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Brasil concorre ao Oscar com documentário

Quarta-Feira, 26/01/2011, 02:35:29
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Brasil concorre ao Oscar com documentário (Foto: Divulgação)

“Lixo Extraordinário” mostra encontro de Vik Muniz e catadores de lixo (Foto: Divulgação)

O Brasil está no Oscar. Quem não tem dúvida nenhuma em fazer essa afirmação é o cineasta brasileiro João Jardim, codiretor de “Lixo Extraordinário”. O filme é uma coprodução Inglaterra-Brasil, dirigido pela inglesa residente nos Estados Unidos Lucy Walker, e codirigido pelo carioca João Jardim e pela pernambucana Karen Harley. João conversou com a reportagem por telefone de Foz do Iguaçu, onde se encontra em férias. Diz que ficou tenso esperando pela divulgação dos concorrentes e explodiu de alegria quando lhe comunicaram que o filme estava entre os finalistas, como se esperava. “Foi uma agonia”, confessa.

A conversa, naturalmente, gira em torno da nacionalidade do documentário. Para João, a questão é muito simples. Trata-se de uma parceria, do ponto de vista econômico, entre o produtor inglês e a brasileira O2, de Fernando Meirelles. E, pelo lado artístico, traduz uma visão mista, estrangeira e brasileira, sobre a realidade do Brasil. Havia o interesse internacional em produzir aquele encontro descrito no filme, entre o artista plástico Vik Muniz e os catadores de lixo do Jardim Gramacho, no Rio de Janeiro, e assim foi feito.

O filme, em cartaz em São Paulo e outras cidades, mostra o trabalho de Vik Muniz que fotografa catadores de lixo, depois usa os materiais do lixão para reconstituir figuras, registra de novo com sua câmera o resultado e, desse processo, tira obras espantosas. Numa delas, um dos catadores, Tião, personagem marcante da comunidade, posa como o revolucionário Marat, assassinado em sua banheira por Charlotte Corday. O Marat negro, interpretado por Tião segundo a imaginação de Muniz, causa funda impressão no espectador.

“Lixo Extraordinário” mergulha, assim, em cheio na realidade brasileira e em suas mais duras contradições. O faz a partir da experiência de um artista plástico também vindo da periferia, mas que reside e faz sucesso no exterior.

A motivação de Vik Muniz é retribuir ao seu país de origem parte do seu êxito internacional. Não faz mera filantropia. Os personagens do lixão, convertidos em artistas, participam desse sucesso. Viajam para exposições com o badalado Vik Muniz. Têm sua vida transformada por essa mesma alquimia que faz o dejeto virar arte. É comovente. Sem ser piegas. É real. Sem mistificar. Mas seria um olhar puramente brasileiro voltado a essa realidade e a esse processo de transformação? “É um olhar misto, e é desse DNA composto que o filme tira talvez a sua força”, diz Jardim. “Ele nos fala de perto, ao mesmo tempo em que tem trânsito junto ao público internacional.”

O processo de filmagem explica esse hibridismo. “A Lucy Walker veio ao Brasil e iniciou o trabalho no Jardim Gramacho”, conta. “Ela ficou apenas dez dias e teve de ir embora para tocar outro projeto dela. Então eu assumi as filmagens e realizei cerca de 60% das cenas que são vistas na tela.” Por fim, a pernambucana Karen Harley (montadora de filmes como “Cinema, Aspirinas e Urubus”, de Marcelo Gomes, e “Baixio das Bestas”, de Claudio Assis) assumiu e tocou o resto do trabalho. Por fim, o material seguiu para o exterior e Lucy Walker o montou. “Ela teve o ‘final cut’ do filme e isso é fundamental.”

ESTRANHEZAS

Ele sabe que existem pontos polêmicos no trabalho. “Como é pensado também para o público estrangeiro, algumas informações poderão parecer óbvias demais ao espectador brasileiro”, admite. Causam estranheza, também, alguns participantes brasileiros falando em inglês, como é o caso do próprio Vik Muniz. “Acho que o projeto nunca esconde sua natureza híbrida.”

João sente-se “absolutamente tranquilo” quanto à sua participação no filme. “Filmei a maior parte das cenas, mas tenho de reconhecer tanto a participação da Karen Harley como a importância do ‘final cut’ da Lucy Walker”, diz. “Sou autor de um trabalho que tem vários autores. E me sinto muito orgulhoso por ter trabalhado em algo muito legal, que leva ao mundo o conhecimento daquela realidade, e a dignidade das pessoas que vivem naquela situação.”

E sobre as chances de “Lixo Extraordinário”? “Aí já não sei, pois teria de conhecer os outros concorrentes.” João espera que não aconteça com ele o que ocorreu com Central do Brasil, de Walter Salles, que tinha tudo para vencer o Oscar em 1999, mas acabou derrotado pelo imbatível “A Vida é Bela”, de Roberto Benigni. “Lixo Extraordinário” concorre com “Exit Through the Gift Shop”, “Gasland”, “Restrepo” e o fortíssimo “Trabalho Interno”, sobre as raízes da crise econômica mundial de 2008. Agora é torcer. (AE)

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