabalhistas e Ibra no Brasil, leia tudo na coluna de Gerson Nogueira

sexta-feira, 24/04/2020, 10:34 - Atualizado em 24/04/2020, 10:34 - Autor: Gerson Nogueira


Economia de guerra no futebol

É sufocante a crise que se abate sobre o futebol profissional. Um balanço da situação dos clubes da Série A mostra que somente quatro dos grandes de Rio e São Paulo se comprometeram em pagar integralmente o salário dos jogadores referente a março. Flamengo, Botafogo, Palmeiras e Corinthians fizeram reuniões com os elencos e garantiram o pagamento, mas sinalizam que irão analisar o quadro em abril.

Os demais clubes optaram por negociações. O Grêmio reduziu em 25% os salários do elenco. O São Paulo cortou pela metade. Fluminense e Santos ficaram na faixa de 30%, sendo que o Peixe tentou fazer um corte de 50%, mas aceitou a ponderação dos jogadores, deixando a possível redução para o mês de maio.

Para os grandes, o tombo tem sido mais traumático porque a Globo fechou a torneira e não pagou parcelas dos campeonatos estaduais e do Brasileiro, alegando falta de arrecadação e repasses de patrocinadores. Para piorar, os programas de sócio-torcedor também foram derrubados pela crise econômica que acompanham a quarentena pela covid-19.

Outro grande que enfrenta muitos problemas, bem antes até da pandemia, é o Vasco. Na mais difícil crise de sua história, o clube acumula dois meses de salários antes da quarentena. Os jogadores entraram de férias sem ter aprovado o corte salarial de 25% que a diretoria pretende aplicar.

Em Minas, o elenco do Atlético enfrenta atrasos nas gratificações prometidas e a diretoria pensa em redução de 25%, com a concordância do técnico Jorge Sampaoli. Apenas dois dos 20 clubes da Série A, Coritiba e Bragantino, recém-saídos da Segunda Divisão, se comprometeram oficialmente em não baixar salários durante o isolamento social.

Sem jogos e com a perda de poder aquisitivo gerada pela pandemia, os sócios torcedores deixam de contribuir mensalmente, diminuindo ainda mais a receita mensal dos clubes.

Mesmo fora das principais divisões nacionais, a dupla Re-Pa também é impactada pelo tsunami desencadeado pela covid-19. O PSC decidiu não conceder férias coletivas, levando em consideração que alguns jogadores têm contrato de seis meses. Não há intenção de dispensas no elenco e ações de marketing estão em pauta, embora sem divulgação ainda.

O Remo antecipou férias dos jogadores, fez cortes pontuais, cortou contratos de prestação de serviços e, desse modo, enxugou a folha mensal, conseguindo deixar quase pela metade o chamado ‘custo Remo’, de R$ 650 mil para R$ 350 mil. Dois jogadores (Jackson e Nininho) rescindiram contrato e mais cinco devem sair amigavelmente.

Além disso, a diretoria não para de projetar cenários e buscar captação de receita. Uma das ideias foi o lançamento dos novos planos destinados à torcida. Há, ainda, a produção de máscaras com o escudo do clube e o projeto de uma camisa especial. Tudo, obviamente, para enfrentar a tempestade que ainda não tem prazo para acabar.

Sonhos de grandeza do Palmeiras incluem o velho Ibra

Ibrahimovic, o falastrão atacante sueco que vive como se fosse integrante da Legião Estrangeira, é o novo sonho de consumo do Palmeiras. No Milan, para onde retornou no final da temporada passada, o artilheiro não mostrou a garra e o oportunismo de sempre. O peso da idade é implacável.

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Ainda assim, levando em conta o exemplo do Flamengo, que repatriou os veteranos Rafinha e Filipe Luiz, além de ressuscitar Gabigol, o Palmeiras ensaia abrir uma negociação com Ibra, cujos salários estão muito acima do nível dos maiores astros em atividade no país.

Como o alviverde paulista parece ter dinheiro a dar com o pau, a partir da sólida parceria com uma empresa de empréstimos, qualquer loucura parece ao alcance da mão. A conferir.

Batalha trabalhista pode travar a volta dos campeonatos

O entendimento de advogados e juristas especializados em direito do trabalho conflita com a pretensão manifestada pelos dirigentes de clubes, impacientes com a longa paralisação do futebol profissional no país. A questão é que, para fins de direito, o atleta que não se sentir confiante para voltar ao trabalho pode se recusar a treinar e a entrar em campo.

A CBF e as federações, pressionadas pelas emissoras de TV, clubes e patrocinadores, travam um quase improdutivo debate sobre as possibilidades de retomada do futebol. Acontece que qualquer atleta pode se valer do “direito de resistência ao trabalho” para evitar se expor ou correr risco de morte enquanto não houver segurança quanto a problemas ambientais e naturais, como é o caso da pandemia de covid-19.

Para os clubes paulistas a situação é ainda mais angustiante. São Paulo é o Estado com o maior número de pessoas contaminadas e lidera o quadro de óbitos. As UTIs dos hospitais já estão com a capacidade máxima de uso.

Diante disso, os jogadores dificilmente concordarão em assinar o termo de consentimento para que as competições sejam reiniciadas. Como todos os trabalhadores, o contrato é regido pela CLT, que lhe assegura o direito de se recusar a jogar se não estiver convencido da segurança da atividade.

O direito do profissional de esportes está exposto na Constituição. Além disso, questões impostas pelo isolamento social também resguardam os trabalhadores, que podem optar por não sair de casa para não correr riscos de contágio. O aspecto psicológico também deve ser considerado, pois há um abalo natural pela situação imposta por perdas de amigos e parentes.

Por outro lado, a CLT também impõe deveres aos atletas. Caso falte ao trabalho (recusando-se a jogar), pode ser advertido, em seguida suspenso e até mesmo demitido sem justa causa. Tal desfecho pode abrir caminho para uma batalha judicial.

Como de hábito no Brasil, nenhum jogador ou sindicato profissional se manifestou a respeito, mas os clubes se mobilizam para que os campeonatos reiniciem a partir da 2ª quinzena de maio, planejando se cercar de cuidados (testes de covid-19 para todos os envolvidos) para garantir a presença de seus jogadores em campo.

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