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HISTÓRIAS ESCRITAS E REESCRITAS

Na comunidade de Boa Vista do Itá, a professora Aldaíza dos Santos ainda mantém os hábitos familiares de colaborar no beneficiamento da mandioca | Foto: Cezar Magalhães

O sorriso tímido e as mãos ágeis no corte da mandioca podem passar uma impressão limitada de Aldaíza de Deus dos Santos, 25 anos, moradora da comunidade quilombola de Boa Vista do Itá, Santa Izabel do Pará, Região Metropolitana de Belém. Professora de ensino fundamental, ela é graduada em Pedagogia e pós-graduada em Psicopedagogia por uma faculdade particular de Belém.

A jovem é uma das poucas que conseguiram dar continuidade aos estudos no local, apesar de todos os problemas ainda existentes em sua comunidade, como coleta de lixo feita somente uma vez por semana, ausência de posto de saúde nas proximidades, distância do centro do município e falta de escola e creche no interior da localidade. “Em geral, as meninas casam logo e o homens fazem apenas o ensino fundamental, depois vão ajudar os pais na roça”, diz.

O prédio da escola que existiu na comunidade há alguns anos é, hoje, um amontoado de pedras e concreto que demarcam uma triste fisionomia de abandono e descaso com a comunidade | Foto: Cezar Magalhães

A história de Aldaíza é semelhante, em vários aspectos, a de muitos outros jovens quilombolas, em especial do sexo feminino, que desejam prosseguir nos estudos. O sonho de cursar uma graduação e ter um futuro melhor que o dos pais muitas vezes “obriga” meninas a saírem de suas comunidades e manterem, além da rotina escolar, um cotidiano de trabalho como empregadas domésticas e babás, sem cumprimento de leis trabalhistas, em troca de ajudas de custo e moradia.

Aldaíza viveu tudo isto e, desde os 14 anos, começou a trabalhar como babá em uma residência em Santa Izabel. A mudança para “a cidade” trouxe ainda consigo outros desafios, como a “inserção” em uma sociedade nova, em que o desconhecimento era e ainda é recíproco, seja da parte dos quilombolas sobre o novo espaço de vivência, seja dos moradores como um todo em relação a esta camada da população.

Distante cerca de 50 quilômetros de Belém, a comunidade onde Aldaíza nasceu e foi criada é desconhecida pela maioria da população, com exceção de pesquisadores e pessoas que possuem algo tipo de familiaridade com a cidade. Apesar de serem reconhecidos pela Fundação Cultural Palmares, os moradores de Boa Vista ainda não possuem a posse da terra, convivendo com o receio da perda do espaço em que vivem há cerca de dois séculos.

Seu sonho de ser professora, no entanto, motivou a luta contra os desafios e a busca de novas oportunidades, sem deixar de lado sua origem e mesmo suas práticas. Para isto, muito colaborou também o incentivo e insistência de sua mãe, Anézia dos Santos, de 56 anos. “Muitas vezes ela chegava cansada em casa, dizendo que ia desistir. Uma vez me informaram que ela estava devendo dois mil reais, ia ter que cancelar a faculdade. Mas eu pensei: ‘eu vou arrumar esse dinheiro! Ela não vai cancelar, nadou tanto pra morrer na beira? Eu quero minha filha professora!’”, relembra emocionada a mãe de Aldaíza.

A partir daí, Anézia conta que utilizou parte do valor de seu Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) e quitou as dívidas na faculdade. “Estávamos precisando de tudo em casa, mas seguramos as pontas e depois as coisas melhoraram”. Após todos os esforços, hoje, ela se diz realizada e orgulhosa por possuir duas filhas graduadas, apesar das dificuldades, e segue morando na comunidade.

Anézia, Andréa e Victória. A importância da educação na família é passada de geração para geração | Foto: Cezar Magalhães

A outra filha de Anézia, Andréa dos Santos Mendes, 32 anos, é técnica em Enfermagem e atualmente cursa Pedagogia em uma faculdade particular em Belém. Ela também mora em Boa Vista e ainda convive com problemas estruturais que, apesar de parecerem simples, causam transtornos e atrapalham o ensino e o aprendizado, como a dificuldade de acesso a um computador e internet, digitação e impressão colaboram para dificultar os estudos. “Não tenho computador, então tenho que escrever a mão e passar para alguém digitar. Às vezes, sai muito caro... Um trabalho de duas folhas sai a quarenta reais”, conta.

Os problemas cotidianos de uma família são multiplicados no cenário em que vive Andréa, que precisa se desdobrar entre os serviços domésticos, os cuidados com a filha, o trabalho com produção de farinha e os estudos. Tarefas difíceis de serem cumpridas quando não se tem acesso a serviços básicos e políticas mais presentes e eficientes que englobem os remanescentes dos quilombos.

Questões sociais complexas, como o racismo, ainda persistem. Aldaíza sofreu isto pela primeira vez aos 16 anos, quando trabalhava como babá e ouviu uma conversa entre sua patroa e uma amiga. “Preta é essa daí”, apontando para ela, em tom agressivo e irônico. Como reação, a jovem afirmou que “soube relevar”, também por medo de reagir e perder o emprego. Tal situação não resultou em uma discussão ou mesmo processo jurídico, mas ainda persiste em sua memória.

“Sou preta com muito orgulho, sou quilombola com muito orgulho. Meu sonho sempre foi a faculdade e foi muito cansativo conquistar esse sonho; não tinha nem computador para fazer os trabalhos de rotina, mas eu consegui. Quero ser exemplo para outros jovens que são sonhadores, como eu”, finaliza Aldaíza, que, grávida de seu primeiro filho, deve prosseguir o trajeto da família em que a base da construção de um futuro melhor é a educação.