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Novas lutas, novas auroras

Para chegar ao Ensino Superior, melhorias na educação das comunidades devem começar desde o ensino básico para as crianças | Foto: Cezar Magalhães

Assim como os passados mudam de acordo com o itinerário do viajante, como cita Ítalo Calvino em um dos diálogos de As cidades invisíveis, os problemas, metas e anseios vão sendo escritos e reescritos de acordo com a trajetória, acadêmica ou não, de cada pessoa.

É deste modo que podemos compreender, além do acesso ao Ensino Superior para vários remanescentes de quilombos, a superação de desafios e metas que possuem ao longo de suas caminhadas. Falar destas trajetórias é também falar de uma luta constante e silenciosa contra o preconceito, estigmas e desconhecimento da maioria da população acerca da existência e mesmo dos hábitos dos quilombolas na contemporaneidade.

Imaginar que a cerca de uma hora da capital paraense há comunidades com hábitos e costumes que ainda carregam marcas do que se considera passado pode causar estranheza a algumas pessoas. Indo além, as dificuldades nas localidades se multiplicam e se espraiam por outros setores básicos, como da saúde, transporte, segurança e saneamento.

Neste panorama, as conquistas pessoais tornam-se maiores, alcançando famílias e a comunidade como um todo. “Pra mim, é um sonho fazer uma faculdade. Antes, a falta de incentivo dos nossos pais atrapalhava. Fomos criados para sermos analfabetos, por isso, eu achava que aprendendo a escrever meu nome já estava bom. Hoje, penso diferente”, relata Hilza dos Santos, cabelereira, que reside na comunidade de Macapazinho, Santa Izabel do Pará.

Para ela, que tentou o Processo Seletivo Especial (PSE), mas não foi aprovada, só o fato de participar da avaliação já colabora para a mudança de perspectivas de moradores da área. “Quando eu fui fazer a prova não parecia nem que era verdade. É outra realidade que a gente vive naquele momento. Eu achava que não era nem capaz de fazer o que eles iam fazer lá. Desperta novas vontades dentro da gente, da gente querer fazer”, destaca.

Apesar de não ter sido aprovada, o sentimento de Hilza está longe de ser de frustração ou desânimo. O motivo? A aprovação de sua filha, Amanda Santos, 22 anos, no curso de Educação Física da UFPA. “Estou muito feliz, falo de coração, estou muito feliz. Esse foi o primeiro ano da minha filha e, graças a Deus, ela passou. É como se eu fosse estudar também”, disse sem esconder o sorriso de alegria e satisfação com a aprovação de Amanda.

Amanda terá oportunidades que sua mãe, Hilza, não teve. O incentivo familiar é fundamental para o crescimento educacional entre os quilombolas | Foto: Cezar Magalhães

Tal orgulho e crença em dias melhores a partir do acesso a uma instituição de Ensino Superior também é comum em outras pessoas, em especial de municípios mais distantes da capital ou de cidades-pólo. “Eu moro do ‘outro lado’ e por muitos anos eu passava aqui na frente e dizia que este não era um mundo pra mim; que eu nunca viria pra cá. Hoje eu estou aqui e sou igual a qualquer outro”, refere-se Eliana Monteiro à época em que ela passeava de barco no rio Guamá, que banha toda a extensão do campus da UFPA em Belém. Ela tem orgulho da vaga conquistada na universidade.

Tais trajetos, no entanto, não se encerram no alcance da vaga em uma instituição. Vão além e, curiosamente, por vezes se busca como ponto de chegada o mesmo ponto de partida. Assim, voltar para casa é, muitas vezes, o principal objetivo dos remanescentes de quilombolas. Mas a volta prevista é de uma outra pessoa, que permanece quilombola, é claro, mas também se tornou um profissional em determinada área.

O esforço do passado, o desejo do presente e a expectativa do futuro se misturam nas histórias pessoais e nos objetivos, não somente de vida, mas da comunidade como um todo. Este é o desejo e objetivo de Miríade Mendes, que deixou o município de Breu Branco aos 15 anos e foi morar na cidade de Tucuruí, para trabalhar e estudar.

A jovem pretende trabalhar com projetos de pesquisa que possam colaborar com a comunidade de Jutaí, onde ela nasceu, em especial na área da saúde, umas das principais carências do local.

Algo semelhante planeja Amanda Santos, a filha de Hilza. A estudante de Educação Física também afirma a vontade de contribuir com a comunidade de algum modo. O sonho, como se vê, não se encerra na aprovação do vestibular, mas prossegue até a melhoria da comunidade.

Cada uma a seu modo, então, planeja, sonha, não somente crescer profissionalmente, como também contribuir para a melhoria e desenvolvimento da comunidade. As melhoras virão desde a base, seja com maior disponibilidade de serviços básicos, seja com o investimento, em especial do poder público, seja na esfera municipal, estadual e federal. Um bom início seria planejar o futuro observando as necessidades do presente.

“Primeiramente é preciso ouvi-las e deixar que digam o que entendem como melhoria econômica e o que querem. Nem sempre as exigências do mercado, do capital, correspondem às suas expectativas de melhoria e ao modo como compreendem o processo e o produto do trabalho, bem como, as transações comerciais, contrariam a lógica da acumulação capitalista. Essa escuta exige a compreensão de que esses grupos sociais, comunidades quilombolas, remanescentes de quilombo ou comunidades rurais negras, são marcados pela ocupação territorial como “quilombos contemporâneos”. Para pensar nesta perspectiva da ressematização do termo “quilombo”, qualquer ação de melhoria econômica dirigida a essas comunidades deve considerar que o território no qual vivem tem um significado cultural e histórico que ultrapassa sua ocupação geográfico-espacial”, explica Maria do Socorro Amoras, doutora em Antropologia e Professora do Curso de Serviço Social da UFPA, que desenvolve pesquisas no campo de estudos sobre/com infâncias, juventudes, cultura e poder, com ênfase nas discussões de gênero, famílias e gerações.

Deste modo, é necessário também respeitar e fortalecer iniciativas que protejam e reforcem a prática e saberes específicos das comunidades. O MEC, através de seu Plano Nacional de Educação, já apresenta propostas neste sentido, como Estimular a oferta do ensino fundamental, em especial dos anos iniciais, para as populações do campo, indígenas e quilombolas, nas próprias comunidades e Consolidar a educação escolar no campo de populações tradicionais, de populações itinerantes e de comunidades indígenas e quilombolas, respeitando a articulação entre os ambientes escolares e comunitários e garantindo: o desenvolvimento sustentável e preservação da identidade cultural; a participação da comunidade na definição do modelo de organização pedagógica e de gestão das instituições, consideradas as práticas socioculturais e as formas particulares de organização do tempo.

As novas auroras das comunidades remanescentes de quilombolas iniciam nas escolas. A educação pode ajudar a nortear melhorias nos quilombos | Foto: Cezar Magalhães

Por fim, este conjunto de ações, que vão bem além de somente a responsabilidade do poder público, podem contribuir para diminuir a estatística de que a maioria dos jovens nem sequer consegue chegar ao ensino médio e muito menos ao Superior. Assim, não somente algumas pessoas podem se desenvolver, paisagens podem ser modificadas, como as novas lutas dos remanescentes de quilombos podem gerar novas possibilidades e novas auroras para esta população.