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Sem BRT, via expressa completa um ano

Quinta-Feira, 29/01/2015, 11:02:12 - Atualizado em 12/02/2015, 11:59:12 Ver comentário(s) A- A+

Sem BRT, via expressa completa um ano  (Foto: Gustavo Dutra/DOL)
A violência do acidente com o motociclista Antônio Silva assustou a população de Belém. Na época, a via possuía pouca sinalização. (Foto: Gustavo Dutra/DOL)

Acidentes, problemas mecânicos, infrações e mortes... Ao completar um ano de existência, a via expressa na avenida Almirante Barroso, que deveria servir para a implantação do sistema Bus Rapid Transit (BRT), se tornou uma via de risco e uma grande incógnita para quem vive em Belém.

Inaugurada no dia 31 de janeiro de 2014, a via já iniciou com acidente: um estudante foi atropelado por um ônibus ao tentar atravessar a avenida. "Quando ele entrou na ambulância, não mexia um dos braços e uma das pernas. Estava com ferimentos na cabeça. Perto do hospital ele comentou que começou a sentir a perna que não mexia", destacou na época um amigo da vítima. Era somente o início de uma série de problemas que tomariam conta da via a partir de então.

Muitos pedestres arriscam a própria vida atravessando em áreas não proibidas navia expressa. Foto: Cezar Magalhães/DOL

Sem previsão de fato para a retomada das obras, a população segue com a dúvida sobre o modo como o BRT poderá colaborar de fato com a melhoria do trânsito na cidade. Com obras que se arrastaram durante a gestão do ex-prefeito Duciomar Costa e nos primeiros anos da administração do atual prefeito Zenaldo Coutinho, a população também fica mais vulnerável a acidentes e outros problemas no tráfego.

Em um ano, os problemas foram de várias ordens, não somente relacionados ao tráfego de veículos: alagamentos e mudanças às pressas da estrutura da Almirante Barroso, como a transformação de calçadas em ciclovias também fizeram parte.

Acidentes mancharam a via expressa

Em menos de um ano, segundo a Superintendência Executiva de Mobilidade Urbana (Semob), foram registrados 36 acidentes na faixa de ônibus expressos. Deste número, foram 13 foram atropelamentos, 23 colisões e duas invasões de faixa. Dentre os acidentes, três pessoas morreram. 

Talvez o caso mais impactante registrado tenha sido a morte do motociclista Antônio Maria Soares da Silva, 49 anos. No dia 05 de agosto, ele seguia pela avenida Lomas Valentinas, quando ultrapassou o semáforo na avenida Almirante Barroso para seguir em direção à avenida 25 de Setembro. Neste momento, ele foi atingido por um ônibus da linha expressa que seguia em direção a São Brás. O impacto foi tão forte que a vítima teve o coração e o fígado arremessados para fora do corpo. Ele ainda foi arrastado por diversos metros, ficando preso embaixo do veículo, enquanto aguardava a chegada dos peritos do IML.

>>> Veja a galeria de flagrantes no Especial Vias de Guerra

Além deste caso, um homem com idade entre 30 e 35 anos foi atropelado por um ônibus no início da tarde de 28 de junho em uma das pistas da via expressa da Avenida Almirante Barroso. O acidente aconteceu no perímetro próximo à rotatória que leva à Avenida Júlio César. O motorista do coletivo expresso que fazia a linha Cidade Nova 5 – Ver-o-Peso foi surpreendido pelo homem na pista exclusiva.

Já no início de 2015, os problemas persistem: no dia 09 de janeiro, um homem identificado como Brasil Viana Tavares, de 33 anos, morreu após ser atropelado por um ônibus. O acidente aconteceu na avenida Almirante Barroso, com a travessa Humaitá, no bairro do Marco, em Belém.Minutos depois, outro acidente ocorreu no mesmo trecho da via expressa, mas em sentido contrário.

Falta de atenção colabora para ocorrências

Ao longo de um ano, diversos flagrantes foram registrados na via expressa, não somente de acidentes e infrações, mas também de falta de atenção por parte de pedestres.

No dia 20 de abril de 2013, um grupo de 14 pessoas, incluindo crianças de colo, foi flagrado transitando tranquilamente pela via. Orientados sobre perigo que corriam ao estarem no local, as pessoas explicaram que vinham do interior do Estado e não gostaram da abordagem de quem tentava ajudá-los a sair da pista.

Não é difícil também observar veículos particulares transitando na via, o que não é permitido, em especial início da manhã, final da noite e madrugada. Pedestres também se arriscam atravessando de forma imprudente.

O “jeitinho brasileiro” encoraja a má conduta de motoristas, que se aproveitam da alternativa da via para transporte público para tentar ganhar alguns minutos. Foto: Cezar Magalhães/DOL

Semanas atrás, uma estudante universitária fez um vídeo registrando a alta velocidade de um ônibus na via expressa da Almirante Barroso. O vídeo, de mais de um minuto, mostra o coletivo partindo do trecho próximo ao cruzamento com a travessa Antônio Baena até próximo da travessa Mariz e Barros, sentido São Brás - Entroncamento.

A jovem contou à reportagem do DOL que não somente ela, mas outros passageiros ficaram temerosos com a velocidade do motorista, apesar da "pressa" do condutor ajudar a "diminuir" a distância até suas casas. Veja o vídeo:



Apesar de muitas vezes serem motivadas por imprudências de parte da população, os problemas são principalmente motivados pela falta de planejamento da via, melhor sinalização e fiscalização. Em matéria de dezembro publicada no Diário do Pará, a especialista em trânsito e professora da Universidade Federal do Pará, Patrícia Bittencourt foi taxativa ao afirmar que um BRT precisa ser bem planejado, bem implementado e bem operado. "Havendo falha em qualquer das etapas, não dá certo", explica. 

Ainda como apenas uma promessa, "em Belém, o BRT foi mal planejado e mal implementado. O que se tem hoje não é BRT, porque não tem estação ao longo da via, embarque e desembarque em nível, e nem sistema informatizado, que são características desse modelo de transporte público. Não há nada além de um corredor de ônibus expresso, fruto de uma obra feita a toque de caixa e inserida em um contexto de disputa política", justifica a especialista, referindo-se ao cenário da troca de gestões de Duciomar Costa, que iniciou o processo em seu último ano de mandato, para o atual prefeito Zenaldo Coutinho.

Futuro preocupa

Na mesma entrevista ao Diário do Pará, Patrícia Bittencourt afirmou que "Estando o BRT já funcionando realmente, o trânsito já estaria fluindo melhor, eu acredito. E se não fizer em 2015, não vai fazer em 2016, porque é ano eleitoral, e obra não tem jeito, gera transtorno, seria um tiro no pé. Mas eu não vejo um movimento nesse sentido. A faixa inaugurada me pareceu uma espécie de 'cala-boca', porque não se falou mais na continuação da implementação do sistema, que é muito bom, que onde foi de fato implementado, em um ou dois anos de obras, deu certo.

A especialista diz que Belém já passou da hora em relação à urgência de um sistema público de transporte eficiente. "Só com o transporte público de qualidade se tem menos carros na rua. Criar outros meios como mototáxi e vans, à parte da questão social e de empregabilidade, é fuga. Belém é uma cidade relativamente planejada, mas que não consegue tirar seus projetos do papel, a exemplo do Ação Metrópole, lançado há 20 anos, e que nunca aconteceu! Cidades bem menos planejadas que a nossa conseguem implementar seus planejamentos, mas aqui isso não acontece", destacou.

Parece um igapó, mas é o trecho que serviria de via expressa na avenida Augusto Montenegro. Abandonado pelo poder público, o local acumula lixo, água parada e atrapalha o trânsito. Foto: Cezar Magalhães/DOL

A primeira etapa da construção do BRT causou diversos transtornos a condutores, passageiros e pedestres. A expectativa é que o mesmo ocorra na continuidade das obras, quando forem retomadas. Sobre isso, ainda há poucas informações, o que prejudica não somente o trânsito, como também as contas do município.

Segundo a vereadora  Sandra Batista, do PC do B, o prefeito Zenaldo Coutinho já teria conseguido o empréstimo de R$ 314 milhões pelo Pró-Transporte, da Caixa Econômica Federal, e que começam a ser pagos em 240 meses a partir de 2017.  No entanto, o que se vê são as vias da mesma forma, com os mesmos problemas.

>>> Conheça 10 alternativas para a melhoria do trânsito em Belém no Especial Vias de Guerra

Enquanto isso, principalmente na avenida Augusto Montenegro, as obras abandonadas para a segunda etapa da implementação do BRT trazem riscos: iluminação precária, pista irregular, sinalização antiga e blocos de concreto abandonados. Em alguns trechos, um verdadeiro Igapó se formou. Com mato alto, alagada, ciclovia quebrada, o que poderia colaborar para melhorias no trânsito da capital paraense se torna mais um dos seus problemas. 

(Enderson Oliveira/DOL)

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