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RAIMUNDO X RAIMUNDO

As crônicas de quem teve as esperanças de uma vida melhor retiradas ou renovadas com o lixão de Castanhal podem ser bem representadas pela história de dois Raimundos.

Raimundo Dias, 51, é catador e atua no lixão de Castanhal há seis anos. Originário do município de Santarém Novo, trabalhava na roça até que o preço da “farinha baixou”, segundo ele. Viu no lixão uma possibilidade de melhorar a pouca renda.

Raimundo Nonato, 58 anos, ainda trabalha com a roça e a produção da farinha. Morou durante toda a vida na Agrovila Boa Vista e também viu a atividade cair. A sua própria produção baixou. Um dos principais motivos para isso foram os danos causados pelo lixão de Castanhal.

A esperança que nasce do lixo

Raimundo Dias trabalha há seis anos no lixão e conta com o prolongamento das atividades no local para manter o meio de sobrevivência de sua família | Foto: Cezar Magalhães

Raimundo Dias trabalhou desde criança na roça dos pais, em Santarém Novo. Lá, eram plantados vegetais como mandioca, feijão e milho. “A gente vivia de ‘botar roçado’, mas, com o tempo, a farinha baixou. Minha irmã veio para cá (Castanhal) e me convidou pra vir também. Trabalhei umas duas semanas aqui e depois voltei só pra buscar meus filhos”, conta.

O catador tem quatro filhos, mas apenas dois moram com ele. Os jovens – um de 22 e outro de 16 anos – também trabalham como catadores no lixão de Castanhal. O trabalho desde a juventude ditou a história deste Raimundo, e agora é replicada no trajeto dos filhos dele.

“Quando eu era moleque, meu pai falava: ‘bora’ pra roça. Quando a gente queria ir pra escola, ele falava que era pra gente ir trabalhar na roça”, relata o catador. Apesar da escolha do pai em afastar as crianças dos estudos, Raimundo se lembra dele com orgulho e com saudade. “Ele era muito bonzinho com a gente”, afirma.

Um dos filhos de Raimundo parou de estudar na 7ª série. “Ele começou a trabalhar aqui (no lixão). Teve um tempo que ele precisava de material (escolar) e não tinha, daí ele parou de ir pra escola”, comenta o catador.

Raimundo diz que estudou “apenas o ABC”. “Só sei escrever meu nome e ler pra pegar um ônibus em algum canto (lugar)”. O fato parece não trazer tristeza para o catador, que, no dia-a-dia, se guia mais pelas cores: pets verdes para um lado, pets brancas para o outro, pets pretas para lá.

O processo de separar as pets faz o preço do produto subir (é o que eles chamam de lixo separado). “A pet é muito ‘maneira’ pra colocar no bag”, conta. Ele vende um bag de 20 quilos por R$ 12, aproximadamente. Por mês, ele ganha entre R$ 700 a R$ 800, mas teve um tempo que ele chegou a ganhar menos de R$ 15 por dia.

“Teve um momento em que os carros estavam vendendo as ‘carradas’ (monte de lixo despejado), daí não dava pra gente. Aqui é muita gente que trabalha”. Nesse tempo, Raimundo conseguia reunir pouco mais de R$ 500 no final do mês.

Para quem vive da produtividade cotidiana, qualquer interrupção no despejo das carradas pode prejudicar a renda mensal. Como foi no início de janeiro de 2015, quando o lixão ficou quase quatro dias sem receber os caminhões.

O que motivou a lacuna no abastecimento foram as barricadas improvisadas que alguns moradores da Agrovila Boa Vista utilizaram para interditar a pista do local. Eles protestavam contra o avanço do lixão, que chegava perto a uma igreja do vilarejo. Um desses manifestantes era Raimundo Nonato.

A esperança que se esvai com o lixo

Agricultor Raimundo Nonato foi um dos moradores da Agrovila Boa Vista mais afetados pelos efeitos do lixão | Foto: Cezar Magalhães

“Nós fomos para o acerto”, conta Raimundo Nonato, 58 anos, que é morador da Agrovila Boa Vista e vive do plantio e da produção de farinha de mandioca. Ele se referia ao protesto que interditou a entrada do lixão por quase quatro dias. “Acerto”, nesse caso, tinha o sentido da busca pelo diálogo, apenas.

Pai de família (tal qual o Raimundo que trabalha no lixão), ele entende que o fim do lixão pode retirar o sustento de dezenas de pais de família. “Tem que fechar esse lixão. Mas tem muito pai de família que vive daí. Não é pouco. Se tirar o pessoal, como eles vão viver?”, pondera.

A consideração pela sobrevivência dos catadores, no entanto, não faz Raimundo minimizar os impactos e prejuízos causados pelo lixão. Ele, que trabalha com produção de farinha de mandioca desde os nove anos de idade, vive atualmente um dos piores momentos na vida profissional.

Raimundo Nonato vende cada lata de farinha (que tem 15 quilos do produto) por R$ 35. Um saco de farinha é vendido a R$ 150 (para mercados e famílias de Castanhal e dentro da Agrovila Boa Vista). Atualmente, ele produz, em média, três sacos a cada quinze dias, o que rende um salário de aproximadamente R$ 800.

Há aproximadamente 15 anos, ele vendia cerca de nove a dez sacos de farinha. O que mudou foi a metodologia empregada na produção. Antes, a mandioca era colocada para amolecer em um igarapé em frente à residência de Raimundo. Hoje, esse igarapé foi contaminado por dejetos líquidos despejados pelo lixão de Castanhal.

Sem poder utilizar o igarapé, Raimundo tem que juntar a mandioca em barris, o que diminuiu a produção como um todo. “Diminuiu, e muito. Antigamente (na época do Igarapé), a gente colocava a mandioca na água com casca, daí ela amolecia e era rápido para descascar. Hoje, a gente tem que colocar aqui no retiro (local onde é produzida a farinha) para raspar ‘tudinho’, daí ‘custa’ (demora)”, conta Nonato.

A renda obtida com a venda da farinha é insuficiente, segundo Raimundo. “Consigo sobreviver com isso porque minha mulher é aposentada, minha filha é empregada e eu só estou com um filho dentro de casa”, conta.

Raimundo tem cinco filhos (quatro homens e uma mulher): três trabalham em uma fábrica de sabão e a filha trabalha em uma empresa de telefonia. Apenas um dos filhos ainda mora com o produtor de farinha, mas o jovem não pensa em seguir a profissão do pai.

Assim como o Raimundo Dias, Raimundo Nonato parou de estudar cedo, na 4ª série do Ensino Fundamental. Ele perdeu o pai aos nove anos de idade, desde então teve que trabalhar para ajudar a mãe e três irmãs.

“Não tinha como (estudar). Tinha que trabalhar, ajudar a sustentar a minha mãe. Ela não tinha como tirar o dinheiro dela para comprar caderno, farda. O que tinha era pouco para o pão de cada dia. Não tinha como. O jeito foi parar”, conta Raimundo.

Na juventude, o igarapé que existe em frente à residência também servia como um dos poucos locais de lazer para Raimundo, além de fornecer alimentação para a família. “Era lindo o igarapé. A gente usava a canoa, a gente pescava, tomava banho. Era uma verdadeira beleza”, lembra.

O local foi interditado, verbalmente, há quase 20 anos por agentes públicos de Castanhal, quando um dos filhos de Raimundo ficou doente ao brincar lá. Uma agente de saúde que trabalha na Agrovila Boavista colheu uma amostra da água e levou para exame. “Depois de 15 dias, em vez de vir só a resposta, vieram todos os agentes da saúde e falaram que não era pra entrar mais lá”, conta.

Além do igarapé, os exames laboratoriais apontaram que os poços da casa de Raimundo também estavam contaminados pelos dejetos do lixão (uma caixa d’água teve que ser instalada para fornecer água à família). Com a chegada do inverno paraense, quando a quantidade de chuvas aumenta consideravelmente, a contaminação do igarapé também cresce, segundo o agricultor.

Futuro incerto

Histórias diferentes construídas por escolhas distintas habitam distâncias não tão grandes. Entre algumas montanhas de lixos e caminhos de árvores, seguem na lida do dia a dia os dois Raimundos. As ponderações de um futuro incerto, no entanto, são divididas pelo catador e pelo produtor de farinha.

A incerteza por um possível fechamento do lixão. “Quando eles falaram que iam fechar, perguntei: ‘e agora, como é que vamos viver?’. Para o pessoal que tem a casa até é bom, mas e pra quem não tem a casa?”, pergunta o catador Raimundo.

A incerteza por um possível prolongamento das atividades do lixão. “A vida piorou muito. Nós não tomamos mais banho de igarapé. Nós não pescamos mais aqui, e por aí vai. Meu filho pegou hepatite por causa do igarapé e do poço”, comenta o produtor e morador da Agrovila Raimundo.

O trabalho como catador não oferece horizontes para uma possível aposentadoria e fim de vida sem a ida diária ao lixão. “Não sei, mano, se vou me aposentar. Quem sabe se um dia não chega, né?”.

Com a contaminação dos igarapés e os filhos seguindo por caminhos diferentes, a tradição da produção de farinha na família de Raimundo Nonato não deve se perpetuar pelas próximas gerações. “Isso vai acabando aos poucos. Eu tenho cinco filhos, mas nenhum ‘mexe’ com agricultura. Eu morrendo, quem vai fazer farinha aqui? Ninguém”.

Raimundo Dias, o catador, deseja que os filhos estudem e, algum dia, consigam sair do lixão. “Queria que ele estudasse. Têm muitas pessoas que estudam, daí chega um dia e arranja um emprego bom”, considera.

Raimundo Nonato, o agricultor, não deseja que os filhos passem pelas mesmas dificuldades que ele enfrentou. “Queria que eles arrumassem um bom emprego na cidade. Quero pra eles tudo de bom. Quando relembro o passado, sofro duas vezes. Com 12 anos era dono da minha vida, tinha que trabalhar para sobreviver. E eu nunca quis isso pra um filho meu. Não quero que eles fiquem aqui. De sofrimento basta eu”, conclui.

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