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Invento de 1,5 milhão de anos é o que nos diferencia dos macacos

Quinta-Feira, 12/10/2017, 15:00:03 - Atualizado em 12/10/2017, 15:00:03 Ver comentário(s) A- A+

Invento de 1,5 milhão de anos é o que nos diferencia dos macacos (Foto: Suzana Herculano-Houzel (Foto: (FOTO: LEONARDO WEN/ EDITORA GLOBO)))
(Foto: Suzana Herculano-Houzel (Foto: (FOTO: LEONARDO WEN/ EDITORA GLOBO)))
Suzana Herculano-Houzel (Foto: (FOTO: LEONARDO WEN/ EDITORA GLOBO))

 

Um simpósio no ano de 2004 marcou a vida da neurocientista brasileira Suzana Herculano-Houzel. Era a inauguração do Instituto Internacional de Neurociência de Natal, com participação de um especialista renomado em evolução do cérebro de primatas, o Jon Kaas. Suzana, ainda a alguns anos de distância de se tornar um dos principais nomes brasileiros na área, resolveu abordar o americano: “Se eu dissesse que tenho um modo muito simples de contar os neurônios do encéfalo inteiro, de córtices inteiros, de qualquer estrutura que interesse, qual seria a importância disso?”.

A resposta de Kaas não poderia ser mais encorajadora. “É isso que temos procurado o tempo todo, mas ninguém sabe como fazer”. Suzana sabia e passou os dez anos seguintes contando células de 41 espécies de mamíferos, passando por ratos, capivaras, orangotangos, girafas, elefantes e, claro, os humanos.

Com linguagem simples e acessível, chega às livrarias nesta sexta-feira (13) seu sétimo livro, A Vantagem Humana (Cia das Letras, R$ 54,90), em que conta com detalhes o processo que a levou a entender como a humanidade chegou no topo da cadeia alimentar.

A neurocientista ganhou destaque na imprensa em meados de 2016 justamente pelas dificuldades de fazer ciência por aqui, quando decidiu trocar a Universidade Federal do Rio de Janeiro pela Universidade Vanderbilt, na cidade norte-americana de Nashville. Ela chegou a abordar o “pesadelo que era tentar fazer ciência” em uma entrevista à Revista Galileu. No livro ela se aprofunda no tema, mas com algumas passagens cômicas, como quando quis trazer na bagagem o cérebro de um elefante da África do Sul.

Estão em suas descobertas, porém, o ápice do livro. Desde o início deixa claro: “não existe razão para supor que nós, humanos, fomos destacados em nossa história evolutiva ou ‘escolhidos’ de qualquer outra maneira”. Mas então por que só a gente consegue fazer coisas como, por exemplo, ler esse texto? Para Herculano, é resultado da evolução somada à uma artimanha inventada 1,5 milhões de anos atrás.

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Em regra, o tamanho do cérebro dos animais é proporcional ao corpo. Entretanto, nós, os primatas, temos uma vantagem em relação aos demais mamíferos. Devido à forma como o encéfalo se estrutura, cabe um número muito maior de neurônios no córtex cerebral. Ainda assim, nosso cérebro é três vezes maior que o de um orangotango. O que fez toda a diferença, segundo a neurocientista, é uma capacidade desenvolvida pelos seres humanos que nenhuma espécie consegue imitar. Nós sabemos cozinhar — alguns de nós, pelo menos.

O cérebro consome 25% da energia disponível em nosso corpo. Mantendo uma dieta primitiva, precisaríamos nos alimentar por 9,5 horas por dia para dar conta de tanta energia. Conforme nossos antepassados bípedes começaram a transformar a comida, seja ao cortar, amassar, triturar ou utilizando fogo, a digestão ficou muito mais fácil e, consequentemente, a absorção de nutrientes.

A dose extra de energia provocou uma veloz expansão do cérebro, em especial o córtex cerebral, a parte “responsável por descobrir padrões, raciocinar de modo lógico, prever o pior e preparar-se para lidar com ele, criar tecnologia e transmiti-la através da cultura”. 

Então, se fornecermos um volume grande de energia de fácil digestão, outros animais poderiam ver seu córtex crescer e ser tão inteligentes quanto a gente. Certo? Não é bem assim. “Mudanças no cérebro dependem de variação espontânea, que gera diversidade, combinada com novas possibilidades e vantagens sobre a competição”, afirma ela. “Se ter energia abundante não ajuda a resolver um problema, tanta abundância pode acabar sendo um novo problema — como é a obesidade nas sociedades modernas”.

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Fonte: Revista Galileu





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