Poucas palavras às vezes são suficientes para garantir o início de uma grande reportagem. Basta uma expressão ou a oralidade de quem fala e o texto vai se construindo à medida que o repórter pisa mais fundo na história que pretende contar. É assim, com o foco na simplicidade de cada gesto, que o jornalista Ismael Machado diz construir seus textos ao longo da carreira, iniciada por acaso aos 24 anos. Aos 44, agora lança seu terceiro livro, onde reúne 19 textos publicados no DIÁRIO DO PARÁ entre 2008 e 2011.
O título “Sujando os sapatos: O caminho diário da reportagem”, faz referência à expressão de um dos jornalistas mais admirados por Ismael, Ricardo Kotscho, o qual assina o prefácio do livro. Assim como Kotscho, Ismael acredita que é preciso sair das redações para se fazer uma boa matéria. “Quando eu fico muito tempo sem viajar já começo a ficar incomodado”.
A diversidade das matérias reunidas no livro é prova disso. Além dos tradicionais Ver-o-Peso e do Centro Comercial de Belém, há também o garimpo, as aldeias indígenas e quilombolas, comunidades ribeirinhas, as estradas. “É uma espécie de painel do Pará”, explica. “A ideia foi centrar no Estado o máximo possível”.
O olhar interno de uma Amazônia pouco explorada é o que mais lhe agrada em sua obra. Diante de um cenário onde o destaque à região vem muitas vezes de fora para dentro, ele vê lacunas na cobertura jornalística atual da Amazônia. “A Amazônia é tratada de duas maneiras: como a terra exótica ou como terra sem lei. São, geralmente, esses os enfoques que dão a ela”, afirma. “O legal desse livro é que é alguém daqui escrevendo sobre nós. É de um jornal local, então tem o nosso olhar”.
Dentre suas andanças pela região amazônica, o que estava sob seu olhar era algo diferente do comportamento político em si. Em vez disso, buscava as consequências dos atos institucionais. São nas pessoas, comuns moradoras do interior do Pará que detém seu interesse jornalístico. Gente com histórias para contar. “Temos que ir atrás de boas histórias e elas estão nas pessoas mais anônimas”, acredita. “Às vezes é como você vai fazer a pergunta. Todo mundo gosta de contar a sua história, mas o que se tem que fazer é procurar ouvir”.
Tendo como característica um texto que prioriza o lado humano das histórias, ele acredita que o jornalismo impresso vai se sustentar no que muitos denominam como jornalismo literário, mesmo que ele próprio não defina exatamente com esses termos os seus textos. “Estamos perdendo um pouquinho essa capacidade de narrar”, acredita. “Há outras maneiras. Não existe só uma maneira dura e fechada. A salvação do jornalismo impresso vai ser o que chamam de jornalismo literário”.
Um sorriso no rosto, um desenho sob a mesa, e um círculo imaginário o ajuda a explicar o que lhe provoca a sensação de agrado íntimo. “O texto tem que ter uma fluidez. Ele tem que dar uma volta, fluir de acordo com o que a pauta diz. Tem que ter ritmo e a oralidade dos personagens preservada”.
Professor universitário há quatro anos, ele está longe de recomendar a dispensa total das regras básicas do jornalismo, mas também acredita na desconstrução das mesmas. “As amarras, as regras, a gente tem que aprender para depois subverter isso”. Mestre em literatura, sua influência maior são as obras do gênero. “Não me preocupo muito com essa história que dizem na academia, de que se tem que simplificar tudo”, afirma. “O leitor não está preocupado com as regras. Está preocupado com boas histórias”.
Sua arma para transmitir ao leitor o que pretende é simples. Mas vai além de regras pré-definidas: a linguagem. “Usa o teu vocabulário para o leitor perceber que é absurdo, mas tu não precisas dizer que é absurdo”. O ritmo é mantido por cada história.
É quando consegue contar ao leitor o que se propôs que se guarda as matérias na memória. As histórias marcaram. Apesar de adotar um processo de seleção diferenciado, não poderia deixar de incluir no livro a matéria sobre três irmãs moradoras de um casarão na avenida Almirante Barroso. Os personagens, vistos todos os dias no Centro Comercial de Belém, também tiveram publicação certa. “Eu selecionei trinta matérias e mandei para alguns amigos escolherem, mas tinham aquelas matérias que eu sabia que não poderiam faltar”, confessa. “Cada história tem uma adequação. As histórias que mais te marcam são as que fogem dos padrões convencionais”.
LANÇAMENTO
LIVRO: “Sujando os sapatos: o caminho diário da reportagem” é o terceiro livro do jornalista Ismael Machado e reúne em 176 páginas com 19 matérias publicadas no DIÁRIO DO PARÁ entre 2008 e 2011.
O lançamento acontece no dia 13 de agosto.
(Diário do Pará)
03/03/2012 | Base de Alcântara volta a lançamentos com foguete
03/03/2012 | Familiares sepultam jovem atropelada na Almirante
03/03/2012 | Reforma de escolas terá R$ 120 milhões
03/03/2012 | Ônibus atropela e mata idoso na Augusto Montenegro
03/03/2012 | Cosanpa assume toda a Belém e ilhas
