Cineastas registram bastidores do Salgueiro, que homenageará o cinema (Foto: Divulgação)
As luzes vão se apagar, os avisos vão lembrar os espectadores de desligar os celulares e os “trailers” vão adiantar as novidades da próxima estação. Em seguida, será a vez de o puxador soltar o grito de guerra, o surdo agitar a galera e o carnaval se misturar ao cinema, enquanto o cinema se mistura ao carnaval. Ao mesmo tempo em que o Salgueiro prepara o enredo “O Rio no cinema”, para seu desfile no Grupo Especial, em março, jovens cineastas resolveram percorrer o caminho inverso e fazer um documentário sobre a preparação da escola de samba. Desde novembro, o grupo, formado por integrantes da equipe do filme “5x Favela, agora por nós mesmos” e do Ponto Cine, sala de cinema em Guadalupe, na Zona Norte, acompanha os trabalhos na escola, com foco nos bastidores do carnaval. O filme tem o título provisório de “Salgueiro apresenta: o Rio no cinema”. O projeto nasceu quando a escola procurou o Ponto Cine, pedindo uma consultoria em seu enredo. A proposta foi aceita, e a turma do cinema começou a frequentar a quadra do Salgueiro, na Tijuca. Foi aí que o produtor Thiago Sales, do Ponto Cine, teve o estalo:
— A gente estava diante de uma situação em que o carnaval falava sobre cinema, e não havia ninguém documentando isso. Era o momento perfeito para que o cinema falasse do carnaval. Os filmes sobre o assunto tratam da festa, mas não há um que fale da indústria. É isso que estamos fazendo.
Com uma ideia na cabeça, Sales foi atrás de mãos para levar a câmera por aí. Entrou, então, em contato com Manaíra Carneiro, Wagner Novais e Rodrigo Felha, três dos diretores de “5x Favela, agora por nós mesmos”, e os convidou a participar. O trio topou, e os quatro assinam juntos a direção do documentário. Sua primeira reunião foi na quadra do Salgueiro, no dia da escolha do samba, em novembro.
— Eles têm acesso a tudo — garante a presidente da agremiação, Regina Celi. — Acho que esse filme é a junção de dois espetáculos populares, o carnaval e o cinema. Não tem como dar errado.
A ideia do projeto é mostrar de um lado as dificuldades que estão por trás de tanto riso e tanta alegria, e do outro as dificuldades que existem para se fazer cinema no Brasil. O documentário ainda não tem patrocinador, mas tem vontade. Por intermédio da turma, a bateria do Salgueiro, que vai desfilar vestida como os personagens de “Tropa de elite”, terá um “workshop” com os mesmos policiais que treinaram os atores do filme. Outro encontro já marcado é do ator Flávio Bauraqui com uma ala que vai representar a malandragem no cinema: ele vai falar sobre seu trabalho em “Madame Satã”.
— Tem um personagem que é emblemático: o motorista dos carros alegóricos. O sujeito passa o ano trabalhando para que o carnaval dê certo, mas na hora do desfile ele não vê nada. A gente vai mostrar esse cara — diz Sales. — O barato do carnaval é que ele é uma festa feita por pobres para os ricos. Enquanto as estrelas de TV ficam nos camarotes de cervejarias, as verdadeiras estrelas são os pobres que estão desfilando. É uma inversão que tem muito a ver com o fato de nós estarmos aqui fazendo um documentário.
A equipe do filme continua o trabalho até a apuração do resultado. Na noite do desfile, eles pretendem espalhar seis câmeras pela Marquês de Sapucaí. Depois, é partir para a montagem e buscar uma distribuição em circuito comercial. Certamente eles vão conseguir. É que, como no carnaval, o cinema também é feito por apaixonados que nunca desistem. (AG)
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