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Roger Waters prova poder inabalável dos sessentões

Quinta-Feira, 05/04/2012, 02:20:22 - Atualizado em 05/04/2012, 02:20:22

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Um dos grandes clichês contados como se fossem uma realidade fechada na história do rock é que o movimento punk surgiu para dar fim e cabo de um estilo grandiloquente na música pop, personificado pelos gigantes do progressivo, do glam rock e das bandas de arena. Queen, Led Zeppelin, Yes, Emerson, Lake and Palmer e tantos mais estariam fadados ao esquecimento total, ao limbo da inutilidade. Nada mais falso. Enquanto o punk ia, sim, cavando espaço, mas abrigados por jornalistas “descolados”, antes mesmo dessa expressão existir, os “dinossauros” continuavam a lotar estádios, a vender muito e a transformar o rock em espetáculo.

Não houve, no entanto, banda que simbolizasse mais essa dicotomia entre o supostamente novo (o punk) e o arcaico (os dinossauros) quanto o Pink Floyd. A célebre camiseta ‘I hate Pink Floyd’, vestida por integrantes dos Sex Pistols, ícone punk, parecia demarcar uma zona de confronto, como uma declaração explícita de guerra. E quem venceu? Se é possível uma resposta caetanizada, seria afirmar que ambos. E nenhum dos dois.

O punk cresceu e foi assimilado pelo sistema, chegando a liderar as paradas de sucesso. Nirvana e Green Day representam bem essa chegada do punk ao topo. E os dinossauros continuam bem vivos. Prova disso foi a bem sucedida turnê de Roger Waters em solo brasileiro. Não foi a primeira vez e, a depender da vontade do público, não será a última. Waters veio comprovar uma tese não escrita, mas verdadeira. São as grandes bandas, as que fizeram história, as que tem maiores possibilidades de turnês lucrativas, capazes de arrastar um público heterogêneo, com idades variadas. De U2 a AC/DC, de Rolling Stones a Madonna, de Black Sabbath a Pearl Jam, quem arrasta multidões são os que possuem pelo menos 20 anos de estrada nas costas.

E não há como negar. Poucas bandas na história da música pop são tão queridas e emblemáticas como o Pink Floyd. Foi com essa grife que Roger Waters fincou os pés novamente em palcos brasileiros para apresentações em Porto Alegre, Rio e São Paulo (duas vezes).

Na capital paulista, o show foi no Morumbi, nos dias 1 e 3 de abril. No domingo, estádio lotado, com show marcado para às 19h30. Começou com apenas cinco minutos de atraso. Ou seja, exemplo a ser seguido. Shows cedo terminam mais cedo e permitem uma volta para casa mais tranquila ou a continuidade na noite. É uma lógica certeira.

Waters veio ao Brasil com o show que reproduz na íntegra o disco duplo ‘The Wall’, do Pink Floyd. Lançado em 1979, o disco se tornou um dos clássicos floydianos. Talvez seja o canto de cisne de criatividade inventiva do grupo, mas ao mesmo tempo, foi praticamente o disco que, tendo sequência no Final Cut, de 1983, expôs em demasia as escaramuças internas dos integrantes da banda. Pink Floyd dissolveu-se para ressurgir fraturado anos depois, com David Gilmour, o guitarrista, ganhando, junto aos companheiros Nick Mason e Rick Wright, o direito de usar a marca Pink Floyd.

Repertório une gerações, dos novos fãs aos mais nostálgicos
Roger Waters seguiu então, alternando shows com o repertório de ‘Dark Side of the Moon’, o disco mais bem sucedido do Pink Floyd e o ‘The Wall’. O segundo, um retrato quase expressionista dos traumas infantis de Waters, cujo pai morreu na guerra, é um libelo contra a guerra, o sistema educacional repressor, os estados totalitários e a alienação urbana. Foi transformado em filme pelo inglês Alan Parker. À época, Waters disse ter odiado a versão para o cinema.

Mas embora no show haja uma crítica aos símbolos do capitalismo e do consumismo, como o McDonalds e Mercedes Benz por exemplo, Waters não rasga dinheiro. Sabe o quanto o filme ‘The Wall’ é querido pelos fãs. Por isso, usa a versão cinematográfica de Parker como fio condutor do espetáculo.

E essa é a palavra que melhor se encaixa no show ‘The Wall’. Espetáculo. Outra a ser usada poderia ser “impactante”. É complicado fugir dessas duas expressões para definir as duas horas em que Waters apresenta o disco-show. É um espetáculo extremamente visual e bombástico, com o telão em forma do muro branco que caracteriza a capa do disco tomando conta de toda a extensão do palco e indo além. As imagens projetadas nele atingem um grau de qualidade que fazem, em muitos momentos, o público esquecer que no palco há uma banda.

É essa, talvez, a principal virtude e ao mesmo tempo o calcanhar de Aquiles de um espetáculo como o que tem sido apresentado por Roger Waters. A grandiloquência do show garante a emoção vivenciada pelos fãs. Impossível não se deixar impressionar. Além disso, as boas canções estão ali. De ‘Mother’ a uma sempre emocionante ‘Comfortably Numb’, o passeio pelo disco atinge fãs nostálgicos e os de última hora. Une gerações.

Em cima do muro, os rumos da música pop
Ao mesmo tempo, há uma indisfarçável frieza em tudo. Milimetricamente pensado, o show não permite momentos mínimos de descontração ou improvisos. Inclusive o “intervalo”, de cerca de 20 minutos, remete a uma ópera teatral, com a divisão por atos. E o retorno, com ‘Hey You’, uma das mais aguardadas, sendo executada por trás do muro, sem a visualização dos músicos gera uma sensação estranha. Tudo isso, aliado ao fato de que a interpretação soa extremamente igual ao disco, remete à quase certeza de que grande parte vocal é “playback”. Se isso depõe contra ou a favor, vai de cada um.

Dedicando o concerto a Jean Charles de Menezes, o brasileiro assassinado pela polícia britânica num metrô em Londres e criticando o “terrorismo de estado”, Roger Waters fez o discurso certo à plateia brasileira. Deve adaptar o discurso em cada país. Como no filme, Waters critica a alienação e o totalitarismo, mas reproduz um palco que o aliena dele com o público, que mal o vê. Repete o gesto com braços em ‘x’, numa alusão nazista e fascista e o público embarca, reproduzindo o gestual. Nada mais simbólico.

‘The Wall’ acaba sendo uma conjunção de antíteses que fazem refletir a respeito dos caminhos atuais da música pop. É, ao mesmo tempo, a prova de que o punk estava certo ao tentar demolir as instituições grandiosas do rock, mas transmite a certeza de que o fracasso nessa tentativa não é de todo mal. O show provoca catarse, por ser resultado de um repertório de uma das bandas mais criativas e inovadoras da história do rock, mas ao mesmo tempo retransmite a frieza tecnológica dos dias atuais. Impacta, mas não absorve. É capaz de levar às lágrimas os fãs de longa data, mas são lágrimas antigas, de um tempo outro.

Waters acaba utilizando um arsenal tecnológico que pretende levar o espectador a outra dimensão sonora e visual. Acaba, no entanto, conduzindo os que amam a antiga banda, a quartos pequenos, com pôsteres na parede e um disco rolando no aparelho de som. Dentro desse quarto, quem sabe, adolescentes sonhando com a possibilidade, quase inatingível, de assistir a um show do Pink Floyd. Ao tentar mostrar o futuro dos espetáculos de rock, Roger Waters nos faz fechar os olhos e pensar no ingênuo passado que se foi e que dinheiro algum irá comprar, mesmo que tentemos por duas horas. (Diário do Pará)

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