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PROCESSO SELETIVO ESPECIAL

Falar de educação é também fazer referência ao diálogo entre políticas públicas, projetos e sonhos pessoais. No caso do Processo Seletivo Especial (PSE), este cruzamento é ainda mais forte e talvez tenha que ser revisto. A opinião é de Arquimimo Almeida, diretor do Centro de Processos Seletivos (Ceps) da UFPA. É ele que explica que o PSE faz parte de um conjunto de medidas do Governo Federal de implantação e desenvolvimento nas “ações afirmativas”, com a criação das avaliações específicas para as comunidades quilombolas (2013), indígenas (2011) e trabalhadores do campo (2010) na instituição.

Tais iniciativas ainda estão sendo estruturadas e muitas localidades não sabem de sua existência. “De repente podemos ter comunidades que não estejam participando do processo por desconhecimento”, destaca Almeida, citando ainda que, apesar da informação não alcançar todas as comunidades, não somente quilombolas do estado, a procura tem sido grande.

É necessário, então, problematizar esta avaliação e atentar para outros problemas que interferem em sua constituição. Para a acadêmica do curso de Comunicação da UFPA Márcia Pinheiro, natural da comunidade de Itacuruçá Alto, em Abaetetuba, por exemplo, não haveria chance de quilombolas concorrerem igualmente com outros estudantes. “Seria uma disputa desigual. Nas escolas das comunidades quilombolas que eu conheço é oferecido até o ensino fundamental. Mais que isso, não”, explica.

A afirmação de Márcia destaca que a chegada ao ensino superior, ainda que pelo PSE, não é simples. Diversos problemas, como a existência de poucas escolas de ensino fundamental e ensino médio nas comunidades quilombolas, a distância do centro das cidades, a limitação financeira dos estudantes e a alta concorrência nos vestibulares, por exemplo, colaboram para não fazer da seleção um sinônimo de aprovação.

Exemplo disso é Eliana Monteiro, da comunidade de Itacuã Miri, no Acará, que já havia tentando o processo seletivo duas vezes até conseguir ser aprovada, em 2014, em Publicidade e Propaganda na UFPA. “Tentei três vezes, todas pelo Processo Seletivo Especial, nas duas primeiras não passei. A educação no interior é muito difícil e também já fazia alguns anos que eu tinha parado de estudar para trabalhar e cuidar da família”, relata.

Atento às dificuldades vivenciadas pelas Comunidades Remanescentes de Quilombos, Arquimimo teme que a avaliação talvez possa ainda ocultar os problemas do Ensino Médio ou agravar problemas educacionais de alguns remanescentes, já que, com as aprovações, o poder público possa considerar que o trabalho que está sendo feito seja satisfatório.

Além disso, segundo o diretor do Ceps, como não se sabe como está o ensino médio nos municípios do interior – o que aponta para a falta de investimentos na educação das regiões mais afastadas, bem como a ausência de uma atenção maior às comunidades – há o risco de alguns alunos serem aprovados e se depararem com grandes dificuldades e empecilhos, que ultrapassam a própria sala de aula, ocasionando a desistência da vaga.

Para ele, entretanto, este não é o principal ponto negativo do processo. Ele expõe sua preocupação com o fato de que a procura pelas vagas pode ser resultado apenas de uma vontade momentânea e não de um planejamento a médio ou longo prazo.

Para Arquimimo, mudanças no PSE da UFPA podem ajudar a melhorar e fortalecer a educação dos quilombolas desde o Ensino Médio
Foto: Cezar Magalhães

“Como a inscrição é gratuita, alguns candidatos se inscrevem muitas vezes sem ter, realmente, o objetivo de cursar a graduação. O que temos tido é um nível de ausência muito grande. É evidente que quando nós vemos o número de inscritos, nós temos que nos preparar para aquele número, então, a reprodução de material é suficiente para que nós venhamos atender todos os inscritos”, diz.

Segundo a UFPA, no dia de realização da prova do processo seletivo especial, o índice de ausência é de 40%. “Esse número é muito alto para um pleito. Você tem toda uma logística e uma mobilização que fica prejudicada com isso”, explica Almeida, citando ainda os índices de faltosos em outros processos seletivos, como no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), que ano passado registrou cerca de 2,5 milhões de faltosos, 28,6% do total de 8.721.946 inscritos.

Para a professora Rosaly Brito, doutora em Ciências Sociais/Antropologia, “as cotas e o PSE colaboraram para mudar uma perspectiva em relação à educação, no sentido de agregar essas comunidades, que são populações inclusive majoritárias do ponto de vista numérico, já que o Brasil tem a segunda maior população negra do mundo”. No entanto, Rosaly acredita que essas políticas não somente devem ser comemoradas, como também aperfeiçoadas para que a desvantagem social histórica seja minimizada.

Ainda assim, remanescentes de quilombos relatam sofrer discriminação por parte de outros alunos que acreditam que eles “tiram” vagas de estudantes que participam do processo seletivo tradicional, mas Almeida explica que o PSE não deve ser compreendido como uma espécie de cota, já que não há reserva de vagas para pessoas com estas origens, e, sim, acréscimo às vagas já existentes.

Para Maria do Socorro Amoras, doutora em Antropologia e professora da UFPA, é urgente que esses alunos sejam ouvidos pelas universidades. Ela participou de uma reunião entre eles na UFPA e soube dos problemas que enfrentam. “Pude observar a complexidade e a gravidade dessas dificuldades, como: o preconceito por parte dos alunos não cotistas, principalmente, nos cursos frequentados pelas elites; o descaso de certos professores com as suas dificuldades de aprendizagens e de entendimento das metodologias e conteúdos de ensino, alguns disseram já ter sido humilhados publicamente pelo professor perante a turma; o tempo longo que levam para entender a burocracia da universidade, a ponto de prejudicar a realização das atividades acadêmicas”.

É necessário, então, um fortalecimento ou mesmo a criação de um novo modelo de avaliação, bem como de ambientação e apoio a estes alunos. Algo neste sentido já ocorre timidamente na UFPA, com palestras e atividades na Semana do Calouro; contudo, como há a perspectiva de crescimento no número de inscritos e talvez, daqui a alguns anos, a necessidade de aumento do número de vagas, a medida seria fundamental para receber e ajudar os quilombolas que se dirigem até Belém ou outras cidades-pólo para fazerem a graduação.