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EDUCAÇÃO

A cada 100 alunos do ensino médio no Pará, 46 estão em atraso escolar

Domingo, 10/06/2018, 07:20:03 - Atualizado em 10/06/2018, 07:24:50 Ver comentário(s)

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A cada 100 alunos do ensino médio no Pará, 46 estão em atraso escolar (Foto: Fernando Araújo)
(Foto: Fernando Araújo)

Pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) sobre educação, realizada ano passado, identificou que, a cada 100 estudantes do ensino médio no Pará, 46 estão fora da idade adequada. Ou seja, estão com idades maior do que deveriam ter para esse nível de ensino (15 a 17 anos). Os números mostram ainda que, de 2,7 milhões de estudantes no Pará, cerca de 45 mil (3,3%) estavam com idade inadequada para o ensino fundamental (6 a 14 anos de idade). Mas o problema se agrava mesmo no ensino médio paraense, onde o nível escolar registra o maior índice de atraso.

Esse número está longe da meta número 7 do Plano Nacional de Educação (PNE) que estipulava, até 2015, a presença de 85% dos alunos do ensino médio dentro da idade esperada para essa etapa escolar. Os dados fazem parte da Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílios Continua 2017 do IBGE que, além de dados sobre mercado de trabalho, apresentou informações importantes da área educacional.

Um dos maiores desafios da universalização da educação através do PNE está na sua meta de número 7 que consiste em garantir o aprendizado adequado aos estudantes na idade certa. Manter o estudante na série condizente com a sua idade é importante para sua motivação e crescimento escolar. 

Porém, alguns fatores como abandono, evasão, repetência e reprovação contribuem para o atraso escolar paraense. Só que o atraso escolar já inicia nos primeiros anos do ensino fundamental, etapa obrigatória do ensino básico brasileiro segundo a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB). 

ABANDONO

Apesar do abandono escolar não ser o único motivo de atraso, a pesquisa do IBGE identificou que a maior parte dos entrevistados (34%) alegaram que não completaram o ensino médio por estarem trabalhando ou procurando emprego e 26% deles alegaram que não têm interesse em concluir o ensino médio no momento.

Segundo a pesquisadora do IBGE, Marina Águas, essa realidade se configura como um “efeito dominó”. “Por exemplo: se o aluno repete um ano no ensino fundamental, provavelmente ele vai começar o médio já com atraso. Isso ajuda a explicar por que a taxa é mais crítica nessa etapa.”

“Podemos comparar a escola hoje a uma panela de pressão”

Educador e antropólogo, Romero Ximenes avalia que a pobreza que impera no país é a grande causa do afastamento de crianças e adolescentes das escolas no Brasil hoje. “A renda média das famílias na região metropolitana é de menos de 2 salários mínimos. As famílias precisam comer e acabam forçando os estudantes a abandonarem a escola para ganhar a vida, provocando a sua entrada precoce no mercado de trabalho”, explica. E a atividade que exercem estão bem longe do mercado formal. “Essas crianças deixam de estudar para vender bombom e amendoim nas ruas, para ajudar o pai numa banca de camelô ou para limpar para-brisas no sinal”, lamenta.

Ximenes diz que, ao estabelecer diretrizes para a educação, o poder público nunca leva em conta a condição social dos alunos e dos professores. “Hoje no Brasil o que importa é sobreviver nem que para isso o sonho de estudar e ter uma profissão tenha que ser adiado. Muitos retornam em algum momento da vida a estudar, mas uma boa parte acaba ficando de fora mesmo”, coloca.

ESCOLAS

Além das condições físicas das escolas no Pará não serem boas, Ximenes diz que o ambiente é tenso, motivados pela violência em geral e pelo descontentamento dos professores. “Os docentes e o Estado vivem em embate constante, o que leva a uma situação de estresse entre professores, direção e alunos. Podemos comparar a escola hoje a uma panela de pressão e isso acaba se refletindo no ensino”, compara.

O antropólogo defende uma metodologia de ensino baseada na cumplicidade e parceria com os alunos. “Temos a questão da violência, da educação que recebemos em casa e outros fatores, mas se o aluno for abordado da maneira adequada, com afetividade, sem discriminação, os resultados serão bem melhores.”

EVASÃO ESCOLAR

Mateus Ferreira, da coordenação estadual do Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública no Estado do Pará (Sintepp), afirma que a questão da evasão escolar está ligada a uma série de fatores, entre os quais a questão político-pedagógica implementada nas escolas pelo Estado. “Essa política não está atrelada aos interesses dos estudantes e ela não incentiva o estudante a permanecer na escola”.

Mas ele reconhece que a questão social é forte. “Muitos estudantes precisam trabalhar e ajudar no sustento da sua família e isso acaba os afastando da escola”.

Outra situação observada pelo sindicalista é o fato de muitas famílias acabarem se mudando de cidade após o início do ano letivo. “Muitas vezes, o aluno não consegue vagas nas escolas da nova cidade ou simplesmente fica desmotivado em continuar estudando”.

Sem saída, o aluno parte para a alternativa da Educação de Jovens e Adultos (EJA) que, segundo Ferreira, vem sofrendo uma redução drástica pelo Governo do Estado. “Está havendo muito fechamento de escolas pela parte da noite. A verdade é que o acesso a educação pública hoje não é facilitada à comunidade. Quem quer estudar passa por muitas dificuldades”, pondera.

(Luiz Flávio)





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