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São sete horas da manhã. Começa a cessar a neblina que às vezes paira sobre as rodovias e estradas de terra - no início dos dias - na área rural de Castanhal, município do nordeste paraense, distante 68 quilômetros da capital Belém. A fumaça que vem do aterro sanitário municipal, próximo à agrovila Boa Vista, no entanto, permanece.

O aterro existe há mais de 20 anos e recebe dejetos de diversos tipos (plástico, papelão, entulho e material orgânico) provenientes da cidade de Castanhal e do distrito de Apeú, por exemplo. Os caminhões começam a despejar os materiais desde as seis horas da manhã, quando começa a lida diária de quase 200 pessoas que sobrevivem da economia gerada pelo lixo.

VÍDEO

O GUARDIÃO SOBRE A TORRE

Com uma lata de alumínio e carvão, Nataniel preparava uma porção de feijões para o café da manhã | Foto: Cezar Magalhães

Nataniel, 30 anos, é uma dessas pessoas que optou pela renda proveniente dos resíduos. Ele tem a função de “guarda” do local, sendo pago pelos próprios catadores que são donos de “lotes” no lixão. Do alto de uma torre improvisada, observa o movimento no aterro e a entrada e saída de pessoas. “Eu vim em busca de uma melhoria. Para quem é do interior, é uma melhora de 100%, não tem nem comparação”, conta.

Ele é natural do município de São João de Pirabas, nordeste paraense, onde trabalhava com a produção de farinha e pesca. “Lá é muito bom, mas depois de certo tempo não dá mais pra ficar. Não tem pra onde crescer”.

Do alto da torre construída com areia e lixo, Nataniel parece avistar a oportunidade que procurava: semanalmente, ele consegue lucrar entre R$ 300 e R$ 400. “Às vezes, dá pra fazer R$ 90 em um dia”, relata.

A renda é proveniente também da mãe dele, que trabalha no mesmo local como catadora há, aproximadamente, 20 anos. Nataniel chegou a trabalhar em uma empresa de reciclagem, no bairro do Pantanal, em Castanhal, mas o negócio faliu e o jovem escolheu viver do lixão.

O novo emprego parecia dar mais certo que a tentativa de Nataniel de cozinhar uma porção de feijão em uma lata, sobre uma grelha rústica. “Estou aqui tentando fazer esse feijão, mas não está dando muito certo. Estou pensando em desistir e tomar só esse caldo”, sorri.

Ele já pensou em desistir dos estudos e seguir apenas com a vida de catador, mas voltou atrás na decisão. “Às vezes, passo três anos numa mesma série. Eu era muito ‘cabeça dura’, demorava para aprender as matérias. Uma vez me deixaram reprovado, mesmo eu tendo passado. Nessa hora quase que desisto, mas voltei. Hoje, estou na oitava série (Ensino Fundamental)”.

Nataniel percorre a pé os quilômetros de distância que separam sua residência da escola onde estuda. A esperança, para ele, é que a educação ofereça novas oportunidades, mais até do que o horizonte avistado de cima da torre improvisada.

Pela falta de controle na entrada de resíduos, lixões como o de Castanhal reúnem toda espécie de resíduos | Foto: Cezar Magalhães

Enquanto a nova profissão não chega, ele espera, ansiosamente, que ao menos o feijão amoleça e dê um gosto bom para o dia que acaba de começar. “Esse feijão aqui é na água e no sal mesmo, sem tempero. Mas é um feijão especial, aquele da colônia, vai dar um gosto melhor”, sorri novamente.

TRABALHO QUE VIROU CINZAS

Catador de resíduos, Sérgio de Souza vê o trabalho de quase uma semana ser consumido pelas chamas | Foto: Cezar Magalhães

O fogo que cozinha o feijão de Nataniel é o fogo que transformou em cinzas o trabalho de uma semana do jovem Sérgio de Souza, 20 anos. Um incêndio destruiu sete bags (sacos em que os catadores separam o lixo que será vendido) do rapaz.

Alguns catadores julgam o fato como criminoso, mas o próprio Sérgio admite que o calor intenso pode ter esquentado o ferro e o alumínio catados. “Nunca tinha acontecido isso comigo. Agora que cheguei e vi. Tinha que pagar uma dívida para um ‘cara’, e ia ser com o dinheiro desses bags”, conta Sérgio. A dívida era de aproximadamente R$ 500, e Sérgio não sabia onde conseguiria.

Apesar do ocorrido, o semblante do jovem era de quase resignação, de quem está se acostumando – na saída da adolescência - a uma vida de reveses. O jovem já levou uma facada que perfurou 3,5 cm do corpo e atingiu o pulmão.

O incidente ocorreu em uma briga de bar e deixou, além de uma cicatriz pouco abaixo da axila direita, um possível problema respiratório que ele diz não sentir tanto. “Só a falta de ar que sinto de vez em quando, mas nada demais”, afirma Sérgio.

O jovem trabalha há sete anos no local, diariamente, das 7h às 18h, e afirma ganhar aproximadamente R$ 800 por mês com a venda dos bags. Ele parou os estudos na 5ª série para poder sustentar a si e a esposa.

Sérgio não pensa em passar o resto da vida trabalhando no lixão. Por coincidência, ele vestia uma camisa que emblemava nas costas o sonho de um futuro melhor: “Gestão Empresarial”, era o que estava escrito na roupa do jovem que pensa em ter uma oficina. “A minha ideia é uma abrir um negócio. Tenho o plano de montar uma oficina, pra remendar pneus de bicicleta e de moto”, comenta.

A ECONOMIA DO LIXO

Crianças e adolescentes ajudam pais na catação de resíduos no lixão de Castanhal | Foto: Cezar Magalhães

A economia gerada pela comercialização do lixo não é muito mais simples que a gestão de negócios que Sérgio terá que lidar quando montar a oficina. A explicação sobre o comércio no local foi dada pelo catador Antônio Gilberto, 28 anos, que trabalha na profissão desde criança.

O preço de cada bag depende do peso do material, explica Antônio, enquanto caminhava carregando um saco que pode chegar a pesar 100 quilos.

Em média, os catadores vendem por 40 centavos o quilo do lixo recolhido. Antônio consegue aproximadamente R$ 20 por cada bag vendido. “Tenho que fazer uns três bags por dia, mais ou menos. Tem dia que dá pra fazer quatro ou cinco”, conta o catador.

Com a produção, há quinzenas em que Antônio consegue ganhar cerca de R$ 500. O bag também pode ser vendido “misturado” ou “separado”. O produto “separado” é mais caro, porque é entregue sem os “sacos finos” (sacos de plásticos brancos que envolvem o lixo, como sacos de supermercados, por exemplo).

Catadores reúnem material coletado em “bags”, que podem pesar até 100 quilos | Foto: Cezar Magalhães

Cada produto tem um preço diferente: o quilo das garrafas pets sai por R$ 0,50; o plástico branco, por R$ 0,35; e o plástico colorido, a R$ 0,30.

Aproximadamente, de cinco a seis caminhões de lixo despejam lixo no aterro municipal diariamente. Deles, o carro conhecido como papa-lixo é o que comporta a maior quantidade de material. Além dele, caçambas e “conteiners” também jogam dejetos no local.

A chegada do inverno paraense ainda representa uma opção de lucro a mais para os catadores, segundo Antônio Gilberto. Com as chuvas, o material fica molhado, o que aumenta o peso de cada bag vendido.

“Às vezes, vai um pouco de terra dentro do saco, o que vai dar uns 70 a 80 quilos. Faço, em média, 15 bags por semana”, conta o rapaz, que aprendeu a arte de catar lixo “olhando o pessoal, vendo as coisas”.

Ele começou a trabalhar no lixão desde os seis anos com a avó, que também é catadora. “Hoje em dia, ela está aposentada. De vez em quando, vem catar umas roupas, quando precisa, e só. Eu fiquei”, relata Antônio.

Ele já teve mais de oito profissões com carteira assinada (como ajudante de pedreiro e betoneiro na construção civil), mas a dificuldade de se estabelecer faz o jovem retornar ao trabalho no lixão de Castanhal.

Rendimento médio do trabalho de catadoras e catadores

Fonte: IPEA/2013