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ESTELIONATO

Mais de 2 mil golpes já foram aplicados este ano no Pará

Domingo, 03/06/2018, 08:40:28 - Atualizado em 03/06/2018, 08:40:28 Ver comentário(s)

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Mais de 2 mil golpes já foram aplicados este ano no Pará (Foto: Daniel Isaia/Fotos Públicas)
Somente nos quatro primeiros meses de 2018, ocorreram 2.061 casos de estelionato. No mesmo período do ano passado foram 2.138. (Foto: Daniel Isaia/Fotos Públicas)

O contato de uma pessoa estranha ocorre no momento em que, provavelmente, você mais necessita. Com uma conversa articulada, o estranho vai passando confiança e parece oferecer justamente a solução que você mais precisa. Pronto! Tal caminho é suficiente para que a pessoa, em um momento de distração ou de desespero, seja vítima de um golpe. Somente nos quatro primeiros meses de 2018, pelo menos 2.061 casos de estelionato foram registrados no Pará, segundo a Polícia Civil do Estado.

Diretor da Divisão de Investigação e Operações Especiais (Dioe) da Polícia Civil, delegado Neyvaldo Silva aponta que são diversos os tipos de crime de estelionato que chegam à divisão. Entre os casos que já foram atendidos no local, houve o da vítima que chegou a perder R$1,2 milhão em um golpe. “Foi o golpe da aplicação na bolsa de valores. O estelionatário dizia que aplicava na bolsa de valores com rendimento de 11% e até mandava extratos bancários sobre o rendimento. Tudo falso, claro”, explica. “Com esses extratos a pessoa se convencia de que estava fazendo um bom negócio, mas quando pedia para resgatar parte do investimento, o estelionatário enrolava até que sumia”. O delegado afirma que, normalmente, o estelionatário é uma pessoa que possui um alto poder de convencimento e, com isso, acaba por conquistar a confiança da vítima. 

Em muitos casos, o criminoso consegue despertar o interesse da vítima para uma suposta chance de aferir uma vantagem financeira grande. Por isso, o delegado aponta que o melhor é se prevenir. Quando a promessa de vantagem for muito fácil, por trás provavelmente virá um problema. “Não se deve fornecer dados para sites que não se conhece, não se deve acreditar em prêmios de sorteios para os quais você sequer está cadastrado. Em geral, é preciso desconfiar sempre de coisas muito fáceis”.

CASOS

Entre os casos atendidos pela Dioe – nem todos são encaminhados para a divisão, já que qualquer delegacia pode investigar crimes de estelionato – os mais frequentes são os praticados contra idosos. “Na questão dos idosos a gente sempre orienta que ele, quando for contrair qualquer obrigação – comprar, pedir dinheiro emprestado – sempre vá acompanhado de uma pessoa que possa entender aquele tipo de operação e não deixar pessoas estranhas se aproximarem em filas de bancos, mesmo que seja para oferecer ajuda”.

ALGUNS DOS GOLPES REGISTRADOS NA DIOE

Empréstimo consignado - Geralmente o idoso é aposentado ou pensionista e faz um contrato de empréstimo. A partir desse contrato, os fraudadores conseguem os dados pessoais do idoso e acabam fazendo outros empréstimos no nome dele – esses sem autorização. Muitas vezes, a partir dos dados da vítima, os criminosos montam documentos assumindo a identidade do idoso e fazem os empréstimos consignados através de correspondentes bancários. O idoso só percebe o golpe quando vai receber o contracheque e vê que o desconto é bem maior do que ele esperava. 

Troca do cartão - Os criminosos vão até os caixas eletrônicos e, como alguns idosos não possuem muita facilidade para usar a máquina do caixa, oferecem ajuda. Nesse momento os criminosos conseguem captar os dados do idoso e trocar o cartão dele por outro. Com isso passam a conseguir movimentar a conta do idoso.

Resgate do cartão - Uma quadrilha presa recentemente estava, com a conivência de um funcionário de uma instituição bancária, conseguindo resgatar dados pessoais de pessoas que já tinham morrido. De posse dessas informações, os criminosos resgatavam o cartão e renovavam as senhas dos falecidos.

Site de anúncios - O criminoso anuncia, no site de anúncios, um veículo (cujo valor de mercado é em torno de R$40 mil) pelo valor de apenas R$25 mil. Muitas vezes a vítima mora em Belém e o anúncio é de uma loja supostamente localizada em municípios distantes, como Nova Timboteua, Quatipuru. Mesmo assim, diante da possibilidade de economizar uma quantia grande, a vítima decide fechar negócio sem sequer ter visto o veículo. Os anunciantes pedem para a pessoa depositar uma entrada de 30% ou 40% e, quando a vítima deposita a primeira parte, o anúncio e o ‘vendedor’ somem. Só aí a vítima descobre que o carro não existe.

Colecionadora de joias - Houve um caso registrado na Dioe em que mãe e filha se diziam colecionadoras e revendedoras de joias. Em cada cidade que chegavam, inclusive em Belém, a dupla se hospedava em condomínios de luxo, alugando casas com cheques sem fundo. Com acesso às áreas comuns do condomínio, as criminosas se aproximavam das pessoas, principalmente das mulheres, e diziam que comercializavam joias e perguntavam se não sabiam de alguém que gostaria de vender. Elas recebiam as joias mediante pagamento de uma entrada, como sendo o início da negociação. Com essa entrada a vítima adquiria confiança, mas após isso as ‘compradoras’ sumiam, mudavam de cidade para dar início a um novo golpe.

Príncipe encantado - Um homem começa a entrar em contato com mulheres, por meio da internet, e diz que é bem sucedido e mora na Inglaterra ou em qualquer outro país. Ele consegue envolver algumas mulheres dizendo que vem para o Brasil para tentar um relacionamento com a pessoa. Depois de um certo tempo ele liga e diz que está em São Paulo e diz que esqueceu o dinheiro dele no exterior e pede que a pessoa depositasse R$5 mil ou R$7 mil que, quando chegasse a Belém, iria ressarcir o dinheiro. Algumas pessoas chegaram a realizar o depósito e só depois descobriram que era golpe.

Gerente - Criminosos conseguem invadir os dados de pessoas aposentadas e ligam se identificando como funcionários de um banco que estão entrando em contato para avisar que conseguiram detectar que alguém tentou usar o cartão de crédito da vítima. Eles acalmam a vítima dizendo que o banco conseguiu detectar a fraude, mas que precisa do cartão e da senha para realizar uma perícia. A vítima fica agradecida por terem descoberto e entrega o cartão e a senha aos criminosos que, muitas vezes, vão buscá-lo na própria residência da vítima. Imediatamente os criminosos passam a fazer compras e saques com o cartão até a pessoa descobrir que é um golpe e bloquear o cartão. Nesse pequeno espaço de tempo os criminosos chegaram a dar prejuízos de R$70 mil.

Promessa da casa própria - O criminoso diz que é vinculado a um político e que vai facilitar o acesso da vítima ao projeto “Minha Casa, Minha vida”. Além de pegar os documentos da vítima, os criminosos ainda cobram o pagamento de uma taxa pelo cadastro.

Emprego - O indivíduo entra em contato com pessoas pela internet e oferece emprego. Se identificando como assessor de políticos, ele oferece vagas de emprego para motorista em órgãos públicos, mas afirma que para fazer o cadastro a vítima teria que pagar uma taxa de R$500 a R$1.000 para conseguir um emprego.

Aposentado perdeu R$ 1.730

No caso do aposentado Pedro Paulo, 63, a ‘aproximação’ do criminoso se deu por telefone. Ele lembra que recebeu uma ligação de um homem que se identificou como sendo seu sobrinho. “Ele já começou perguntando: ‘não se lembra mais de mim, tio?’. Sou o seu sobrinho que saiu de Belém”, recorda. “Como eu realmente tinha um sobrinho que se mudou para Curitiba ainda criança, eu achei que era ele”. 

Pedro conta que conversava frequentemente com o sobrinho que morava em Curitiba e que, por coincidência, a voz do criminoso no telefone era parecida com a do sobrinho. Esse fator foi determinante para que ele acreditasse estar falando com o parente. “Ele disse que estava na BR e que o carro havia quebrado, mas que o seguro não estava aceitando o cheque dele porque era de Curitiba”, lembra. “Eu perguntei para ele quem estava no carro e ele disse que estava com a mulher, o filho e a filha. Isso, o fato dele falar em Curitiba e a voz que era parecida fazia tudo ‘bater’ certinho com as características do meu sobrinho”. 

Pedro fez uma transferência no valor de R$1.730. Somente após o envio do dinheiro é que o aposentado passou a refletir sobre a possibilidade de ter caído em um golpe. “Não conseguimos ir atrás nem com o número da conta que ele deu. Eu perdi, mas Deus me deu de volta lá na frente. Agora estou mais atento”.

Punição vai de penas alternativas até prisão

Quando praticado contra idosos, o crime de estelionato prevê uma pena mais severa, aponta o advogado criminalista Antônio Graim Neto. Se a vítima tiver idade abaixo de 60 anos, o crime tem pena prevista que varia de 1 a 5 anos. Já quando é praticado contra idosos, a pena sobe para 2 a 10 anos. 

Apesar disso, o advogado explica que nem sempre o estelionatário pagará pelo crime na prisão. “Esta pena em si permite, dependendo da gravidade do delito, que a pena final seja de até 4 anos. A consequência disso é que se o praticante do crime tiver condições subjetivas para isso (como a ausência de reincidência), poderá ter a pena substituída por pena alternativa”, esclarece. 

“Não necessariamente o estelionatário vai receber uma pena de prisão – por conta da possibilidade de substituição. Agora o indivíduo que é recorrente, que está sempre reincidindo nessa prática, já começa a visualizar essa possibilidade”.

Mesmo com chance de o estelionatário pagar pelo crime através da prestação de serviços à comunidade, por exemplo, Antônio Graim Neto não acredita que a lei seja branda para este tipo de crime. Ele explica que, ao fazer a análise do caso pelo Código Penal, é considerado o grau de violência do crime, quanto ele gerou de danos e outras variantes. 

“O estelionato gera prejuízo, assim como todo crime, mas ele não está entre os crimes mais gravosos que nós temos. Então, não será assim tão simples a possibilidade da prisão”, considera. “O que não significa que não tenham meios para desestimular o sujeito a praticá-lo novamente. A pena alternativa também gera um desestímulo, sobretudo, para quem gosta de enganar os outros”.

O advogado diz que, mesmo que o criminoso cumpra a pior pena prevista, não há garantia de que não venha a praticar novos delitos. “A pena poderia ser até menor, mas se houvesse um sentimento maior de que qualquer ato venha a ser punido, mesmo que seja em uma proporção menor, isso desestimularia mais”, afirma.

Advogado Antônio Graim (Foto: Ricardo Amanajás)

Serviço

Diante da suspeita ou mesmo se foi vítima de um golpe, a pessoa pode registrar um boletim de ocorrência em qualquer delegacia. Casos envolvendo falsificação de documentos públicos ou golpes envolvendo muitas vítimas geralmente são direcionados para a Dioe.

Como atuam os criminosos

- Escolha: No primeiro momento o criminoso escolhe a possível vítima, considerando o poder aquisitivo e possíveis situações de vulnerabilidade emocional ou mesmo financeira.
- Confiança: O criminoso se aproxima da vítima e tenta conquistar sua confiança. Neste momento, utiliza todo o seu poder de convencimento.
- Vantagem: Dependendo do golpe, o criminoso tenta convencer a sua vítima que ela poderá aferir uma grande vantagem (produtos com preço muito abaixo do mercado, oportunidade de empregos mediante pagamentos de taxas, possibilidade de lucro alto e fácil).
- Cegueira: Mediante a confiança despertada pelo criminoso, a vítima entra em uma fase de ‘cegueira’. É quando passa a entregar cópias de documentos para o criminoso, efetua transferências de dinheiro, etc.
- Golpe: O criminoso consegue o que objetivava e o golpe em si é concretizado.
- Fuga: O criminoso some. Não atende mais aos telefonemas da vítima, bloqueia a vítima nas redes sociais, etc.
- ‘Cai a ficha’: A vítima então se dá conta de que foi vítima de um crime de estelionato

(Cintia Magno/Diário do Pará)





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