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TRABALHO DEGRADANTE

Distante dos modelos ideais de destinação dos resíduos sólidos, o lixão resulta não apenas em males ambientais, mas pode reunir diversas mazelas sociais, como a falta de regulamentação trabalhista, a exposição a condições degradantes, insalubres e perigosas, e mesmo os casos de trabalho infantil, em uma luta diária pela sobrevivência de dezenas de famílias esquecidas.

“O trabalho no lixão pode acabar sendo uma das piores formas de trabalho, se não for feito da maneira adequada, em razão dos inúmeros elementos contaminantes, e pelo ambiente que pode ser extremamente insalubre” - Roberto Rutowitcz

O procurador Roberto Rutowitcz, do Ministério Público do Trabalho da 8ª Região, diz que o poder público deveria dar uma atenção prioritária ao lixão. “O que nós acompanhamos são crianças e adultos se contaminando, já que falta coleta seletiva de lixo e diversos tipos de resíduos contaminantes chegam até o local. O poder público segue protelando medidas mais incisivas para resolver a situação”, continua o procurador.

Em lixões como o de Castanhal, montes de resíduos, formados por vidros e metais diversos, queimam durante o dia todo, por ação do metano, causando riscos aos catadores que trabalham sem botas e outros Equipamentos de Proteção Individual (EPI).

Foi, inclusive, por causa de um acidente com um prego, que o catador Raimundo Ferreira passou quase uma semana afastado das atividades. “De vez em quando, a gente se machuca. Um dia desses peguei uma furada de prego e passei muitos dias doentes”, relatou Raimundo.

Mesmo com o perigo de contaminação, o catador não foi a nenhum posto de saúde, já que não há nenhum próximo ao local. “Só tomei pílulas mesmo e, graças a Deus, fiquei bom logo. Depois de duas semanas, pisei noutro prego de novo”, afirmou.

Nos casos dos acidentes com os catadores, a má sorte de um corte ou uma furada de prego é potencializada pela falta de condições laborais mínimas. Mesmo em uma rotina de revirar pregos e alguns eventuais cacos de vidros com a mão, a luva é um equipamento que Raimundo não dispõe no dia a dia.

“É difícil a gente achar luvas por aqui. Às vezes, quando vêm nos carros (caminhões de lixo), a gente pega e coloca na mão, mas, como quase não vêm, a gente tem que trabalhar assim mesmo. A bota a gente acha aqui. Pega e coloca no pé. A roupa eu compro às vezes e também acho por aqui”, relata o catador.

Os catadores se arriscam à contaminação e a acidentes ao realizar a catação sem equipamentos de proteção básicos, como luvas e botas. | Foto: Cezar Magalhães

A MORADORA DO LIXÃO

Nenhum dos catadores do lixão de Castanhal conhece melhor as condições do local que Maria das Graças Moraes da Silva, 44 anos, única trabalhadora que mora dentro do lixão.

A catadora trabalhava como empregada doméstica em Castanhal, mas perdeu a visão do olho esquerdo após sofrer um acidente laboral. Sem conseguir outros empregos, Maria se mudou para o lixão.

Entre uma mexida no cabelo e um sorriso, Maria se declara empolgada com a entrevista. “Poxa, vou ser estrela, vou ser entrevistada, vou aparecer no jornal, quando que eu imaginava que isso ia acontecer?”, comemora.

A residência de Maria é um barraco de barro, com um compartimento. Sem telhado, a estrutura é coberta por uma lona que não protege os ocupantes de insetos e outros bichos que vivem no lixão, muito menos da intensa fumaça que domina o ambiente.

Morando em um barraco dentro do lixão, Maria e o filho padecem sem infraestrutura básica e sobrevivem sem serviços essenciais. | Foto: Cezar Magalhães

O pequeno espaço do barraco é dividido entre a catadora e um filho dela, adolescente, que também trabalha na cata de resíduos. Ela possui mais dois filhos: um mora em Belém e outro, em Santa Catarina.

Desprovida de botas e luvas para o trabalho, o principal acessório de Maria das Graças são os óculos escuros, que a catadora sempre usa. Na casa, panelas velhas, roupas e um colchão encontrado durante a catação.

Para Maria, o trabalho no lixão é apenas um caminho – temporário e necessário – para uma vida melhor ao lado dos filhos. “Eu ainda vou conseguir minha casa, sair daqui, estou me cadastrando no programa Bolsa- Família. Estou correndo atrás de me aposentar, aí sim, vou ter uma vida melhor com meus filhos”, diz a catadora.

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