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SAÚDE

Hospital era para estar pronto há 4 anos

Quarta-Feira, 13/06/2018, 07:12:15 - Atualizado em 13/06/2018, 09:28:11 Ver comentário(s)

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Hospital era para estar pronto há 4 anos  (Foto: Ney Marcondes)
Obras do Hospital Regional de Castanhal deveriam ter sido entregues por Jatene em 2014. (Foto: Ney Marcondes)

A população do município de Castanhal há anos sofre com a precariedade dos serviços na área de saúde. O hospital municipal e a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) têm pouca oferta de médicos e de equipamentos para uma população de cerca de 200 mil habitantes, com pacientes de agrovilas e municípios vizinhos. O resultado é demora no atendimento, equipamentos sucateados e quebrados e muita reclamação.

O DIÁRIO esteve em Castanhal e constatou o sofrimento pelo qual passam os moradores desse município do nordeste paraense. O serviço de saúde na cidade polo do nordeste paraense é falho. Procedimentos mais complexos só podem ser encontrados em Belém, que já tem um sistema sobrecarregado.

Essa realidade é totalmente distinta nos estabelecimentos de saúde comandados pela esposa e pelos filhos do médico e deputado Márcio Miranda (DEM), atual presidente da Assembleia Legislativa do Estado (Alepa) e pré-candidato apoiado por Simão Jatene ao Governo do Estado. Nos últimos 14 anos (entre janeiro de 2004 e 5 de junho deste ano) apenas duas empresas da área de saúde da família de Miranda receberam do Governo do Estado mais de 30 milhões.

Uma constatação é unânime entre os usuários da saúde pública em Castanhal: a situação seria bem melhor se o governador Simão Jatene tivesse entregado o Hospital Regional Público de Castanhal. Há seis anos, em 2012, durante um comício na cidade, o governador prometeu e colocou na placa da obra – orçada em quase R$ 84 milhões - que entregaria o hospital em 730 dias, ou seja, em 2014.

A dupla Jatene e Miranda sairia candidata à reeleição dois anos depois, tendo os mandatos renovados. Só que, quando a eleição acabou, o trabalho e as máquinas no canteiro de obras também pararam, frustração que até hoje não foi esquecida pela população de Castanhal, que não esqueceu o engodo eleitoral.

PROMESSA

A promessa ainda ganhou o reforço do amigo e aliado político, Márcio Miranda, deputado estadual eleito pela região. Quatro anos depois, nem a metade da obra saiu do papel. Matéria postada pela Agência Pará no final do ano passado informa que a previsão era de entregar o hospital em funcionamento no “quarto trimestre de 2018”, eu seja, entre os meses de outubro/novembro/dezembro desse ano, em plena época eleitoral.

O vereador Mirandinha Nascimento (MDB) afirma que, se o hospital regional estivesse concluído, a população sofreria bem menos. “Esse hospital foi uma promessa do Governo atual que até hoje não foi cumprida. O resultado é a superlotação do hospital municipal e da UPA aqui de Castanhal.

Carlinhos Bacabal, vereador do MDB no município, diz que só com o Hospital Regional que a população de Castanhal terá paz. “Hoje, quando precisa de um atendimento mais complexo, o paciente é levado para Belém, sem ter a certeza de atendimento. Só com o hospital pronto e funcionando a dor e o desespero do povo mais carente de Castanhal vai acabar”.

Empresas da família de Márcio Miranda são beneficiadas com R$ 30 milhões

Márcio Miranda é pré-candidato ao Governo do Estado, com apoio de Jatene, cuja gestão já repassou altas quantias para empresas da família do deputado (Foto: Wagner Santana)

Se falta dinheiro ou vontade política para agilizar a conclusão da obra do hospital regional, o Hospital Francisco Magalhães, de propriedade de Daniela Chaves de Magalhães Miranda, esposa do deputado Márcio Miranda; e dois filhos do casal: Ygor e Ytalo, ganha destaque em Castanhal.

O estabelecimento recebeu R$ 19 milhões do Instituto de Assistência dos Servidores do Estado do Pará (Iasep). Desse total, mais de R$ 14 milhões (74%) foram pagos de 2011 para cá. Entre 2011 e 2013, quando o Iasep foi presidido pelo irmão do deputado, Kleber Tayrone Miranda, os pagamentos ao hospital somaram R$ 5,7 milhões, contra os R$ 4,9 milhões que ele havia recebido entre 2004 e 2010.

A Medical Diagnósticos e Assistência Médica Ltda também pertence à mulher e aos filhos de Miranda e atua na área de consultas e exames. Entre janeiro de 2004 e 5 de junho deste ano, o Iasep pagou à empresa mais de R$ 11,2 milhões. Desse total, mais de R$ 8 milhões (quase 71%) foram pagos de 2011 para cá.

Entre 2011 e 2013, quando o irmão do deputado presidiu o Iasep, os pagamentos à empresa somaram mais de R$ 3 milhões. Desde 2014, o Iasep é presidido por Iris Ayres de Azevedo Gama, que foi diretora administrativa e financeira da gestão de Kleber Tayrone, e também comandou as finanças da Vice-Governadoria, entre 2003 e 2006. Ao todo, o Hospital Francisco Magalhães e a Medical Diagnósticos receberam do Iasep R$ 30,4 milhões, dos quais R$ 22 milhões (quase 73%) de 2011 até hoje.

Cerca de 70% dos R$ 30 milhões foram pagos a partir de 2011, no governo Jatene, quando o Iasep passou a ser controlado pelo DEM, o partido do deputado. O derrame de dinheiro público que ajudou a fortalecer as empresas da família Miranda, também envolveu filantropia. O “Instituto de Capacitação e de Desenvolvimento Profissional e de Assistência Social Mercina Miranda”, entidade filantrópica criada por Márcio Miranda em julho de 2003, recebeu pelo menos R$ 2,6 milhões do Governo do Estado.

ALEPA

Segundo o Portal da Transparência, os repasses do Governo atingiram quase R$ 1,5 milhão, entre 2004 e 2010, a maior parte através da Ação Social do Palácio do Governo (Asipag) e da Regional de Proteção Social da Secretaria de Estado de Saúde (Sespa), em Castanhal, a base eleitoral do deputado.

Da Assembleia Legislativa, o Mercina Miranda recebeu pelo menos R$ 1,1 milhão entre 2004 e 2011, quando Márcio Miranda já era deputado estadual. Só no primeiro ano e meio de existência, o instituto foi beneficiado com mais de R$ 640 mil através de convênios com o Governo e a Alepa.

População sofre com o péssimo atendimento

A operadora de caixa Maria Sildene, 54 anos, chegou antes das 9h de ontem para uma consulta de urgência no Hospital Municipal de Castanhal para tratar uma crise alérgica. Às 10h30 teve que sair para resolver um problema para depois voltar. “Pelo que me falaram aí o atendimento só depois do meio-dia. Tem muita gente esperando e muita criança chorando no colo da mãe”.

Depois de meses de espera, a dona de casa Antônia Maria ainda não conseguiu fazer o raio-x na coluna que tanto precisa. Motivo: o equipamento do hospital municipal estava quebrado na última sexta-feira. “Estou sofrendo muito com dores e, quando finalmente chego no hospital, me deparo com essa notícia do equipamento que não está funcionando”. 

Maria de Nazaré Campos Palheta, 69, finalmente havia conseguido realizar uma consulta com um cardiologista. Chegou com a filha às 7h30 da manhã e só saiu do hospital às 11h. “A espera é muito longa e para idosos, como eu, é muito doloroso. É muita gente. A confusão e a desorganização são muito grandes”, critica.

O serralheiro Edmilson Souza já sabe: se adoecer, a peregrinação e a dor de cabeça serão grandes. “O posto de saúde não funciona aqui. Abre uma semana e fecha duas. Reabre num mês e passa dois fechados. Quando a gente consegue ser atendido, falta material. Já cheguei a marcar consulta para ser atendido 30 dias depois!”, diz.

(Luiz Flávio/Diário do Pará)





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