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Moradores apostam na união para tentar garantir melhorias na Cidade Velha

Sexta-Feira, 12/01/2018, 07:42:16 - Atualizado em 12/01/2018, 07:44:24 Ver comentário(s) A- A+

Os moradores do bairro da Cidade Velha têm se articulado para fiscalizar e cobrar ordenamentos no espaço público da região onde Belém nasceu e que nesta sexta-feira (12) completará 402 anos de fundação. O movimento entre os residentes se intensificou após a chacina em 5 bairros da capital, em 2014, após a morte de um cabo da Polícia Militar. Com a sensação de medo, eles criaram a Rede de Cooperação pela Segurança e Sustentabilidade (RCS2) para pensar ações de segurança pública. Pouco mais de 3 anos depois, a iniciativa tem sido uma experiência relevante para a melhoria na qualidade devida dos cidadãos. 

Ivan Costa, presidente do Observatório Social de Belém, administrador e contador, e integrante da RCS2, relata que após a criação da rede foi possível ficar mais próximo da Polícia Militar (PM), que faz rondas no bairro. A criação de um grupo de WhatsApp com mais de 150 pessoas, onde também estão inclusos policiais, possibilitou a interação e discussão de forma mais ágil sobre crimes no bairro, desde os que ocorrem nas ruas até em ônibus e vans. Mas a perspectiva é mostrar aos moradores e também ao poder público que a discussão sobre segurança envolve diversos fatores. 
“Sou morador do bairro há 47 anos e o que nos motivou realmente a nos unir foi a questão da violência. Mas as pessoas geralmente pensam que o aumento dos crimes é por conta da falta de policiamento, mas não é, não é sobre mais policiais nas ruas. Percebemos, na verdade, que não tínhamos o controle social da polícia”, afirma. 

INTEGRAÇÃO

“Agora, a PM se integra aos moradores, nós fomos atrás para criar esses vínculos. No grupo do aplicativo da Rede de Segurança, quando alguém é assaltado, todos ficam sabendo e podem acompanhar o desenrolar. Isso também facilita para sabermos os pontos mais arriscados, para darmos nosso retorno com informações úteis”,
diz Ivan Costa.

Com o avanço das ações de segurança, os moradores também passaram a perceber que outros problemas estavam correlacionados ao tema e que era impossível não serem pensados. Como, por exemplo, a situação da população de rua. “Conseguimos esse avanço na segurança e agora queremos pensar na assistência social, não só aqui, mas na Campina também. Podemos contar com pessoas que podem doar seu tempo e até dinheiro para viabilizar ações. Nosso desejo é poder falar diretamente com o prefeito (Zenaldo Coutinho) para saber dos atendimentos às pessoas em situação de vulnerabilidade. Onde estão os educadores e assistentes?”, questiona.

Movimentação sustentável

A microempreendedora social Hérica Herculano Cavalcante atua para aglutinar os moradores e fazer com que participem ativamente da vida política do bairro. Isso pode se dar por meio de reuniões e eventos comunitários para que se expandam as atuações para outros setores, como turismo, lazer, cultura, saneamento básico, coleta seletiva - também encabeçados pela Rede de Cooperação pela Segurança e Sustentabilidade junto a outros coletivos sociais e de arte e cultura que já existem no bairro, com o objetivo de corroborar 
a ideia do grupo.

“A gente quer é a Cidade Velha viva novamente, atrair esse morador que não tem tempo para cobrar seus direitos. É um projeto piloto que depois pensamos em replicar para outros bairros, a partir do que já deu certo em cidades históricas como as de Minas Gerais”, destaca. “Temos esperança de que o centro histórico possa ser movimentado de forma sustentável não só no carnaval e no Círio, mas com ações de turismo. Ainda não temos um centro de turismo aqui”, comenta.

Biblioteca do Porto: conexão com os moradores

Algumas atividades para olhar para o outro lado da Cidade Velha também já começaram a ser desenvolvidas, como a criação da Biblioteca do Porto, localizada em um dos boxes do mercado do Porto do Sal, uma iniciativa do Coletivo Aparelho, formado por moradores da Cidade Velha e bairros próximos e que atua na área da arte-educação.

É que o centro histórico, como é conhecido tradicionalmente, é quase sempre lembrado pelo complexo de casarios e pela imponência das construções arquitetônicas do período colonial, como as igrejas da Sé e de Santo Alexandre, ao lado do Forte do Castelo - o marco de fundação de Belém. Mas, há uma população que mora no bairro e vive em moradias precárias e sem saneamento básico, às margens do Rio Guamá, entre embarcações e portos de trânsito de pessoas e mercadorias.

AÇÕES
A terapeuta ocupacional Anne Dias, uma das integrantes do coletivo, observa que não há creches no bairro, tampouco escolas municipais e que, a partir de ações prévias no mercado, com os demais integrantes do Coletivo Aparelho junto às crianças e adolescentes, notou a necessidade de atividades de leitura e escrita. Recentemente, o projeto foi um dos contemplados com o edital de patrocínios do Banco da Amazônia e o coletivo está aberto também para propostas de auxílio, já que é uma entidade sem fins lucrativos.

“Falamos que a biblioteca é um ponto de partida e de partilha, para fomentar essa atividade de formação das crianças, nosso principal público-alvo. A biblioteca surgiu após um projeto de residência artística que realizamos lá, mas foi tomando corpo e se estabeleceu como uma conexão com os moradores”, explica Anne Dias. “Recebemos muitas doações, colocamos as prateleiras e agora queremos trabalhar cada vez mais com temáticas ligadas à educação, respeito às diversidades, o direito à moradia digna, à arte e cultura, o que, infelizmente, a maioria não tem acesso”. 


(Dominik Giusti/ Diário do Pará)

 

 







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