Na madrugada de domingo o corpo de Raimunda Fonseca foi encontrado (Foto: Thiago Araújo)
As dúvidas sobre a identidade do corpo encontrado na madrugada do último domingo nos escombros do edifício Real Class, que desabou no sábado, foram eliminadas na tarde de ontem. O diretor geral do Centro de Perícias Científicas Renato Chaves, Orlando Salgado, confirmou que o corpo retirado dos escombros era mesmo de Maria Raimunda Fonseca Santos, 67 anos, que morava na casa que ficava ao lado do prédio.
As suspeitas foram confirmadas após um exame de DNA, já que a família da vítima não conseguiu identificar o corpo. No início da noite de ontem, os familiares ainda não haviam sido informados sobre o resultado do exame.
Mesmo antes de saber da confirmação, a pedagoga Safira Araújo, vizinha da vítima e moradora do edifício Londrina, que fica próximo aos escombros do Real Class, já lamentava pela falta da amiga.
Chorando e tremendo muito, ela lembrava da noite anterior à tragédia , quando jantou com a primeira vítima retirada dos escombros, Maria Raimunda. “A nossa maior perda foi a dona Raimunda. Levaram a nossa amiga. Eu jantei com ela na noite anterior ao desabamento e ia almoçar com ela no domingo (anteontem), mas não foi possível”.
Ela estava em casa quando o prédio desmoronou e presenciou tudo, mas o que mais a abalava era lembrar da forma como Raimunda era querida por todos. “Eu já tomei bastante calmante, mas sempre que me lembro da dona Raimunda passo mal. Uma pessoa maravilhosa. Os filhos dela só a chamavam de meu tesouro”.
O corpo foi o único até agora retirado dos escombros. Ainda assim, a segunda-feira foi de muito trabalho, expectativa e mobilização na área onde ocorreu o desabamento do edifício.
Mesmo com a continuidade das buscas por desaparecidos e remoção de escombros no local, o dia foi de retorno da vizinhança, retirada há dois dias por medidas de segurança. A decisão ocorreu após reunião realizada ainda pela manhã com representantes das instituições presentes na ação.
Segundo o coordenador adjunto da Defesa Civil, major Augusto Sérgio Lima, foram feitas vistorias em todas as casas e nos prédios vizinhos e nenhuma das residências apresentou riscos à população. “Afastamos qualquer hipótese de desabamento de outras propriedades ou comprometimento dos imóveis. Os moradores podem retornar às suas casas”, garantiu. Apenas o edifício Blumenau ainda não pode ser liberado por ter sua lateral em contato com o prédio que desabou. Para concluir de forma satisfatória o trabalho no local, o major garantiu a permanência de todas as equipes por tempo indefinido. “Continuaremos aqui até o último pedaço de entulho”.
A chegada de dois equipamentos trazidos do Estado do Paraná e de novos homens do Corpo de Bombeiros para integrar a força-tarefa também fortaleceu as buscas. Esperançoso com os aparelhos, o major explicou que eles servem para facilitar o trabalho das equipes de resgate.
“Dividimos a área em quadrantes e utilizamos o sensor sísmico para identificar possíveis sobreviventes. Já a almofada pneumática nos dá a possibilidade de erguer grandes quantidades de entulho de uma só vez”, explica. Capaz de levantar até 66 toneladas, quando seca, a almofada passa por pequenos espaços e atinge locais inacessíveis para máquinas e agentes. Caso detectado alguma vítima ou corpo nesses pequenos espaços, ela é inflada e os escombros retirados.
Lágrimas estampavam a dor de quem ainda aguardava notícias dos entes desaparecidos na tragédia. A cada escombro erguido, Rosália Paixão acendia a esperança de que o irmão, Manoel Raimundo, fosse encontrado. “A gente tem que ter fé, não pode desacreditar”. Raimundo é um dos dois operários soterrados. Acompanhando as buscas desde sábado, ela tentava manter a calma e acolher a irmã que, muito abalada, gritava diante do desaparecimento do parente. “Por que ele? Meu irmão nunca fez mal a ninguém, era muito trabalhador. Não merecia esse destino”, soluçava. Segundo as irmãs, Raimundo era casado e pai de três filhos, sendo um deles portador de necessidades especiais.
Nos fundos do prédio, Pedro Bassalo recolhia parte do mobiliário da casa da tia, morta pelo desabamento do edifício Real Class. No semblante, a tristeza de quem vê um bem familiar destruído e teve suas queixas ignoradas. Segundo Pedro, o advogado irá entrar com uma ação contra a construtora por danos morais e materiais. Devido ao comprometimento estrutural do imóvel, é provável que a casa seja demolida, segundo os bombeiros.
O engenheiro civil Elias Pedrosa olhava atônito os escombros que agora ficam bem próximos ao prédio em que mora, o edifício Londrina. Ele não estava no local na hora da tragédia, mas sofreu com a angústia de não saber se sua família estava bem. “Eu fico pensando no que poderia ter acontecido. A minha família estava toda aqui”. Leia mais no Diário do Pará.
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