(Foto: Alex Ribeiro)
Benedicto Monteiro, Dalcídio Jurandir e Marques de Carvalho carregam este ano o peso de uma missão: cair no gosto dos estudantes e candidatos ao vestibular da Universidade Federal do Pará (UFPA). Mas a obrigatoriedade de ler a obra de cada um deles é a sombra que não se desgarra do extenso programa do processo seletivo, por mais que a universidade utilize a denominação “leituras recomendadas”. “Querendo ou não, tem que ler”, constata a estudante Débora Maria Farias, de 28 anos.
É diante dessa barreira que começa o desafio dos professores. “Você tem que mostrar que é atraente e como a leitura, através da literatura, é importante. Com a leitura, o aluno vai estar mais apto a interpretar as questões da prova, a compreender os enunciados propostos”, aponta o professor de literatura do colégio Impacto, Michel Gomes. De acordo com ele, pode-se até mudar o termo, mas a leitura dos escritores paraenses continua sendo vista como obrigação pelo aluno. “Ele lê porque é ‘obrigado’. Isso tira o prazer da leitura. Por um lado, acho louvável tanto a Uepa como a Federal trazerem para a leitura regional. É importante conhecer o que é nosso”, pondera o professor.
Esse território de descobertas e interesses, ainda que forçados, Nariane Souza, de 17 anos, começou a percorrer. “Já tinha escutado falar de Dalcídio, mas nunca tinha lido. Eu gosto de ler, mas [nesse caso] é pra ler meio forçado, só pro vestibular mesmo. A linguagem desses autores é arcaica, não me atrai”, avalia a estudante. Não é o que ela sente em relação a outra leitura recomendada - a das crônicas de Olavo Bilac. “Adoro”, afirma Nariane, que também gosta de J.R.R Tolkien. “O autor de Senhor dos Anéis”, completa.
Dalcídio Jurandir (1909-1979) já se tornou clássico no conteúdo programático das universidades locais. O livro “Belém do Grão Pará”, por exemplo, era considerado a bíblia do vestibular no período em que fez parte das leituras da prova. Talvez o autor paraense mais estudado pela academia, dessa vez Dalcídio ressurge com a obra “Primeira Manhã”. A trama do livro nunca pareceu tão atual. “Mostra a história do menino Alfredo [garoto do interior] que vai estudar [na capital] no Liceu Paraense e sofre uma série de discriminações, vai ser humilhado pelos colegas. Ou seja, é sobre bullying”, compara Michel Gomes.
OS TEMAS DE SEMPRE
De olho nas possibilidades de atrair a atenção dos alunos para os escritores paraenses, os professores tentam apresentar as contribuições literárias de cada um. “Os autores continuam contemporâneos. As temáticas, como traição, adultério, relações amorosas, críticas sociais são discussões que até hoje permeiam a sociedade. A literatura está relacionada com a realidade. São autores atemporais”, ressalta Gomes
Nesse contexto de contribuições e importância, a UFPA resgatou do esquecimento, Marques de Carvalho (1866-1910), autor do primeiro romance urbano de Belém, “Hortência”. Só que o estreante no vestibular da Federal tem dois contos entre as leituras obrigatórias, “Desilusão” e “Que bom marido”. A inclusão do autor causou uma corrida entre as editoras locais para a publicação da obra de Marques. Os contos fazem parte do livro “Contos Paraenses”, de 1889. Funcionam como recortes da Belém do século XIX e abordam temas recorrentes da literatura, do cinema, dos folhetins, das novelas de ontem e hoje, como traição, adultério, o casamento indissolúvel.
“Marques de Carvalho é um autor relevante, pois foi um intelectual atuante em seu tempo, participando de grupos de literatos, como a famosa Mina Literária”, destaca Paulo Maués Corrêa, mestre em Estudos Literários e organizador de um livro que traz os dois contos do autor, lançado este ano pela editora Paka-Tatu e com desdobramentos na internet.
Benedicto Monteiro (1924-2008) está devidamente representado pelo conto “O carro dos milagres”, cuja temática não poderia deixar de ser mais local, o Círio de Nazaré. É uma novela em que o enredo gira em torno da experiência de um caboclo marajoara na festa religiosa.
O problema é que a atração pelo sotaque da terra se esvai na primeira semelhança com a obrigação. E aí, surge outro impasse. “O aluno está acostumado a ter informação rápida, objetiva. Ele acaba não se dedicando a ter a leitura daquela obra. Ler exige tempo, concentração. O aluno acaba optando pelo resumo. O que não é o ideal”, afirma Michel. Ainda assim, ele não desmerece os méritos da proposta. “Apesar de não contemplar a gama de alunos que deveria, se de uma sala de 300 alunos, dez já tomarem gosto pelos autores paraenses já é um ganho. ”
ESTREIA ENTRE OS AUTORES
Marques de Carvalho (1866-1910) terá sua obra incluída pela primeira vez nas leituras do vestibular. Tido como autor do primeiro romance urbano em Belém, ele teve dois contos incluídos no programa. Ambos estão no livro ‘Contos Paraenses’ (1889).
(Diário do Pará)
27/02/2012 | Mais de 7 mil candidatos concorrem à vaga no IFPA
27/02/2012 | Hemopa Castanhal supera meta de doações
27/02/2012 | MP discute alagamentos no Distrito de Icoaraci
27/02/2012 | Aprovados em concurso farão protesto amanhã
27/02/2012 | Defensoria anuncia que vai prestar contas à Alepa
