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Paz que ficou por trás da fumaça

A poucos quilômetros do lixão de Castanhal, a Agrovila Boa Vista convive, diariamente, com alguns dos principais efeitos colaterais gerados pela economia do lixo. Contaminação dos igarapés, dos poços e doenças respiratórias - causadas por uma cortina de fumaça que aflige a população quase 24 horas por dia - são alguns dos males que já viraram rotina para um conjunto de famílias que habitam o local.

A vila existe há aproximadamente 200 anos e é uma herança dos indígenas e ex-escravos que passaram pela região. Os habitantes do local são, na maioria, familiares próximos que se dividem em casas de madeira ou de alvenaria.

Os primeiros efeitos do lixão de Castanhal começaram a surgir há cerca de 20 anos, vitimando, principalmente, crianças e idosos. Haide Lameira, 70 anos, uma das mais antigas moradoras vivas do local, é uma dessas prejudicadas.

A idosa sofre com problemas respiratórios constantes causados pela fumaça exalada do lixão ao longo do dia e da noite. “Os catadores não veem a nossa situação. O lixão é muito perto daqui. Eles não veem a fumaça que a gente pega. A minha sorte é que passo sebo de Holanda (uma gordura de uso popular que auxiliar no tratamento de inflamações), faço gargarejo de limão. Mas, quando acordo, parece que está tudo travado por dentro”, relata a idosa.

A filha de Haide, Ruth Araújo, de 45 anos, é uma das principais personagens na luta contra os efeitos do lixão na Agrovila. Ela já encaminhou cartas com reclamação sobre a situação dos moradores para órgãos públicos. As respostas, no entanto, foram insatisfatórias para ela.

Idosos e crianças que residem na Agrovila Boa Vista são principais afetados pelos efeitos do lixão. Doenças respiratórias são comuns nos moradores do local | Foto: Cezar Magalhães

Ruth nasceu e foi criada na Agrovila e afirma que, atualmente, a poluição está muito mais agressiva para a saúde dos moradores. “Essa situação já existe há muito tempo, mas não do jeito agressor como está hoje. Antigamente, não tinha muita queimada. Era mais o odor. Quando chegava o inverno, a estrada fica só lama”, relembra a moradora.

“A gente fica assim, só esperando por Deus”.

“Nós fizemos várias denúncias. Agora, durante o dia, às vezes limpa. Mas é porque eles estão deixando de queimar o lixo durante o dia e queimam mais à noite. Passamos a noite todinha engolindo e transpirando essa fumaça”, continua a moradora.

Além da queima do lixo que causa a cortina de fumaça, Ruth denuncia o despejo de dejetos líquidos próximo à Vila, o que causa contaminação dos igarapés próximos e mesmo dos poços artesianos das casas. “O carro limpa fossa despeja tudo lá atrás (próximo à vila de casas). Derramam onde eles acham que têm direito, e poluem os igarapés. Temos essa nascente na estrada que também está poluída. Até os nossos poços não estão seguros com esse material que é despejado”, reclama Ruth.

Muitas das crianças que moram na Agrovila Boa Vista são as principais vítimas da poluição do ar e das águas.

O filho Maria de Nazaré, uma das moradoras do povoado, apresenta problemas respiratórios diversos por causa da inalação dos gases. O garoto de nove anos mora com a mãe e mais dois irmãos numa casa de barro em construção, sofrendo contato direto com a poluição.

“A vida aqui é difícil por causa dessa fumaça. A gente só vive gripado, principalmente as crianças, que sofrem mais. É todo dia isso, de domingo a domingo. A noite toda, o dia todo”, conta a mãe.

Embate difícil

Residentes da Agrovila Boa Vista convivem há quase duas décadas com fumaça que paira o dia todo sobre as casas | Foto: Cezar Magalhães

A comunidade da Agrovila possui uma associação de moradores que já denunciou a situação difícil enfrentada pela população, mas muitos temem represálias por parte de catadores. “A gente não pode fazer reivindicações porque sofremos o risco de represálias dos próprios catadores. O presidente da nossa associação já sofreu algumas”, disse uma das funcionárias da associação, que preferiu não se identificar.

Ela conta que o Corpo de Bombeiros já esteve no local e a denúncia estaria no Ministério Público, mas nada foi feito até o momento. “Nada do que é feito teve resultado até agora. A única coisa em que resulta é doença mesmo. Nós ficamos de mãos atadas, e a Deus dará”, lamenta.

Diversos protestos dos moradores – como os realizados no dia 26 de junho de 2014 e no dia 02 de janeiro de 2015 – impediram a entrada dos caminhões que despejam lixo no aterro. Nas situações, galhos de árvores foram utilizados para bloquear o acesso à Agrovila.

“A nossa situação está crítica. Como vamos vender o que é nosso e ir embora com pouco dinheiro, se já somos acostumados e sobreviver daqui?”, finaliza Ruth Araújo.