Mãe de dois filhos, Lucélia sofre a cada nova notícia de abandono (Foto: Paula Lourinho)
“Eu choro cada vez que vejo uma notícia de que um bebê ou uma criança foi abandonada pela mãe. Isso é muito triste. Se eu pudesse, adotaria todas ou dizia para essas mães deixarem seus filhos aqui na porta de casa”, disse a pedagoga Lucélia Silva, de 34 anos e mãe de uma adolescente de 12 anos e um bebê de dois.
Para ela, os casos de abandono de crianças acontecem mais por falta de estrutura familiar. “A família é nossa primeira e principal escola. Isso vem acontecendo porque essas mulheres são de famílias desestruturadas. E abandonar um filho porque é pobre não é desculpa. Minha mãe é de família pobre, mas nunca deixou os filhos, muito pelo contrário, sempre lutou muito e até foi trabalhar em casa de família. Eu faço o mesmo com meus filhos, principalmente a adolescente. Eu a oriento muito.”
A filha de Lucélia terá uma condição melhor que a maioria das mães que abandonam seus filhos. Segundo pesquisa feita pela Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social (Sedes), o perfil dessas mulheres é de idade entre 20 e 25 anos, baixa escolaridade, sem qualificação profissional, que vivem de ‘biscates’ e moram em locais de grande vulnerabilidade.
“Oitenta por cento são solteiras, sem companheiro, têm em média dois filhos em quando estão em processo de visita ao filho no abrigo, aparecem com outro na barriga. A realidade delas é de uma vida comprometida e algumas têm o companheiro preso por envolvimento com o narcotráfico”, explicou a secretária adjunta da Sedes, Meive Piacesi.
Atualmente, 50 crianças estão nos abrigos do Estado, sendo que 27 delas aguardam decisão judicial. “Nessa fase, o juiz vai decidir se essa criança vai para adoção ou se a guarda será entregue a outra pessoa da família. A mãe já perdeu o pátrio poder”, explicou Piacesi.
O tempo máximo que uma criança pode permanecer em um abrigo é de seis meses a um ano, período que o Estado averigua as razões pelas quais essa criança chegou ao abrigo. “É um trabalho também de proteção à criança que teve o vínculo rompido com a família. Vamos buscar a história dessa criança e o porquê de ela ter sido abandonada. É um trabalho articulado por uma rede de proteção que envolve saúde, escola e qualificação profissional dessa mãe. Nós a encaminhamos para um dos nossos Cras (Centro de Referência em Assistência Social) onde ela será inserida em um dos programas sociais, como o Bolsa Família. Vamos dar toda a assistência a essa mulher para que ela tenha condições de criar seus filhos”, diz a secretária.
Ainda esse ano, de acordo com a representante da Sedes, vai sair do papel o Plano Estadual de Convivência Comunitária e Familiar. Será um novo modelo de abrigo para crianças e adolescentes abandonados. “Serão três modelos. O Casa Lar, para crianças de 10 a 18 anos, onde a família passa ficar convivendo com o filho até a decisão judicial, a Família Acolhedora, onde uma família será selecionada e capacitada para ser responsável por uma criança - esse modelo é muito usado na Europa. E ainda a República, destinada para jovens de 18 a 21 anos. São nossos abrigados que estão se despedindo da fase que moravam sob a tutela do Estado e precisam de qualificação profissional até que consigam viver sozinhos”, explica Meive.
CASO MAIS RECENTE TERMINOU MAL
Na última quarta-feira, na estrada Maracacuera, no distrito de Icoaraci, mais um bebê foi abandonado pela mãe. Mas esse não teve sorte de ser encontrado a tempo. Era uma menina e ainda estava com o cordão umbilical. O bebê foi descoberto após uma denúncia feita à polícia. Cachorros estavam revirando o saco onde estava o bebê, que foi encontrado sem o braço direito.
Segundo a assessoria de comunicação da Polícia Civil, o inquérito para apurar o caso já foi aberto e está sendo presidido pelo delegado Lauro Martins. No mesmo dia do achado, algumas pessoas foram ouvidas, mas ninguém soube informar sobre quem jogou o saco plástico. Segundo explicou o delegado, no ponto em que o saco foi deixado não há residências, o que dificulta ainda mais a tentativa de descobrir a mãe. O bebê foi enviado na sexta-feira ao Centro de Perícias Científicas para perícia e o laudo é aguardado pela Seccional Urbana de Icoaraci.
Na última sexta-feira, quando o corpo foi achado, estava no plantão da Seccional de Icoaraci o delegado Renato Barata. (Diário do Pará)
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