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Conheça a mulher que se tornou símbolo de luta

Domingo, 19/06/2016, 10:09:24 - Atualizado em 19/06/2016, 10:09:24 Ver comentário(s) A- A+

Conheça a mulher que se tornou símbolo de luta (Foto: Marcelo Lelis)
(Foto: Marcelo Lelis)

“A vida pertence a quem se atreve”. A frase, postada na última quinta-feira no Facebook por Marie Henriqueta Ferreira Cavalcante, é uma boa pista para ajudar a definir a mulher de 55 anos, que se tornou referência no combate à exploração sexual de crianças e adolescentes no Pará. Freira da Congregação de Nossa Senhora Menina e coordenadora da Comissão Justiça e Paz da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), a irmã Henriqueta, como é conhecida, é uma espécie de mãe para jovens em situação de risco. Tem sido assim desde que chegou ao Estado do Pará.

 No início deste mês, a atuação da Comissão coordenada por ela recebeu o IV Prêmio República de Valorização do Ministério Público Federal (MPF, dado pela Associação Nacional de Procuradores. Os rigores da vida religiosa e a árdua tarefa de defender os direitos humanos em uma região onde a violência ainda é uma mancha forte, não parecem deixar marcas sobre a jovem senhora, que em nada lembra o estereótipo de uma ocupante de cargo na hierarquia católica.

Vaidosa e sorridente, Henriqueta tem mania de arrumação e limpeza. A sala que ocupa na sede da CNBB é simples, mas está sempre organizada. “Eu gosto das coisas arrumadas. A vida passa pelo cuidado consigo mesmo e com o ambiente ”, diz. Henriqueta nasceu no Amazonas, na pequena cidade de Eirunepé, quase na fronteira com o Peru. 

Filha de um servidor público e de uma costureira, precisou se mudar ainda na adolescência para Manaus. Ali, continuou os estudos, tomou contato com a militância pelos Direitos Humanos e teve o primeiro amor aos 15 anos. Mas a vida religiosa falou mais alto. Aos 18, ingressou no convento, fez os votos de castidade e logo depois se tornou freira. “Tudo o que Deus faz é para o bem. Se tivesse filhos e marido, eu não daria conta”, diz. Diante da pergunta sobre desejo sexual, responde com naturalidade. “Tudo é uma questão de canalizar energia. Amo o que eu faço. Eu me sinto completa”. 

GANGUES

Entre Eirunepé e Belém, onde passou a concentrar seu trabalho, ela percorreu um longo caminho. A formação religiosa foi feita em Rio Claro, interior de São Paulo. Morou 1 ano em Milão, na Itália, onde aprofundou os estudos e voltou para São Paulo, para coordenar uma casa destinada à formação de jovens em situação de vulnerabilidade. Nos anos 90, fez uma rápida passagem por Belém, mas foi a partir de 2001 que fixou residência na capital paraense e começou a trabalhar com jovens da periferia, especialmente no bairro da Terra Firme. Atuava com meninos que faziam parte das temidas gangues de rua. 

Em 2009, assumiu a coordenação da Comissão Justiça e Paz da CNBB, no momento em que as denúncias de exploração sexual de crianças envolvendo políticos explodiram, com autoridades e figuras da sociedade paraense. “O jeito determinado da irmã Henriqueta me lembra a irmã Dorothy (missionária assassinada em 2005)”, diz o procurador federal Felício Pontes. “Henriqueta não esmorece diante das dificuldades e assumiu uma das áreas mais sensíveis e problemáticas no Pará que é o combate à prostituição infantil”, completa Pontes.


“Sei que há muita gente que me odeia”

Há 7 anos, Henriqueta teve papel decisivo nas articulações políticas para a abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investigou mais de uma centena de casos de exploração envolvendo crianças e adolescentes. Ajudou a convencer muitas jovens a denunciarem os agressores e se tornou alvo do ódio dos acusados. Recebeu ameaças de morte e entrou para o programa de proteção de defensores dos Direitos Humanos. Recuar no trabalho nem passa pela sua cabeça, mas confessa que não se sente segura.

“Tenho medo. Sei que há muita gente que me odeia”, diz resignada. O número de admiradores do trabalho de Henriqueta, contudo, é grande. “Ela tem uma grande capacidade de articulação, conhece a realidade e conquista adesões para as causas que defende”, diz o também procurador Federal Alan Mansur, que já atuou como procurador eleitoral e contou com a ajuda da Comissão Justiça e Paz para a coordenação do Disque Denúncia, serviço criado para receber informações sobre fraudes durante as campanhas eleitorais. Na trajetória quase sem arrependimentos, exibe apenas um lamento.

Formou-se em Biologia, mas sua paixão é a Psicologia. Fez formação em terapia holística e é capaz de passar horas conversando sobre a importância de equilibrar as energias e os chakras. Para quem a procura, aplica sessões de reiki, uma técnica de energização com as mãos que promete equilibrar corpo e mente. Diante da surpresa do interlocutor, garante que não há qualquer conflito entre a terapeuta holística e a freira que cumpre rigorosamente os rituais da igreja católica. Fã de Clarice Lispector, Henriqueta recorre a uma frase da escritora brasileira para falar de si. “O que sinto não é traduzível. Eu me expresso melhor pelo silêncio”. Quem a conhece diria que ela se expressa mesmo é pela coragem de suas ações.

(Rita Soares/Diário do Pará)

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