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O QUADRO NEGRO DO PRECONCEITO NA EDUCAÇÃO

Caminhar receoso: a rodovia PA-140, que serve de acesso ao quilombo de Macapazinho e de Boa Vista do Itá, já foi – e ainda é, em alguns momentos – palco de diversos casos de racismo | Foto: Cezar Magalhães

- “Pretos!”

- “Urubus na estrada!”

- “África!”

Os moradores da comunidade de Macapazinho, em Santa Izabel, ouvem, há anos, gritos como estes. Casos de racismo infelizmente fazem parte da história e da identificação da localidade, ainda hoje denominada de “África” por algumas pessoas, em referência ao continente africano, onde a maioria da população é negra.

Uma das pessoas que já ouviu estas exclamações é Amanda Souza, 22 anos, estudante do curso de Educação Física na UFPA. A jovem, que foi aprovada no último processo seletivo especial da instituição, afirmou ter sido alvo de racismo pela primeira vez ainda quando era criança. “Estava na escola e, durante a discussão com uma menina, ela me chamou de preta em tom agressivo”, disse com voz tímida, mostrando incômodo ao falar do assunto.

Essas situações se mantiveram ao longo dos anos e lidar com o preconceito ainda é um grande desafio, seja pela cor da pele, pela origem quilombola ou pelo acesso à universidade através de processos especiais. Essas pessoas ainda têm que conviver com expressões referentes à cor da pele como forma de ofensa e preconceito.

Até mesmo os descendentes de quilombolas que não são negros possuem histórias de preconceito. Elenilza Santos da Costa, mais conhecida como Lenny, 18 anos, estudante de Publicidade e Propaganda e originária de comunidade Nossa Senhora do Bom Remédio, em Abaetetuba, por exemplo, possui a pele clara, olhos castanhos e cabelo tingido de loiro. É justamente isto que, segundo ela, ainda atrai olhares curiosos na universidade, além de perguntas que duvidam de sua origem. “Muitas pessoas não entendem o que é ser descendente de quilombola. Já até me perguntaram ‘como tu foste aprovada pelas cotas se és branca, loira, de olhos claros?’ Em geral, acham que descendentes de quilombolas são negros e não é exatamente assim”, destaca Lenny.

Eliana Monteiro e Elenilza Santos da Costa: colegas de sala de aula sofrem com a incompreensão e preconceito de outras pessoas sobre suas origens | Foto: Cezar Magalhães

Quem por vezes vive algo semelhante é Eliana Monteiro, 28 anos, sua colega de turma e também aprovada no Processo Seletivo Especial da UFPA. Originária da comunidade de Itancuã Miri, no Acará, região nordeste do estado, Eliana conta que as pessoas costumam olhá-la “dos pés a cabeça”. “‘Ah, ela deve ser muito podre’, ‘como ela vem para a universidade?’, ‘como ela chega aqui?’. Fico imaginando as pessoas fazendo esses questionamentos quando me veem. Percebo os olhares curiosos querendo saber como eu faço para viver, como faço para chegar até aqui de barco e não através dos transportes mais convencionais”, relata.

Eliana se incomoda com o sentimento de “pena” que algumas pessoas demonstram ter com a situação dos quilombolas, ainda que seja uma realidade desconhecida. Para Márcia Pinheiro, 22 anos, natural da comunidade de Itacuruçá Alto, do município de Abaetetuba, algumas pessoas ainda têm a visão de que “é um lugar com um monte de pretos lutando capoeira, fazendo oferendas e comendo feijoada. Não é assim. É como o bairro de uma cidade, só que sem tantos carros e motos; têm cerca de quatro motos na comunidade inteira. Tem ônibus que faz transporte para a cidade”, explica.

Ainda de acordo com Márcia, sua comunidade é uma das poucas que é possível ir tanto de barco quanto de carro.

A citação das jovens incita a reflexão sobre o desconhecimento em geral que a sociedade contemporânea possui em relação aos quilombolas. Talvez seja possível afirmar que ainda permanece uma imagem ou mesmo estereótipo reforçado no ensino básico que mostram os quilombos unicamente como refúgios de negros, principalmente africanos, que vivem unicamente através da produção agrícola e tentavam se organizar para evitar maiores repressões durante os séculos de escravidão no Brasil.